

O ritmo acelerado do preenchimento da cota de exportação de carne bovina para a China, num momento de oferta restrita de animais para abate, fez o preço do boi gordo atingir recorde nominal histórico. Nesta quarta-feira (8/4) o indicador do boi gordo Cepea/Esalq, uma referência para o mercado, alcançou R$ 365 por arroba, alta de 2,53% no mês. Em 12 meses, a valorização é de 12,5%.
A demanda por bovinos está aquecida porque os frigoríficos estão correndo para ampliar as exportações para a China, principal cliente do Brasil, enquanto ainda há espaço na cota com tarifa reduzida. Como resultado, a expectativa da indústria é de que a cota estará toda preenchida já em maio.
Desde o início do ano, a China impôs salvaguardas a importações de carne bovina de diferentes fornecedores e estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,1 milhão de toneladas, com tarifa de 12%. Fora da cota, a taxa é de 55%.
Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), disse ontem que o Brasil deve preencher até a primeira semana de maio toda a cota de exportação de carne bovina para a China. Durante o Encontro de Confinamento e Recriadores realizado pela Scot Consultoria em Ribeirão Preto (SP), Perosa afirmou que houve uma aceleração dos embarques em março, depois que o governo federal decidiu não criar um sistema de controle para regular as exportações. Com isso, disse, o volume exportado nos primeiros três meses já passou de 40% da cota de 1,1 milhão de toneladas.
Ele observou, no entanto, que as autoridades chinesas ainda não consolidaram os números do mês passado.
Especialistas ouvidos pelo Valor acreditam que as cotações tendem a se manter em níveis elevados até o preenchimento da cota chinesa. “Pode haver uma volatilidade de preços sim [com o fim da cota]”, disse Thiago Bernardino, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
Ele observou, porém, que a oferta de carne está restrita em países importantes para o suprimento global, como os Estados Unidos, onde há o menor rebanho bovino em décadas. Isso limitaria o espaço para quedas na arroba do boi e dos preços da proteína no mundo.
No Brasil, a disponibilidade de gado também continua ajustada por ora, forçando a formação de preços maiores, disse.
Para Alcides Torres, diretor da Scot Consultoria, a cota chinesa foi o principal fator de mudança na dinâmica do mercado, pois acelerou as compras de gado para abate e posterior exportação da carne. Como resultado, os embarques totais atingiram a máxima histórica para o mês de março neste ano.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) divulgados na terça-feira (7) mostram que os embarques de carne bovina in natura brasileira somaram 233,95 mil toneladas em março, alta de 8,6% na comparação anual. O preço médio também subiu, 18,7%, para US$ 5.814,80 por tonelada.
Segundo Perosa, da Abiec, a questão da cota chinesa é a principal preocupação do segmento hoje, já que as negociações para uma revisão do volume não avançaram e não há no horizonte abertura rápida de novos mercados para receber a carne bovina que iria para a China.
A cota, na prática, reduziu o mercado para a carne brasileira na China, uma vez que em 2025 o país asiático havia importado um total de 1,68 milhão de toneladas.
O dirigente disse não acreditar que seja viável uma triangulação de carne brasileira para a China via Vietnã, que abriu o mercado para a carne brasileira no ano passado, mas consome mais bubalinos, ou via Hong Kong, que importa miúdos do Brasil e envia para a China.
Ele observou ainda que o sistema de cotas criado por Pequim deve ser válido também para 2027 e 2028, o que significa que será necessário seguir buscando alternativas de mercado.
Para Perosa, a justificativa da China para a imposição de cotas é política, sem nenhum embasamento técnico porque a pecuária chinesa não consegue vender para a indústria a preços competitivos.
“A salvaguarda chinesa pega todos os países, mas foi o Brasil que teve a maior redução. Eles devem ter pensado que poderiam tirar mais do Brasil porque o impacto não seria tão grande, já que exportamos muitas outras commodities para lá, como a soja. Mas impacta demais o nosso setor porque a China foi o destino de 46% das nossas exportações de carne bovina no ano passado”, lamentou.
Segundo ele, a saída é continuar negociando, apostar na abertura de novos mercados onde o consumo de carne bovina seja grande e ganhar mais produtividade.
Apesar das mudanças na dinâmica de vendas externas de carne bovina, não há sinais de alteração nas intenções de confinamento de gado bovino em 2026, de acordo com Alcides Torres, da Scot. “Segundo a nossa própria estimativa, este ano devemos ter entre nove e dez milhões de cabeças confinadas, mas não tem a ver com essa dinâmica provocada pela imposição do tarifaço chinês”, afirmou.
Ele observou que eventos como a Copa do Mundo e as eleições tendem a dar suporte ao consumo interno, o que contribui para a continuidade dos planos do setor de investir em terminação intensiva de gado.
Com as escalas de abate curtas e a expectativa de melhora no consumo de carne no mercado interno, impulsionada pela entrada dos salários, alguns frigoríficos passaram a buscar alternativas para ampliar suas programações, oferecendo mais pela arroba dos bovinos terminados, informa a Scot Consultoria. Com isso, nesta quarta-feira (8/4) alguns negócios foram registrados acima dos preços vigentes. Se essa estratégia for mantida, o viés seria de alta no curto prazo, condicionado ao desempenho das vendas de carne.
Nesta quarta-feira, 21 das 33 regiões pecuárias monitoradas pela Scot não tiveram alterações no preço do boi gordo na comparação diária. Outras 12 praças registram altas nas cotações.
Nas praças de Araçatuba (SP) e Barretos (SP), o preço do boi gordo seguiu em R$ 362 a arroba para o pagamento a prazo. As demais categorias (“boi China”, vaca e novilha) também não tiveram alterações de valores.
Para o bezerro, o cenário também é de oferta limitada. Em Mato Grosso do Sul, o indicador Cepea/Esalq registrou média à vista de R$ 3.305,75 por cabeça nessa quarta-feira, com avanço de 0,36% no acumulado do mês.
No mercado atacadista da carne com osso na Grande São Paulo, os preços também avançam, refletindo a valorização da arroba e o aumento dos cortes do dianteiro.
Na terça-feira (7/4), a carcaça casada bovina teve média à vista de R$ 24,80 o quilo, com alta de 1,47% na parcial do mês. Para os cortes traseiro, dianteiro e ponta de agulha, os valores médios do quilo foram, respectivamente, de R$ 28,09, R$ 22,21 e R$ 20,58, com aumentos de 0,75%, 2,40% e 2,24% na parcial de abril.
Fonte: Globo Rural.