

Empresas brasileiras do setor agropecuário até conseguiram, em sua maioria, sustentar lucros no primeiro trimestre, marcado pelo ataque ao Irã por Estados Unidos e Israel no fim de fevereiro. Mas não evitaram uma deterioração dos resultados. No segundo trimestre, porém, a situação deve se agravar, com os impactos do conflito sentidos por mais tempo no resultado líquido.
Um dos fatores que influenciaram parcialmente os balanços recém-divulgados e deve pesar mais no segundo trimestre é o frete, segundo analistas ouvidos pelo Valor. Seja pela alta do petróleo — que elevou o preço do diesel no Brasil e de outros combustíveis mundo afora—, seja pelos maiores gastos com frete marítimo e rodoviário —em razão da necessidade de usar novas rotas para levar produtos a seu destino final, as despesas com transporte cresceram.
“Para quem produz grãos, o frete pega pelo custo do combustível para operar as máquinas e na formação dos preços. Quanto mais caro para transportar o grão do interior do Brasil até os portos, menor o valor do grão para o produtor”, disse o analista do Itaú BBA, Gustavo Troyano, em referência ao desconto aplicado por tradings sobre o preço pago pelos grãos, conforme o valor do frete. Companhias como SLC e BrasilAgro, estão expostas a essa dinâmica.
Dados compilados pelo Valor Data sobre indicadores de 18 empresas do agronegócio no primeiro trimestre mostram piora dos resultados. A maioria delas, ou 11 das 18 companhias, registrou queda da receita líquida. Do total, 15 tiveram lucro, mas entre as que lucraram, 9 viram o valor diminuir. A margem Ebitda (indicador que mede o quanto de lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização a empresa consegue gerar em relação à receita) foi positiva para 14 delas, mas metade foi menor do que um ano antes.
Outra variável afetada pelo conflito no Oriente Médio e que vem castigando os indicadores econômicos das companhias do agronegócio é a taxa básica de juros, a Selic. Antes do início da guerra, analistas esperavam cortes maiores da taxa pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o que não ocorreu. Em março, o Copom reduziu a taxa em 0,25 ponto porcentual, de 15% para 14,75% ao ano, e no fim de abril, fez novo corte de 0,25, para 14,5% ao ano.
Com dívidas atreladas à Selic aumentando e lucros menores, empresas tendem a ver sua alavancagem — o peso da dívida em relação ao lucro gerado — crescer, algo a ser acompanhado por investidores, após vários casos de empresas do setor altamente endividadas.
“Creio que a taxa de juros já estaria em patamar bem mais baixo se não tivesse começado o conflito”, disse Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos. “Foi 0,75 a menos de corte de juros do que se imaginava antes do conflito. Tem empresa pagando R$ 150 milhões a mais a cada ponto de juros que não foi cortado. Faz bastante diferença no planejamento”.
“Empresas alavancadas neste cenário de juros têm sido um fator preocupante, o custo dessa dívida tem sido um detrator [de resultados]”, disse o chefe de agro, alimentos e bebidas da XP, Leonardo Alencar, dando como exemplos a SLC, Camil, MBRF. “Estamos em um ambiente de margens pressionadas, grande de parte por pressão dos custos, e com juros altos”, acrescentou.
No primeiro trimestre, a alavancagem da SLC, medida pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda ajustado no período de 12 meses, aumentou para 2,72 vezes, em relação a 1,97 vez no mesmo período do ano passado. No caso da MBRF, a alavancagem saiu de 2,69 vezes há um ano para 3,37 vezes.
Na SLC Agrícola, a perspectiva é que a recuperação de margens de lucro só ocorra em meados de 2027, disse a jornalistas, em meados de maio, o diretor financeiro e de relações com investidores da empresa, Ivo Brum. O argumento é que a forte alta dos fertilizantes, especialmente os nitrogenados, afetará os custos de produção.
O Oriente Médio é importante fornecedor global do insumo e dificuldades de escoamento levaram os preços a subir mais de 60%. Mesmo que o Brasil tenha dado “sorte” por ainda não precisar comprar adubos nitrogenados para as lavouras de milho segunda safra 2026/27, a serem plantadas no começo do ano que vem, a continuidade da guerra mantém o risco de alta dos custos no horizonte, segundo os analistas.
Produtores endividados, com custos mais altos e margens de lucro menores também representam riscos de resultados piores para companhias de insumos como Boa Safra e Vittia, lembra Alencar, da XP. “O produtor pode não reduzir área, mas deve reduzir o uso de tecnologia”, disse.
Outros elementos, não relacionados à guerra, apontam trimestres mais difíceis à frente, segundo os analistas. Do lado das empresas de carnes, há a alta persistente dos preços do boi nos EUA, fruto da escassez da oferta de animais prontos para abate, e a perspectiva de alta no Brasil, com uma esperada redução de animais abatidos, reflexo da retenção de fêmeas.
O fortalecimento do real em relação ao dólar, que se traduz em menor receita em real para exportadores, também é fator de preocupação, dizem os analistas.
Fonte: Globo Rural.