
As tensões militares entre Irã e Israel no último ano, e intensificadas nos últimos dias, passaram a impactar cadeias globais ligadas ao agronegócio, com reflexos diretos sobre fertilizantes nitrogenados, energia e fluxos de grãos. A instabilidade no entorno do Estreito de Ormuz, rota estratégica para petróleo e derivados, ampliou prêmios de risco e pressionou custos logísticos. Países importadores de insumos, como o Brasil, tendem a registrar alta nas cotações e maior volatilidade no planejamento da safra.
O Estreito de Ormuz permanece como um dos principais pontos de vulnerabilidade do comércio global. Analistas do mercado de energia estimam que restrições severas ao tráfego marítimo poderiam elevar o petróleo a patamares superiores a US$ 100 por barril. O efeito se estende ao diesel, ao bunker marítimo e aos fretes internacionais.
Na região ampliada do conflito, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) aponta deterioração na produção de cereais da Síria. Em 2025, os volumes ficaram mais de 60% abaixo da média histórica, agravando a insegurança alimentar no país.
Para exportadores de grãos e importadores de insumos, o conflito adiciona uma variável geopolítica ao planejamento agrícola.. A instabilidade regional amplia o custo de produção e impõe maior cautela nas decisões de crédito e comercialização.
Segundo a FAO, em relatório GIEWS Country Brief, a produção de cereais do Irã em 2025 ficou cerca de 10% abaixo da média dos últimos cinco anos. A queda ocorreu em um contexto de secas severas e interrupções no fornecimento de energia, que comprometeram sistemas de irrigação.
No mercado doméstico, a inflação de alimentos superou 70% em termos anuais ao final de 2025, conforme dados compilados por organismos multilaterais. A desvalorização cambial e as restrições comerciais ampliaram o repasse de custos ao consumidor.
No cenário macroeconômico, o Banco Mundial projetava nas suas mais recentes análises uma contração de aproximadamente 1,5% na economia iraniana no exercício fiscal 2026/27, mantidas as restrições ao setor energético. A limitação de receitas com petróleo afeta a capacidade de investimento público e a oferta de crédito.
O Irã ocupa posição relevante nas exportações de ureia para mercados da Ásia e da América Latina. Parte desse volume transita por rotas próximas ao Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do comércio global de petróleo.
De acordo com o Urea Pricing Report de fevereiro de 2026, do IMARC Group, a ureia no Oriente Médio foi negociada em torno de US$ 0,63 por quilo, equivalente a US$ 630 por tonelada. O relatório atribui a elevação das cotações à volatilidade logística e ao ambiente geopolítico.
O Brasil importa parcela relevante de seus nitrogenados do Oriente Médio. Dados da Conab indicam que os fertilizantes respondem por cerca de 30% a 40% do custo operacional de culturas como milho e trigo. A oscilação nos preços internacionais tem impacto direto na formação de custos e nas decisões de plantio.
Em Israel, os efeitos concentram-se em áreas próximas às fronteiras. Relatório Grain and Feed Annual 2025/2026 do USDA registrou danos a granjas de aves e unidades produtoras de ovos na região norte do país em 2025, além de dificuldades operacionais em propriedades agrícolas situadas em zonas de conflito.
O país depende fortemente da importação de trigo e grãos para consumo humano e ração. A instabilidade nas rotas do Mar Vermelho e do Mediterrâneo elevou os custos de frete e de seguro marítimo, pressionando a inflação interna de alimentos.
Para enfrentar a escassez de mão de obra rural, o governo israelense ampliou incentivos à automação agrícola. Sistemas de irrigação de precisão, colheita mecanizada e ferramentas baseadas em inteligência artificial passaram a integrar políticas públicas voltadas à manutenção da oferta doméstica.
Dados do sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), indicam que as exportações somadas para os dois países alcançaram US$ 3,44 bilhões em 2024 e US$ 3,40 bilhões em 2025. Embora o valor total registre uma oscilação marginal de 1,2%, o volume físico das mercadorias apresentou crescimento, passando de 9,74 milhões de toneladas para 11,97 milhões.
O Irã permanece como o principal destino comercial do setor na região, registrando faturamento de US$ 3,10 bilhões em 2024 e US$ 2,92 bilhões em 2025. O país apresentou uma mudança na composição de sua demanda por produtos brasileiros, com destaque para o setor de cereais, farinhas e preparações, que saltou de US$ 921,05 milhões para US$ 1,98 bilhão. Em volume, o setor de cereais destinado ao Irã ultrapassou 9 bilhões de quilos em 2025.
Outros setores estratégicos mantiveram relevância no mercado iraniano. O complexo soja registrou vendas de US$ 745,82 milhões no último ano, enquanto o complexo sucroalcooleiro gerou US$ 189,11 milhões em divisas. Já o setor de carnes para o país apresentou retração acentuada, passando de US$ 1,46 milhão em 2024 para apenas US$ 67,5 mil em 2025.
As exportações do agronegócio para Israel registraram trajetória de crescimento financeiro no biênio, saindo de US$ 334,99 milhões em 2024 para US$ 475,09 milhões em 2025. A proteína animal consolidou-se como o motor dessa expansão. O setor de carnes alcançou faturamento de US$ 238,82 milhões no ano passado, o que representa um aumento em comparação aos US$ 173,22 milhões registrados em 2024.
Além das carnes, o Brasil diversificou o embarque de outros produtos para o território israelense. O complexo soja totalizou US$ 91,73 milhões em 2025, seguido pelo café, que gerou US$ 59,68 milhões. O setor de cereais e farinhas alcançou US$ 11,57 milhões no período, enquanto os produtos florestais registraram US$ 10,90 milhões.
Fonte: Forbes.