

A pecuária bovina brasileira funciona em um ritmo próprio, marcado por decisões que levam anos para se refletir no mercado. Diferentemente de outras cadeias produtivas, em que ajustes na oferta podem ser feitos rapidamente, a produção de carne bovina depende de um processo longo, que envolve reprodução, cria, recria e engorda dos animais.
Entre a decisão de reter uma vaca para reprodução e o momento em que o bezerro chega ao peso de abate, o intervalo pode superar até 36 meses.
Esse descompasso entre decisão e resultado cria os chamados ciclos de abate, movimentos recorrentes que ajudam a explicar as oscilações nos preços do boi gordo, da carne no varejo e, em última instância, da inflação dos alimentos no país.
Esses ciclos são determinados, principalmente, pelo comportamento do abate de fêmeas.
Vacas e novilhas são responsáveis pela reposição do rebanho e exercem papel central na dinâmica da oferta.
Segundo os dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em média, as fêmeas representam entre 40% e 50% do total de animais abatidos no Brasil, percentual que varia conforme a fase do ciclo pecuário.
De acordo com estudos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), os ciclos da pecuária são estruturais e inerentes à atividade, resultado direto do longo prazo biológico necessário para a recomposição do rebanho.
No Brasil, esses ciclos costumam durar entre seis e oito anos, mas podem ser encurtados ou prolongados por fatores externos, como clima, custos de produção e demanda.
Secas prolongadas tendem a acelerar o descarte de animais, enquanto períodos de chuvas regulares e pastagens abundantes favorecem a retenção e a expansão do rebanho.
Conforme o IBGE, atualmente o rebanho nacional conta com 230 milhões de cabeças, sendo o maior do mundo.
O ciclo geralmente se inicia em um período de preços elevados da arroba do boi gordo. Com maior rentabilidade aos produtores que tendem a reter fêmeas para reprodução, reduzindo o envio desses animais aos frigoríficos.
Esse movimento limita a oferta de carne no curto prazo e sustenta os preços em níveis mais altos.
No varejo, esse encarecimento se reflete diretamente no grupo Alimentação e Bebidas do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
A carne bovina tem peso relevante no índice, 2,74% no geral e, em ciclos de alta, costuma exercer pressão significativa sobre a inflação, especialmente em períodos de renda mais restrita das famílias.
Ao mesmo tempo, a expectativa de preços elevados incentiva investimentos em genética, tecnologia e intensificação dos sistemas produtivos.
No entanto, os efeitos dessas decisões só aparecem anos depois, já que o ciclo produtivo completo — da gestação ao abate — pode levar de dois a quatro anos.
Com o avanço do ciclo, o maior número de animais gerados na fase anterior começa a chegar ao mercado.
A oferta aumenta e os preços do boi gordo começam a perder força, assim a carne tende a ficar mais acessível ao consumidor.
Nesse momento, produtores ampliam o abate de fêmeas para ajustar custos ou gerar caixa, elevando ainda mais a disponibilidade de carne no curto prazo.
Esse movimento costuma contribuir para a desaceleração dos preços no varejo e pode funcionar como um fator de alívio para a inflação de alimentos.
Historicamente, períodos de maior oferta de carne bovina ajudam a conter o IPCA, reduzindo pressões inflacionárias e influenciando o cenário macroeconômico.
No entanto, o descarte excessivo de matrizes compromete a produção futura, preparando o terreno para uma nova fase de escassez e alta de preços alguns anos à frente.
Além dos fatores biológicos, o mercado internacional exerce influência crescente sobre os ciclos da pecuária.
De acordo com a Abiec (Associação Brasileira dos Exportadores de Carnes), de 25% a 30% da produção brasileira de carne bovina é exportada, com a China concentrando mais da metade das compras externas.
Quando a demanda internacional está aquecida, a pressão sobre a oferta interna aumenta, mesmo em fases de maior produção.
Isso limita o efeito de queda dos preços no mercado doméstico e reforça o impacto da pecuária sobre a inflação de alimentos.
Fonte: CNN Brasil.