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Governo deve se abster de arbitrar cota de carne bovina para a China

O governo federal não deverá arbitrar o controle da cota de exportação de carne bovina à China neste ano. Apesar do pedido do setor exportador, o tema não entrou na pauta da reunião desta quinta (26) do Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e não há garantias de que será analisado nos próximos encontros. Sem a regulação, os frigoríficos querem crédito no Plano Brasil Soberano para mitigar a perda de receita projetada.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) informou ao governo que é contra a regulação estatal dos embarques, apurou o Valor. Em carta enviada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a entidade alertou que o controle oficial poderia prejudicar os preços recebidos pelos pecuaristas e criar “reservas de mercado” aos grandes frigoríficos, com pressões regionais sobre a cotação da arroba do boi.

O governo levou o argumento em consideração para travar o andamento da proposta da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), apurou o Valor. Houve ainda a queixa de um frigorífico de pequeno porte, que sinalizou a possibilidade de recorrer ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) caso o Executivo avançasse com a medida. Procurado, o MDIC não respondeu.

A CNA disse ao governo que a regulação deixaria os pecuaristas “à mercê” da indústria. A entidade relatou preocupação com a possível falta de transparência nas informações sobre o cumprimento da cota. Pecuaristas temiam que frigoríficos pudessem alegar já ter preenchido seu volume e tentar negociar cotação menor pelo boi China, sem a devida comprovação de que aquela carne seria ou não embarcada para o país asiático.

Os pecuaristas também acreditam que a China não vai interromper as compras depois que atingir a cota. Há um movimento de antecipação das importações, para garantir preço mais barato, sem tarifa extra de 55%, mas a expectativa é que a demanda deve seguir aquecida no país. Procurada, a CNA não respondeu.

A posição da indústria é oposta à dos pecuaristas. Estudos econômicos e jurídicos foram entregues ao Executivo para basear a criação de um sistema oficial de divisão dos volumes entre os frigoríficos e de monitoramento governamental dos embarques.

Segundo os exportadores, a distribuição dos volumes e a regularidade de fornecimento podem sustentar as cotações do produto no exterior e dar estabilidade ao mercado nacional. Sem isso, poderá haver desorganização, com queda e desvalorização das vendas externas, e consequente desequilíbrio de caixa nos frigoríficos.

Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), disse que “o fim da cota chinesa coincidirá com o período de maior oferta de bois de confinamento. Se tivéssemos um regramento, isso ficaria equilibrado”, disse, sugerindo uma possível queda dos preços da arroba no segundo semestre.

A situação atual contrasta com o posicionamento conjunto divulgado por CNA e Abiec em 31 de dezembro de 2025, quando a China anunciou a criação das salvaguardas. Na época, as entidades disseram que a cota impunha “uma reorganização dos fluxos de produção e de exportação” e que atuariam para reduzir os danos aos pecuaristas e exportadores.

A avaliação dos frigoríficos agora é que a posição do governo vai gerar danos à cadeia pecuária brasileira a médio prazo. O setor está preocupado com o passo seguinte ao esgotamento da cota, o que poderá ocorrer ainda no primeiro semestre, como estimou a Abiec na semana passada. Dados de importação da China consideraram a entrada de mais de 372 mil toneladas de carne brasileira em janeiro e fevereiro, 33,6% da cota de 1,1 milhão de toneladas em 2026.

Os frigoríficos afirmaram ao governo que a regulação poderia disciplinar a oferta e deslocar a captura de renda com a cota para o exportador brasileiro em vez do importador chinês. A avaliação setorial é que o maior dano será a “deterioração do preço recebido” em ambiente de “competição desordenada”, segundo documentos aos quais o Valor teve acesso.

Em Brasília, a avaliação é a de que o tema pode voltar à mesa do governo mais para frente, caso haja reflexos nos preços internos. Uma fonte que acompanha o assunto disse que eventual pressão pode levar o Executivo a avaliar o controle da cota para 2027 e 2028.

Sem a implementação de um sistema de controle das cotas, a análise de momento é que os frigoríficos de pequeno porte serão prejudicados e que as grandes multinacionais poderão ocupar o restante da cota rapidamente.

Com a negativa do governo e a inviabilidade de um acordo setorial na distribuição da cota, que pode ser encarado como cartel, a estratégia dos frigoríficos será buscar outras medidas para mitigar eventuais prejuízos com a redução do mercado chinês e, possivelmente, do faturamento das vendas por conta de pressão nos preços.

Um dos pedidos é a extensão de linhas de financiamento do Plano Brasil Soberano, incrementado hoje com R$ 15 bilhões para empresas afetadas pela guerra no Irã, aos frigoríficos possivelmente impactados na exportação para a China.

Fonte: Globo Rural.

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