
Um frigorífico brasileiro de médio porte que exporta carne bovina recebeu, na quinta-feira (5/3), comunicado da MSC (Mediterranean Shipping Company), de transporte marítimo, declarando “fim da viagem” para todas as cargas ao Golfo Pérsico.
Dois contêineres de carnes desse frigorífico estão em rota para Dubai. A MSC informou que as cargas poderão ser redirecionadas para outro porto fora da zona de conflito, mas que os custos adicionais devem ser bancados pela empresa brasileira. Esse é um exemplo dos impactos que a guerra tem causado a setores produtivos brasileiros.
“Todas as cargas que se encontram atualmente em trânsito serão desviadas para o próximo porto seguro de descarga. Nesse local, a carga será descarregada e colocada à disposição dos clientes para retirada e entrega local. Será aplicada, sem exceção, uma sobretaxa obrigatória de US$ 800 por contêiner a todas as cargas afetadas, a fim de cobrir os custos decorrentes do desvio”, diz o comunicado ao qual a reportagem teve acesso.
O texto informa que as despesas de descarga, como manuseio, armazenagem e demais encargos, serão de inteira responsabilidade e risco da carga. Procurada, a companhia não respondeu. Essas mudanças logísticas têm gerado custos adicionais aos exportadores, como mostrou a reportagem.
“Nunca havia recebido comunicado sobre o fim da viagem. Vão abandonar dois contêineres nossos, em porto que ainda não avisaram, e se quisermos tirar de lá ainda tem que pagar”, relatou o dono do frigorífico, sob anonimato.
Para enviar a carga a um destino alternativo, será necessário realizar uma nova reserva de transporte. Outra possibilidade é a mudança de destino, cujas solicitações serão tratadas com prioridade, mas sujeitas à viabilidade operacional, rota de navio e à evolução da situação de segurança na região, diz o comunicado.
Mesmo assim, a aceitação de um pedido de COD (Change of Destination) “não deverá ser interpretada como garantia de entrega no destino solicitado nem como renúncia a quaisquer direitos do Armador previstos no Bill of Lading (contrato)”, relata o texto. “Tal aceitação não exime o exportador da carga do pagamento de quaisquer custos adicionais decorrentes da situação atual de conflito, incluindo custos no porto de transbordo e/ou novo porto de destino”, completa o comunicado.
Para os navios que estão em alto-mar rumo ao Oriente Médio, o custo do seguro de risco de guerra não foi alterado. Porém, para novos embarques, as seguradoras estão cancelando a contratação de apólice e avaliando a contratação caso a caso, com prêmios maiores.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, disse que também há interdições e dificuldades no Canal de Suez, no Egito, reflexo da guerra. Uma rota alternativa é pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África.
“Não é um efeito grande ainda, mas já começa a acontecer e tem um potencial de impacto muito forte no setor”, afirmou. Empresas que tinham cargas enviadas para a região terão que negociar um redirecionamento e formas de compensar o importador, afirmou Perosa. “O frigorífico não vai deixar o importador sem receber a carga, que já foi paga. Ele não quer perder cliente”, completou.
As exportações de carne bovina ao Oriente Médio somaram cerca de US$ 2 bilhões em 2025. Mas a guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz podem afetar quase US$ 6 bilhões em negócios, estima a Abiec. O valor corresponde às cargas que passam pelo hub logístico regional e seguem para outros destinos — entre 30% e 40% do total enviado no ano passado pelas empresas brasileiras.
Fonte: Globo Rural.