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18 de maio de 2026

Mais carne Prime, menos Select: como mudou o consumo de carne bovina nos EUA

Nos Estados Unidos, a carne bovina é classificada pelo USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) principalmente conforme o grau de marmoreio e a qualidade da carcaça.

As categorias mais conhecidas são Prime, considerada a mais valorizada e com maior marmoreio, Choice, que domina o varejo americano, e Select, uma carne mais magra e com menor nível de gordura intramuscular. Durante décadas, a diferença de preço entre as carnes Choice e Select — chamada de “spread Choice-Select” — foi usada como um dos principais indicadores da demanda por carne bovina no país. Quando a carne Select ganhava valor em relação à Choice, normalmente isso era interpretado como um sinal de que o consumidor estava migrando para produtos mais baratos.

Mas, com o rebanho bovino dos EUA no menor nível em 70 anos e a oferta de carne Select encolhendo para apenas 10% das carcaças classificadas, Don Close, analista sênior de proteína animal da Terrain, afirma que é hora de parar de interpretar os velhos sinais e começar a observar o que o consumidor moderno realmente deseja.

A recente inversão do spread Choice-Select está gerando preocupação de que os consumidores estejam “descendo de categoria”, migrando para carnes mais baratas e de menor qualidade. Em uma análise recente da Terrain Outlook, Close afirma que o setor precisa parar de reagir exageradamente ao antigo sinal do Choice-Select e começar a acompanhar indicadores mais relevantes.

Durante décadas, o spread Choice-Select foi tratado como um dos principais termômetros da demanda por carne bovina e das preferências do consumidor. Um spread invertido — quando a carne Select passa a valer mais que a Choice — normalmente levantava um sinal de alerta de que os compradores estavam buscando produtos mais baratos. Segundo ele, essa narrativa simplesmente não se encaixa mais na estrutura atual da oferta de carne bovina.

Um mercado diferente dos anos 1990

Close afirma que as condições que tornavam esse spread relevante mudaram drasticamente.

“Em anos anteriores, um spread invertido realmente importava”, explica. “Mas naquela época, cerca de 60% das carcaças eram classificadas como Choice ou superior e aproximadamente 40% eram Select. Além disso, a maioria das redes varejistas trabalhava com carne Select. Também não existiam programas de carne premium de marca, e o percentual de carcaças Prime variava entre 2% e 4%.”

Hoje, todo o cenário de classificação e comercialização da carne é diferente.

“Atualmente, as lojas trabalham predominantemente com carne Choice ou superior”, observa Close. “Também é comum que o percentual de carcaças Prime fique entre 10% e 15%, e exista mais carne Prime do que Select no mercado.”

Nesse ambiente — em que a carne Select representa uma fatia muito menor da produção total e o varejo está fortemente apoiado em programas premium e carnes de marca — a antiga leitura do spread perde sentido.

“No ambiente atual de mercado, esse spread é uma medida sem significado”, enfatiza.

A carne Select está escassa, não repentinamente popular

Se os consumidores não passaram a preferir carne Select de repente, por que ela se valorizou em relação à Choice? Close aponta primeiro para uma queda estrutural na produção de carne Select.

“A principal razão é que a oferta de carne Select diminuiu, o que pode dar a impressão de aumento de demanda”, afirma. “A participação da Select caiu de 50% das carcaças classificadas nos anos 1990 e início dos anos 2000 para cerca de 10% atualmente. Como acontece com qualquer commodity cuja oferta diminui, o preço tende a subir.”

Essa pressão do lado da oferta acontece junto ao menor rebanho bovino doméstico dos EUA em 70 anos. Ao mesmo tempo, a escassez de carne magra e o crescimento do uso de produtos mistos estão aumentando a disputa por cada quilo disponível de carne bovina magra.

“Mesmo com o aumento da oferta de aparas magras importadas, a disponibilidade de carne magra continua extremamente apertada”, explica Close. “Os processadores estão buscando qualquer fonte de carne magra para aumentar a oferta de matéria-prima para moagem.”

Ele acrescenta que a carne Select ainda possui um papel importante em alguns canais específicos.

“Também existe demanda por produtos Select em uso institucional, principalmente hospitais”, observa Close. “Os produtos Select também continuam sendo utilizados em muitos alimentos congelados prontos.”

Quando se combinam menor produção de Select, um rebanho historicamente apertado e demanda contínua dos canais institucionais e industriais, a valorização da carne Select parece muito mais uma história de escassez do que um sinal de que o consumidor está “descendo de categoria”.

Essa inversão vai continuar?

Close não acredita que a situação atual será permanente, mas também não vê o spread invertido como uma ameaça no curto prazo.

“Isso será um cenário de longo prazo? Certamente acredito que não. A inversão do spread vai voltar a desestabilizar o mercado? Também não acredito”, afirma.

Em vez disso, ele direciona os produtores para a economia da terminação dos bovinos.

“Quando chegar o dia em que os preços dos grãos subirem e o custo de ganho superar o valor do ganho, talvez o mercado precise rever essa situação”, diz Close. “Nesse caso, a economia desestimularia os confinadores a engordarem tanto os animais, levando a mais carne Select, preços menores para Select e preços maiores para Choice.”

Por enquanto, os números ainda favorecem produzir animais mais pesados e com melhor acabamento.

“Atualmente, com o custo de ganho em torno de US$ 220 por 100 kg e o valor do ganho se aproximando de US$ 551 por 100 kg, a inversão do spread não será um fator de mercado tão cedo”, resume.

Carne Premium e Prime exigem uma nova matriz de classificação

Em vez de continuar obcecado pelo spread Choice-Select, Close acredita que o setor deveria focar em indicadores que reflitam onde a demanda realmente migrou.

“Uma medida melhor seria um indicador de carne Choice premium de marca, ou então o spread entre Choice e Prime”, sugere.

Segundo ele, essa mudança também exigiria uma atualização do próprio sistema de classificação.

“A última vez que a matriz de classificação do USDA foi atualizada ou modificada foi em 1997”, explica. “Naquela época, não existiam programas de carne premium de marca. Na minha opinião, a matriz precisa ser atualizada para incorporar toda a carne que se enquadra no terço superior da categoria Choice e acima.”

Para Close, o veredito do consumidor já está claro.

“Os consumidores já demonstraram sua demanda por carne bovina de altíssima qualidade”, afirma, citando o sucesso da Certified Angus Beef e a expansão da oferta de carne Prime no varejo. “Agora, as dietas ricas em proteína viraram tendência. O consumidor americano não vai voltar a consumir predominantemente carne Select.”

Para produtores e analistas de mercado, a mensagem é clara: não deixe um spread Choice-Select invertido desviar a atenção da mudança estrutural e de longo prazo em direção a carnes de maior qualidade e sinais de preço mais relevantes.

Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

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