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Under 30 destrava o Wagyu e reorganiza o mercado da carne mais cara do mundo

Divulgação/Guidara

Quando Daniel Steinbruch decidiu apostar no gado com a carne mais cara do mundo, o Wagyu, ainda em meados dos anos 2000, o movimento soava excêntrico até para os padrões da pecuária brasileira. Criador desde 2006, na fazenda Querência, em Mogi Mirim, a cerca de 160 quilômetros da capital paulista, e dono do próprio frigorífico desde 2013, a Guidara, Daniel escolheu trabalhar com uma raça japonesa, de genética única para uma carnes mais macias e suculentas do mundo, em um país historicamente orientado à escala e à arroba commodity.

E, ainda, com o diferencial de ser uma produção que passou pelo crivo do Programa Carne Wagyu Certificada, da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos das Raças Wagyu (ABCBRW).

“Este programa é fundamental porque ele audita, mede e dá credibilidade ao produto final”, diz Daniel.

Reconhecido na lista Forbes Under 30 em 2022, Daniel construiu sua trajetória à margem da pecuária convencional da família Steinbruch. Seu pai, Ricardo Steinbruch, é atual presidente do conselho de administração do grupo têxtil Vicunha, um dos maiores do país, e também presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Enquanto o Brasil consolidava sua posição como potência global em carne bovina de volume, Daniel optou por um nicho extremo, baseado em genética, controle produtivo e verticalização.

O que começou como um projeto individual passou, nos últimos anos, a ganhar relevância estrutural dentro da cadeia de carnes premium.

À frente da Guidara, o empresário apresentou para Forbes Agro exclusivamente seus números. A produção de carne Wagyu certificada saltou de 191,4 toneladas em 2024, com faturamento de R$ 18,3 milhões, para 380,8 toneladas em 2025, alcançando R$ 32,3 milhões.

Em volume o crescimento foi quase o dobro e a receita representou um salto de 76,50% na comparação de 2024 e 2025. Para este ano de 2026, a expectativa é atingir 534 toneladas de carne Wagyu e receita de R$ 40,2 milhões.

“Hoje detemos 85% do market share desses animais cruzados e os números mostram que quando os dois modelos, de produção de bovinos puros e cruzados, atuam de forma complementar. O resultado aparece em escala, padrão e previsibilidade”, pontua.

Os números que explicam a virada

Os dados do jovem empresário estão em sintonia com os demais produtores de Wagyu no Brasil. Em 2025, o Programa Carne Wagyu Certificada, conduzido e auditado pela ABCBRW, registrou o abate de 2.272 bovinos, entre animais puros e cruzados. O volume representa um crescimento de 29,9% em relação a 2024, quando o total foi de 1.749 cabeças.

Do total abatido em 2025, 1.362 animais vieram do cruzamento industrial, enquanto 910 eram Wagyu puro. A mudança no perfil da oferta indica que o segmento começa a ganhar escala sem perder critérios técnicos, algo raro em um mercado historicamente pulverizado.

Hoje, estima-se que existam cerca de 15 mil bovinos com sangue Wagyu no Brasil, somando animais puros e cruzados. Dentro desse universo ainda restrito, a Guidara que detém grande participação dos bovinos Wagyu cruzados certificados consolida sua posição a partir de um modelo que separa produção, auditoria e indústria.

A genética como primeiro entrave

O resultado da Guidara é fruto de um caminho que esteve longe de ser linear. O primeiro grande obstáculo enfrentado por Daniel foi a genética. O Wagyu chegou ao Brasil de forma lenta, trazido inicialmente por imigrantes japoneses ligados à Yakult, e sempre conviveu com severas restrições de oferta.

Nos primeiros anos, a tentativa de estruturar um modelo de cruzamento industrial esbarrou na ausência de padrão genético, na escassez de literatura técnica adaptada ao Brasil e na dificuldade de coordenação da cadeia.

Diante desse cenário, a decisão estratégica foi recuar e concentrar esforços no Wagyu puro, ainda que isso implicasse maior custo, risco produtivo e um ciclo mais longo de retorno.

A referência australiana e a adaptação ao mercado brasileiro

Para viabilizar esse caminho, Daniel buscou referências fora do Japão, especialmente na Austrália, país que construiu um dos programas de melhoramento genético de Wagyu mais avançados do mundo em sistemas produtivos ocidentais.

A estratégia não era replicar o modelo japonês, mas adaptar o Wagyu à realidade brasileira, preservando o marmoreio como atributo central, ao mesmo tempo em que ajustava manejo, confinamento e acabamento de carcaça à lógica econômica local.

Essa adaptação foi determinante para aproximar a carne Wagyu do consumidor brasileiro e criar uma base produtiva sustentável.

A virada com a verticalização

Em 2013, Daniel deu o passo mais decisivo da trajetória ao criar a Guidara. Até então, os animais eram vendidos a frigoríficos especializados, com bonificações limitadas sobre a arroba. A verticalização permitiu controlar todas as etapas do processo, do campo ao produto final, incluindo abate, desossa, maturação e distribuição.

Com isso, tornou-se possível padronizar cortes, garantir regularidade de oferta e dialogar diretamente com restaurantes de alta gastronomia, como Pobre Juan, Cipriani e casas comandadas por chefs como Claude Troisgros, reduzindo a dependência de intermediários e ampliando a captura de valor ao longo da cadeia.

O gargalo do Wagyu cruzado

Foi justamente nesse estágio que um novo problema se tornou evidente. Enquanto o Wagyu puro avançava em consistência, o Wagyu cruzado permanecia desorganizado no mercado brasileiro.

A produção era pulverizada, sem critérios técnicos claros, padrão genético ou previsibilidade industrial. A demanda crescia, mas a oferta não se estruturava.

A resposta veio com a criação de um programa de cruzamento industrial liderado pela Guidara, voltado a orientar produtores, definir genética, manejo e metas produtivas, criando escala com padronização.

Produção organizada e certificação auditada

O programa de cruzamento industrial não substituiu o Programa Carne Wagyu Certificada, responsável pela auditoria e rastreabilidade dos animais.

Ao contrário, passou a atuar de forma complementar. Enquanto a Associação mede, audita e chancela o produto final, a iniciativa privada organiza a produção na origem, resolvendo um gargalo que o mercado, sozinho, não conseguia endereçar.

Os primeiros animais plenamente enquadrados nesse modelo começaram a ser abatidos em 2025, explicando o salto observado nos dados nacionais e consolidando o Wagyu cruzado como uma nova fronteira econômica dentro do segmento premium.

De criador a articulador de mercado

Ao estruturar esse arranjo, Daniel Steinbruch deixou de ser apenas um criador de uma raça exótica para ocupar o papel de articulador de mercado.

Em um setor historicamente ultracomoditizado, sua trajetória mostra que a combinação entre genética, estratégia industrial e governança produtiva pode destravar valor, previsibilidade e escala, mesmo no território mais extremo da carne bovina.

Fonte: Forbes.

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