

Após a repercussão da retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal para a União Europeia, novos detalhes começaram a surgir sobre os bastidores da decisão europeia e sobre a tentativa do governo brasileiro de reverter a situação antes da entrada em vigor da medida, marcada para setembro.
Segundo o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luís Rua, o Brasil aguardava desde outubro de 2025 um posicionamento formal da União Europeia sobre os protocolos brasileiros relacionados ao uso de antimicrobianos na produção animal.
De acordo com o secretário, o governo brasileiro já havia enviado informações técnicas às autoridades europeias e vinha cobrando respostas sucessivas do bloco sobre a adequação dos controles sanitários nacionais.
“Estamos cobrando desde outubro um posicionamento sobre se os protocolos brasileiros estão adequados. Por isso, fomos surpreendidos com a decisão”, afirmou Rua durante o Congresso Abramilho, em Brasília.
Apesar da decisão anunciada pela Comissão Europeia, as negociações entre Brasil e União Europeia continuam.
Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Agricultura, o bloco europeu deverá encaminhar nos próximos dias uma lista detalhada com exigências e apontamentos técnicos sobre as garantias adicionais exigidas para o controle do uso de antibióticos e antimicrobianos na cadeia animal brasileira.
A expectativa é que o Brasil envie respostas separadas por cadeia de proteína animal em até duas semanas para avaliação da União Europeia. O objetivo é buscar uma possível reinclusão do país na lista de exportadores autorizados antes da entrada em vigor da medida, em setembro.
Segundo Luís Rua, esse processo pode permitir ao Brasil “refinar” mecanismos de controle e adequação sanitária exigidos pelos europeus.
A comunicação do governo brasileiro sobre o caso chamou atenção pela diferença de tom entre autoridades.
Enquanto a nota oficial do Ministério da Agricultura afirmou que o Brasil recebeu a decisão “com surpresa”, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, declarou que o tema já vinha sendo tratado pelas equipes técnicas e que a suspensão “não é novidade”.
Segundo o chanceler, o governo brasileiro já vinha acompanhando as discussões relacionadas às regras europeias sobre antimicrobianos e apresentará todas as informações necessárias para comprovar a qualidade da carne brasileira.
Além da preocupação comercial imediata, lideranças da indústria da carne passaram a alertar para um possível efeito reputacional da decisão europeia.
Representantes do setor avaliam que o maior risco não está apenas nas exportações para a União Europeia, mas na possibilidade de outros países utilizarem o posicionamento europeu como justificativa para ampliar exigências sanitárias ou adotar medidas semelhantes contra a carne brasileira.
Mesmo acreditando numa reversão antes de setembro, integrantes da cadeia exportadora afirmam que o anúncio europeu já produz desgaste na imagem internacional do Brasil.
“O estrago já está feito”, resumiram representantes do setor ouvidos nas reportagens.
O receio é que a decisão fortaleça movimentos protecionistas ao redor do mundo em um momento de crescente pressão internacional sobre rastreabilidade, sustentabilidade e controle sanitário na produção de alimentos.
Em 2025, as exportações brasileiras de produtos de origem animal para a União Europeia somaram mais de US$ 1,8 bilhão.
Embora a UE esteja longe de ser o principal destino da carne bovina brasileira em volume, o mercado europeu continua sendo considerado estratégico pelo alto valor agregado e pelo peso de suas exigências sanitárias no comércio internacional.
Por isso, o setor acompanha com atenção os próximos passos das negociações técnicas entre Brasília e Bruxelas, que devem definir se o Brasil conseguirá comprovar conformidade e retornar à lista de exportadores autorizados antes da entrada em vigor das restrições.
Fontes:
União Europeia enviará lista de exigências ao Brasil sobre produtos de origem animal
Setor de carnes teme dano à reputação do Brasil após veto da União Europeia
Ministro diz que suspensão de venda de carne pela UE não é novidade
Ministério diz que cobra retorno da UE sobre antimicrobianos desde outubro de 2025