
O ano de 2025 trouxe dois sinais importantes sobre a economia agropecuária dos Estados Unidos. De um lado, aumentaram os pedidos de falência de propriedades rurais. De outro, o rebanho bovino atingiu o menor nível em 75 anos, impulsionando preços recordes e forte volatilidade no mercado da carne.
Os dois movimentos não são idênticos — e nem necessariamente têm a mesma origem —, mas ajudam a desenhar um cenário mais amplo sobre o momento da agropecuária norte-americana.
Segundo dados dos tribunais federais dos EUA, 315 fazendas entraram com pedido de falência sob o Capítulo 12 em 2025 — um aumento de 46% em relação a 2024.
O Capítulo 12 é um mecanismo específico da legislação americana criado para fazendas familiares. Ele permite reorganização de dívidas, ajuste de prazos e continuidade da operação, funcionando como uma tentativa de reestruturação antes do encerramento definitivo das atividades.
O aumento das falências ocorre em um ambiente de forte pressão financeira no campo:
Grande parte do crédito vem sendo usada para cobrir custos operacionais, e não para investimentos produtivos.
É importante observar que o relatório não separa especificamente a pecuária de corte entre os setores mais afetados. A análise é ampla, abrangendo agricultura e pecuária de forma geral.
Outro ponto relevante é que nem todas as propriedades podem recorrer ao Capítulo 12. Para se qualificar, a maior parte da renda familiar precisa vir da atividade agrícola. Com o aumento da dependência de renda fora da fazenda, muitas famílias deixam de ser elegíveis e acabam optando por vender terras ou encerrar as operações. Entre 2017 e 2024, mais de 160 mil fazendas fecharam nos EUA.
Enquanto a economia agrícola como um todo enfrenta dificuldades, o setor de bovinos de corte vive um momento distinto.
O relatório de inventário de janeiro mostra que o rebanho americano totalizou 86,2 milhões de cabeças em 1º de janeiro de 2026 — o menor nível em 75 anos.
O país está no 13º ano do ciclo pecuário atual e no 8º ano consecutivo de contração. A expansão do rebanho só deve ocorrer, no mínimo, a partir de 2028.
Os números mostram:
Mesmo com aumento no número de novilhas retidas para reposição, o cenário ainda indica oferta restrita nos próximos anos.
A oferta extremamente ajustada, combinada com demanda firme do consumidor, elevou os preços a patamares históricos.
O preço médio negociado de novilhos terminados atingiu US$ 243 por 100 libras em agosto de 2025 — o equivalente a aproximadamente US$ 80 por arroba — um recorde histórico.
O preço médio do varejo de carne bovina também bateu recordes consecutivos, alcançando US$ 9,55 por libra (aproximadamente US$ 21 por quilo) em dezembro de 2025.
A receita com gado aumentou 39% entre 2020 e a projeção para 2026, tornando a pecuária de corte um dos poucos pontos positivos dentro da economia agrícola enfraquecida.
No entanto, o mesmo relatório destaca a elevada volatilidade do mercado. Com oferta restrita, qualquer notícia relacionada a comércio internacional, importações ou questões sanitárias tem provocado reações intensas nos preços.
O anúncio de aumento da cota de importação de carne da Argentina, por exemplo, levou a uma queda de 13% no preço do gado em curto espaço de tempo.
Os relatórios mostram movimentos diferentes dentro de um mesmo cenário macroeconômico:
Isso não significa que a pecuária esteja imune a riscos. Pelo contrário. O setor enfrenta:
Preços elevados sustentam receitas, mas não eliminam os desafios estruturais.
A continuidade da contração do rebanho indica que a oferta permanecerá limitada nos próximos anos. Ao mesmo tempo, o ambiente financeiro mais apertado na agricultura reforça a importância da gestão de risco, planejamento financeiro e estrutura de capital.
Os dados mostram que, mesmo em um segmento que vive preços historicamente altos, o contexto macro do agro americano permanece desafiador.
A combinação de ciclo pecuário restritivo e economia agrícola pressionada tende a manter a volatilidade como elemento central do mercado nos próximos anos.
Fonte: American Farm Bureau Federation.