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Angus quer educar consumidor para carne premium em escala

O engenheiro agrônomo, produtor rural e uma das vozes mais influentes da pecuária de corte voltada à carne premium no Brasil, Wilson Brochmann, 75 anos (completados neste sábado, 31), está há décadas diretamente envolvido na construção do mercado de carne Angus no país.

Com os dados consolidados de 2025 do Programa Carne Angus Certificada, iniciativa a qual ele próprio coordena dentro da Associação Brasileira de Angus (ABA), sediada em Porto Alegre (RS), o produtor teve uma grata notícia. A exportação de 11,3 mil toneladas de carne Angus certificada, crescimento de 260% em relação ao ano anterior. Em valor, a receita chegou a US$ 95,9 mil (R$ 498 mil, segundo a cotação atual).

“O Brasil é a ‘bola da vez’ na proteína vermelha. Estamos quebrando recordes mensais. Um dado interessante: este ano, em apenas 18 dias úteis de janeiro, já ultrapassamos o volume de exportação de todo o mês de janeiro de 2025”, diz Brochmann.

Embora os números consolidados de 2025 sejam históricos, o dirigente da ABA sustenta que o verdadeiro motor desse movimento está na construção de valor junto ao consumidor, no Brasil e no exterior, e na capacidade da cadeia de explicar, de forma consistente, o que diferencia uma carne premium produzida em escala.

“O selo Angus só faz sentido quando o consumidor entende o que ele representa. Não é apenas uma raça, é um conjunto de critérios que envolve genética, manejo, padronização e constância. Quando isso fica claro, o mercado aceita pagar mais”, afirma Brochmann.

Não é à toa que Brochmann, dono da Agropecuária Maragogipe, que completa em maio 53 anos de atividade com produção de bovinos e grãos numa área de 11,6 mil hectares no município de Itaquiraí, na porção sul de Mato Grosso do Sul, se tornou um dos principais articuladores da estratégia que busca transformar carne premium em um produto compreendido, valorizado e consumido em escala.

Mais relevante do que o salto em volume foi a consolidação de um diferencial expressivo de preço no mercado internacional.

A tonelada dos cortes certificados alcançou US$ 8.505 (R$ 44.179), patamar 53,5% superior ao valor médio da carne bovina padrão exportada, que girou em torno de US$ 5.500 (R$ 28.570) por tonelada. Para Brochmann, esse prêmio é o reflexo direto de uma mudança de percepção dos compradores globais.

“O mercado internacional não paga esse ágio por acaso. Ele paga porque sabe exatamente o que está comprando e porque confia que receberá o mesmo padrão em qualquer embarque”, diz.

Disputa global por qualidade

Na avaliação do diretor, a carne Angus certificada reposicionou o Brasil em uma arena historicamente dominada por poucos países.

Estados Unidos e Austrália seguem como grandes referências em carne premium produzida em escala, mas o produto brasileiro passou a disputar espaço de forma direta nesses mercados, combinando regularidade de oferta, custo competitivo e qualidade sensorial.

Ao mesmo tempo, Brochmann destaca um avanço simbólico importante para a imagem da pecuária nacional.

“Hoje, quando falamos de qualidade de carne, o Brasil se coloca no mesmo nível de Argentina e Uruguai. O que antes era exceção virou padrão dentro do programa”, afirma.

Para ele, esse reconhecimento é resultado de décadas de investimento em genética, cruzamento industrial e profissionalização da cadeia produtiva.

Educar o consumidor para escalar o premium

Um dos principais desafios, segundo Brochmann, foi romper com a ideia de que carne premium é sinônimo de nicho restrito. A estratégia da Associação Brasileira de Angus passou por mostrar que o selo garante padrão em toda a carcaça, e não apenas em cortes tradicionalmente valorizados.

“Quando o cliente entende que não está comprando só um corte nobre, mas um sistema de produção confiável, ele amplia o consumo. É assim que o premium deixa de ser nicho e ganha escala”, afirma.

Esse conceito se reflete no perfil do mix exportado. Acém, peito, paleta e músculo figuram entre os cortes mais demandados, seguidos por costela, patinho, coxão mole, contra-filé, filé de costela e fraldinha.

“Não estamos exportando apenas o que sobra. Estamos mostrando que há valor em toda a carcaça quando existe padronização e qualidade comprovada, como fazem os grandes produtores globais”, resume Brochmann.

Mercado interno como base do posicionamento

Apesar da visibilidade dos embarques externos, o mercado doméstico segue como um dos pilares da estratégia.

Em 2025, cerca de 78,7% das 53 mil toneladas de cortes Angus certificados produzidas permaneceram no Brasil. Para Brochmann, educar o consumidor brasileiro é parte indissociável da construção de reputação internacional.

“Se o consumidor daqui entende e exige o selo, isso fortalece toda a cadeia. O mercado externo percebe quando o produto também é valorizado no país de origem”, afirma.

Esse movimento, segundo ele, cria um ciclo de valorização que alcança o produtor, a indústria e a genética nacional.

Escala com consistência

A narrativa de valor só se sustenta porque houve expansão da base produtiva. Em 2025, o abate de 612,21 mil animais certificados representou um recorde absoluto nos 23 anos do programa, com crescimento de 20% em relação a 2024.

Hoje, a carne Angus certificada é produzida nas cinco regiões do país, com 30 parceiros, 60 plantas frigoríficas e presença em 13 estados.

“Não adianta comunicar valor se você não consegue entregar escala com consistência. O Brasil já provou que consegue competir com Estados Unidos e Austrália e, ao mesmo tempo, manter um padrão de qualidade comparável aos melhores da América do Sul”, afirma Brochmann.

O que vem pela frente

Para 2026, a expectativa é aprofundar essa estratégia. A ampliação dos embarques para os 35 países já atendidos, a entrada em novos mercados, com atenção especial ao Oriente Médio, e o reforço das ações de comunicação fazem parte do plano.

“A carne Angus brasileira já não pede licença. Ela disputa mercado com os grandes produtores globais e se coloca no mesmo nível de qualidade de Argentina e Uruguai. Nosso desafio agora é consolidar essa percepção de forma definitiva”, conclui Brochmann.

Fonte: Forbes.

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