
Hoje me despeço de Seu Antônio Aguiar.
Quero fazer um registro sobre o pai de um amigo meu que faleceu.
É um dos primeiros pais de amigos da minha idade que falece.
E talvez seja o primeiro pai de amigo com quem eu tive o privilégio de conviver por tantos anos e que deixou tantos aprendizados em mim.
É uma pessoa que eu admirei como homem, como empreendedor, como produtor rural e que, de alguma forma, também me inspirou em relação à criação do meu trabalho no BeefPoint e no Mastermind Aliança AgroTalento.
Nesses últimos 25 anos de formado, eu tive o privilégio de conviver com ele porque ele era o pai de um dos meus melhores amigos.
Ele foi uma pessoa muito bem-sucedida.
Mas começou a vida fazendo algo que hoje parece improvável.
Mudou de estado para ir trabalhar com pecuária e fazer o que os antigos chamavam de trabalhar “a meia”, em pasto alugado, em fazenda arrendada.
Ou seja, ele não era dono do gado. Não era dono do pasto. Não era dono da fazenda.
Ele era o operador. Em outros tempos da pecuária.
Mas com certeza tinha uma sagacidade muito grande na operação e também na comercialização.
Uma das coisas que eu mais aprendi observando pessoas como o Seu Antônio Aguiar nesses últimos 25 anos é que as pessoas que fazem uma fazenda gerar dinheiro, construir patrimônio, construir riqueza e construir prosperidade para a família têm algumas características em comum.
Tem trabalho. Tem coragem. Tem dedicação. Tem capricho. Tem capacidade de operação.
Mas também tem capacidade comercial.
Eu lembro de estar na casa dele, recém-formado, ouvindo ele falar sobre como fazia o monitoramento de mercado dele.
Isso foi há 25 anos. Mal existia internet.
Eu estava começando o BeefPoint.
E ele fazia uma coisa que pouca gente fazia naquela época e que pouca gente faz até hoje.
Ele ligava para vários amigos pecuaristas em diferentes lugares do Brasil para sondar o mercado.
Com isso, ele ouvia diversas opiniões.
E criava a sua própria opinião.
O seu senso crítico. A sua capacidade analítica.
Baseado em tudo aquilo que ouvia e na experiência que tinha acumulado, ele tomava a decisão dele.
Acertava sempre? Claro que não.
Mas existia uma lógica.
Existia um racional.
Vou ouvir várias opiniões de pessoas que eu confio, admiro e respeito e vou construir a minha própria visão.
Ele não chamava isso de tese.
Mas, olhando hoje, era exatamente isso que ele fazia.
Uma outra coisa importantíssima e inspiradora que eu aprendi com o Seu Antônio Aguiar foi a forma como ele fez a sucessão.
Ele fez a sucessão do jeito dele.
De forma planejada. De forma desenhada.
Baseado na opinião dele. Baseado na visão dele.
Baseado naquilo em que ele acreditava.
E eu acredito muito em pessoas que fazem as coisas porque acreditam nelas de verdade.
Não porque ouviram alguém falar. Não porque virou moda. Não porque um especialista mandou.
Mas porque construíram uma convicção.
Ele apoiou os filhos. E apoiou cada um deles no início da vida.
O meu amigo começou a empresa dele, que hoje é um grande sucesso, também porque o pai dele acreditou nele e o apoiou naquele momento.
Ele fez isso de uma forma que outras pessoas talvez não fariam.
Apoiando filhos em momentos diferentes. De formas diferentes.
Respeitando a individualidade de cada um.
Mas sempre alinhado com aquilo em que acreditava.
E existe uma outra coisa que eu admiro profundamente.
A herança que ele deixou para os filhos começou a ser entregue muito antes da sua partida.
Ela não começou quando ele faleceu.
Ela começou enquanto ele vivia.
Porque ele não apenas passou patrimônio.
Ele ensinou a pensar. Ensinou a trabalhar.
Ensinou a negociar. Ensinou a construir.
Ensinou pelo exemplo.
Hoje todos os filhos são trabalhadores. São dedicados. São inteligentes. São bem relacionados.
São astutos nos negócios. São sagazes na comercialização.
Características que lembram muito o pai.
Talvez esse seja um dos maiores legados que alguém possa deixar.
Não apenas patrimônio. Mas capacidade.
Não apenas bens. Mas pensamento.
Não apenas recursos. Mas valores.
Há quinze dias eu fui visitá-lo.
Ele estava na UTI de um hospital em São Paulo.
Era tarde. Depois das dez da noite.
Eu fui encontrar esse meu amigo e também ver o Seu Antônio.
E saí de lá com uma sensação difícil de explicar. Uma sensação silenciosa. Uma sensação de que talvez fosse a última vez que eu o veria.
Eu não falei isso para o meu amigo naquele dia. Mas foi exatamente o que senti.
E mesmo nos últimos dias de vida ele continuava mantendo uma característica muito própria dele.
Ele brigava. Ele era brigão.
Brigava pelas coisas em que acreditava.
Quando eu cheguei lá, ele estava dando trabalho para os enfermeiros e para as enfermeiras.
E eu gostei de ver aquilo. Porque aquilo ainda era ele. Aquilo ainda era vida.
Na hora de ir embora eu falei:
“Seu Antônio, que alegria encontrar o senhor e ver o senhor brigando. Continue brigando. Não afrouxa não.”
E depois falei para o meu amigo:
“Que bom que o seu pai ainda está brigando. A chama da vida ainda está com ele.”
Hoje, olhando para trás, percebo o quanto aquela cena ficou gravada em mim.
Porque cada pessoa tem características que a tornam única.
E talvez uma das características que eu mais admirava no Seu Antônio fosse justamente essa.
Ele era brigão. Mas brigão pelas coisas em que acreditava.
Brigão pelas convicções dele. Brigão pelos princípios dele.
Brigão pela visão de mundo dele.
E talvez esses cantos afiados sejam justamente uma parte importante das pessoas que deixam marcas.
Muitas vezes as pessoas criticam esses cantos afiados.
Mas são esses cantos afiados que tornam alguém único.
Interessante. Capaz. Habilidoso. Fascinante.
Assim como era o Seu Antônio.
Esse texto também é um lembrete.
As pessoas vão. Os pais vão. Os avós vão. Os mestres vão.
E se você, como eu, já passou dos quarenta anos, existe uma percepção importante.
Você já não é apenas o filho. Você é o pai.
Você é a geração que precisa liderar.
A liderança está na sua mão. A responsabilidade está na sua mão.
Ao mesmo tempo que você honra e celebra a vida, as lições, os exemplos, o legado e as provocações dos seus pais, dos seus avós e dos seus antepassados, também existe um chamado.
Um chamado para assumir o seu papel. Um chamado para continuar a história.
Um chamado para carregar o fogo adiante.
Chega uma idade em que deixamos de ser apenas herdeiros dos exemplos dos nossos pais e passamos a ser responsáveis por nos tornarmos o exemplo.
Eu agradeço ao Seu Antônio Aguiar.
Pelas conversas. Pelos exemplos. Pelos aprendizados. Pelas provocações. Pelos cantos afiados.
Pela inspiração.
E espero continuar carregando uma pequena parte dessa herança invisível que também recebi dele.
Que eu siga mantendo a chama acesa. Que eu siga mantendo a brasa acesa. Que eu siga mantendo o fogo aceso.
Que eu siga brigando pelas coisas em que acredito. Com o meu estilo.
Com a minha essência. Com a minha verdade. Com a minha coragem. Com a minha resiliência.
Até o final da minha vida.
Obrigado, Seu Antônio Aguiar.
Fica com Deus. Vai com Deus.
O senhor viveu uma vida admirável. Uma vida exemplar.
E o pouco que eu tive o privilégio de conviver com o senhor deixou marcas valiosas.
Muito obrigado.
Um forte abraço, Miguel Cavalcanti