

Secretários dos Ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e das Relações Exteriores se reuniram com pares do Ministério do Comércio da China (Mofcom, na sigla em inglês) nesta terça-feira (13/1) para tirar dúvidas técnicas e operacionais sobre a aplicação da salvaguarda chinesa na importação de carne bovina.
O lado brasileiro encaminhou pedidos para que cargas em trânsito ou aguardando desembaraço nas aduanas do país asiático não sejam consideradas na cota e que volumes não ocupados por outros países possam ser realocados para frigoríficos nacionais ao longo do ano.
“O Brasil foi o país que teve o maior decréscimo na cota. São 600 mil toneladas, é muita coisa”, afirmou Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
Ele citou o pedido feito pelo setor pela realocação de cotas de países que não conseguirão cumprir seus volumes, como os EUA. “Os americanos vivem um ciclo pecuário de baixa. A cota deles ficou em 206 mil toneladas, sendo que em 2025 as exportações para a China foram de 50 mil. Tem uma diferença de 150 mil toneladas nessa equação”, observou.
Perosa disse ainda que há previsão de déficit de 1,5 milhão de toneladas entre produção e consumo de carne bovina nos EUA neste ano. “Eles vão ter pouco espaço para exportação, deve sobrar a cota americana na China”, indicou. “Se a China decidiu um número geral de importação, não queremos ultrapassá-lo, mas para quem não cumprir, que realoque para o Brasil”, defendeu.
O executivo confirmou também o pedido para gestão das cargas que estão no mar ou à espera de desembaraço aduaneiro na China. “Pedimos ao governo brasileiro que negocie as toneladas em trânsito, pois a China antecipou a decisão, que era prevista para 26 de janeiro de 2026. Ninguém esperava essa decisão, pegou todo mundo de surpresa. Se descontar esse volume da cota, será muito prejudicial”, concluiu.
De acordo com o dirigente, há “lacunas” na norma chinesa que precisam ser explicadas. “O nosso setor depende de previsibilidade. A decisão não fala de transferência de cotas, não fala sobre como serão as autorizações de importação, por exemplo. A norma fala sobre licença automática para empresas idôneas, mas está meio obscuro. Não podemos deixar que a importação fique na mão de três ou quatro estatais que podem concentrar o mercado da China”, acrescentou.
“Tem uma série de questões operacionais a serem enfrentadas para que não tenhamos maior prejuízo para o setor, e que dependem dos arranjos políticos”, disse.
“É preciso haver um entendimento nas conversas de que o Brasil é o grande fornecedor de carne bovina, que ajudamos para a segurança alimentar chinesa e para o controle inflacionário chinês com carne de alta qualidade, sustentabilidade e com grande competitividade. O Brasil é o grande parceiro da China e vice-versa. Tomar uma medida que prejudica um setor tão capilarizado no país, é muito drástico”, concluiu Perosa.
Há, nos bastidores, uma avaliação entre representantes do setor produtivo e exportadores de que a atuação do governo tem sido tímida na pauta das salvaguardas chinesas. Alguns empresários defendem que o Brasil sinalize de forma mais clara ou oficialize a possibilidade de aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica. O alvo seriam as exportações de carros elétricos da China. No Executivo, técnicos não querem comprar essa briga.
A reportagem procurou os ministérios participantes da reunião, mas ainda não teve retorno.
Fonte: Globo Rural.