

A indústria frigorífica brasileira formalizou ao Ministério da Agricultura o pedido para o governo negociar com a China a revogação das salvaguardas na importação de carne bovina anunciadas no fim de 2025 ou, ao menos, a revisão das medidas. A intenção é, no mínimo, mudar a distribuição das cotas e ampliar o volume autorizado para o Brasil, de 1,1 milhão para 2026.
Em ofício enviado na sexta-feira (9/1) ao ministro Carlos Fávaro, a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) e a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) ressaltaram que a salvaguarda vai afetar de forma mais intensa as empresas do Pará, que enviam para a China 77% das suas exportações anuais.
As plantas paraenses ainda não têm autorização para comercializar com mercados importantes, que poderiam absorver parte da produção que eventualmente deixará de ser enviada aos chineses.
“Esse Estado ainda não é aprovado para exportar para importantes mercados, como Estados Unidos, México, Chile e União Europeia, o que coloca em situação de elevada vulnerabilidade os produtores rurais e as indústrias frigoríficas paraenses”, diz o ofício.
As entidades pediram um “esforço concentrado” e empenho para negociar a aprovação dos frigoríficos do Estado para exportar a outros mercados. A produção total de carne no Pará, que tem o segundo maior rebanho bovino do país, com 25,6 milhões de cabeças, é estimada em 700 mil toneladas.
Oito frigoríficos do Pará podem exportar para a China: dois da JBS, em Marabá e Santana do Araguaia; dois do Mercúrio Alimentos, em Castanhal e Xinguara; e unidades do Frigorífico Rio Maria, em Rio Maria; do Masterboi, em São Geraldo do Araguaia; da Frigol, em Água Azul do Norte; e do Frigorífico Tavares da Silva (FTS), em Xinguara.
Em 2025, essas plantas enviaram 170,9 mil toneladas de carne bovina aos portos chineses, mais de 10% do total exportado pelo Brasil para lá. O faturamento foi de US$ 919,1 milhões, de acordo com dados do Agrostat, sistema de estatísticas do Ministério da Agricultura.
Com a consolidação do mercado americano como segundo principal destino da carne bovina brasileira e a obtenção pelo Brasil do reconhecimento da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) de país livre de febre aftosa sem vacinação, a Abrafrigo e a Abiec solicitaram que o governo trabalhe para ampliar as áreas aprovadas para exportar aos EUA. Além do Pará, as entidades citaram Acre e Maranhão, atualmente impedidos de vender para lá.
As vendas de carne bovina para os EUA, que bateram recorde de 271,7 mil toneladas no ano passado, são concentradas em frigoríficos de Goiás (69,9 mil toneladas), São Paulo (60,7 mil toneladas), Mato Grosso do Sul (48,3 mil toneladas) e Mato Grosso (30,8 mil toneladas). Também há negócios com plantas de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia e Tocantins.
Empresas do setor apontam que a salvaguarda da China, de forma geral, vai forçar um corte na produção de carne bovina em 2026, como mostrou a reportagem. No mercado, há quem avalie a posição como um “alarde desnecessário”, direcionado a forçar uma pressão na cotação da arroba do boi gordo. Pessoas a par do assunto dizem que a oferta vai cair de qualquer forma neste ano, em função do ciclo pecuário no país.
De acordo com o ofício, obtido pela reportagem, as associações também pediram para participar de todas as discussões do governo brasileiro relacionadas ao tema das salvaguardas chinesas e da definição de medidas para distribuição da cota entre as empresas.
O setor defende que a divisão considere proporcionalmente o desempenho por SIF exportador em 2025, ou seja, por planta habilitada e não por empresa de forma geral. O ofício diz que esse critério permitirá alcançar um número maior de plantas frigoríficas e, consequentemente, mais pecuaristas em todo o país.
“Tal medida contribuirá para evitar concentrações no acesso ao mercado chinês por parte dos agentes econômicos e atenuar impactos sobre a produção pecuária brasileira”, aponta o texto.
O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, afirmou à reportagem que solicitou uma reunião virtual com os pares chineses na próxima semana, com a intenção de apresentar os principais pontos levantados pelo governo e setor privado brasileiros.
Segundo ele, a redistribuição de cotas ociosas e a gestão específica das cargas enviadas antes da divulgação da salvaguarda são questões “justas” e serão discutidas. “Vamos pedir isso, dentro de conversas super fluídas que mantemos com os chineses. Queremos propor isso em linha de cooperação e achamos que podemos ter ressonância positiva do lado de lá”, pontuou.
Rua diz acreditar que o pedido para desconsiderar as cerca de 350 mil toneladas em trânsito para os portos chineses é algo excepcional e necessário neste momento. “É apenas para este ano, pois não havia definição e a previsão de concluir a investigação era em 26 de janeiro”, relatou. A decisão de criar a cota foi publicada em 31 de dezembro de 2025. “Depois desse primeiro ano, cada empresa saberá quanto poderá vender e não deve ter corrida de novo”, disse.
Abrafrigo e Abiec ainda pediram ao governo novas habilitações de frigoríficos para o Vietnã, mercado aberto em março de 2025, e avanço nas negociações para aberturas no Japão e Coreia do Sul. “Considerando as recentes medidas de salvaguarda da China, o tarifaço imposto pelo México e a instabilidade no mercado internacional provocada pela tendência de acirramento de guerras tarifárias e comerciais, é de suma importância que o governo brasileiro atue firmemente para a abertura, ampliação e consolidação de mercados para a carne bovina brasileira”, diz o texto.
Fonte: Globo Rural.