

Os bovinos de corte de raças taurinas registraram grandes saltos de eficiência e qualidade no Brasil nas últimas décadas, indicando adaptação às condições do país e ainda maior potencial comercial.
De acordo com os dados mais recentes do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo), todas as oito raças taurinas incluídas no programa têm evoluído de forma consistente em seus indicadores zootécnicos.
“As raças europeias estão totalmente adaptadas ao Brasil, especialmente na região Sul. Em termos de qualidade e desempenho, não perdemos em nada para outros países”, opina Laerte Afonso Rochel, coordenador do Programa.
As raças “europeias” avaliadas são Angus, Brangus, Hereford, Braford, Devon, Shorthorn, Charolês e Simental.
Por exemplo, a raça Angus exibe na média 205 kg mais por animal aos 550 dias em relação a pouco mais de 30 anos, um ganho de 65%. Em 1992, cada animal tinha em média 315 kg com tal idade. Atualmente, o peso médio está em 520 kg.
Entre as raças de origem europeia, a raça Angus é a mais presente no Brasil, especialmente no sul do país.
Segundo Laerte, diversos fatores sustentam a evolução das raças taurinas, entre eles seleção genética “acelerada e segura”, objetivos bem definidos, utilização de reprodutores de excelência e multiplicação do material genético.
“Apesar de todos esses incrementos de ganhos de peso, o peso ao nascer se manteve estável e em equilíbrio. Isso garante facilidade de parto, reduz a mortalidade em partos distócicos, mostrando que é possível selecionar para alta performance sem comprometer a funcionalidade”, argumenta.
Até mesmo tecnologias genéticas disruptivas, como a edição gênica por meio do Crispr, já têm sido adotadas. Entre maio do ano passado, a Embrapa e a Associação Brasileira de Angus divulgaram o nascimento dos primeiros bezerros da raça Angus geneticamente editados na América Latina.
O destaque da raça Angus sustenta-se na sua presença e relevância no mercado de carnes premium, seja no mercado interno ou externo.
Segundo Mateus Pivato, diretor executivo da Associação Brasileira de Angus, a raça tem registrado recordes ano após ano em volume de abates e também em exportações.
Em 2024, a exportação do produto cresceu 9,2%, totalizando 3.137 toneladas, e o número de abates chegou a 510 mil animais, alta de 1,5%, em relação ao ano anterior.
No caso das exportações, o volume representa cerca de 0,1% das exportações totais de carne bovina no período.
“Temos um longo caminho e um futuro brilhante no que se refere à produção e exportação de carne de qualidade. Os dados sobre 2025 serão divulgados no final de janeiro, mas serão recorde”, comenta.
Para ele, tais resultados são explicados principalmente pelos avanços zootécnicos que garantem quantidade e qualidade. Desde 2000, por exemplo, os machos Angus registraram um ganho de 50% (ou 23,66 cm2) de área de olho de lombo, justamente um dos cortes mais nobres.
Uma das características mais valorizadas, o marmoreio também teve um salto nos últimos três anos. O índice GIM (Gordura Intramuscular) aumentou de menos de 0,03 em 2020 para os atuais 0,058, quase o dobro.
Além disso, a variedade também avança no cruzamento industrial. A raça Angus responde por oito em cada dez mesclas com raça Nelore, que representa entre 85% e 90% do rebanho nacional.
“O cruzamento com os Nelore traz o melhor das duas raças, seja em qualidade de carne ou rusticidade”, comenta Mateus.
A raça de maior crescimento no Promebo nos últimos anos é a Brangus, com alta de 17% no número de animais na última avaliação. A variedade é resultado do cruzamento entre as raças Brahman (zebuína) e Angus, no início do século XX.
Quanto à evolução zootécnica, Laerte destaca os resultados de peso ao nascer da raça Charolês, que passou de 44 kg em 1994 para 37,3 kg nos machos e de 40,5 kg para 35,8 kg em média nas fêmeas ao longo de 30 anos de seleção.
“Nem sempre aumentar é vantagem. No caso do Charolês, essa queda é muito positiva porque havia um problema de parto”, explica.
Outro destaque é o rebanho Hereford, que alcançou 600 mil animais registrados, principalmente no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina e no Paraná.
Segundo a Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), a evolução está diretamente associada à consolidação dos programas de avaliação genética, que passaram a orientar de forma mais objetiva as decisões de seleção nos rebanhos.
“O Hereford brasileiro apresenta diferenciais claros em relação a países tradicionalmente produtores, como Argentina e Estados Unidos. Além da competitividade produtiva e da adaptação aos sistemas brasileiros, o Brasil se destaca por ser o único país a possuir um programa oficial de certificação de carnes, o Programa Carne Hereford”, informa a entidade.
Fonte: Globo Rural.