

O fechamento de duas unidades da JBS nos Estados Unidos na última semana chamou a atenção do mercado. Mas, para o BTG Pactual, a medida está menos relacionada a uma retração dos negócios e mais a uma adaptação necessária a um cenário de escassez histórica de gado no país.
Em relatório divulgado nesta quarta-feira, 17, após o Investor Day da companhia nos EUA, o banco manteve recomendação de compra para as ações da JBS, com preço-alvo de R$ 100 por ação — potencial de valorização de cerca de 59% em relação ao fechamento recente dos papéis.
A avaliação ocorre mesmo após os analistas reduzirem suas estimativas de lucro para 2026 em razão do ambiente mais desafiador para a operação de carne bovina norte-americana.
Na sexta-feira, 12, a JBS anunciou o fechamento de parte de sua capacidade de processamento de carne bovina nos EUA. Com isso, a capacidade anual de abate deve cair de 33 milhões para 27 milhões de cabeças. Em comunicado, o CEO da JBS USA, Wesley Batista Filho, afirmou que a decisão foi difícil em razão dos impactos sobre os funcionários e as comunidades locais.
O contexto dos fechamentos ocorre em meio à crise que afeta o setor pecuário nos Estados Unidos. A indústria de carne americana atravessa uma fase de contração do ciclo pecuário, caracterizada pela redução do rebanho e pela menor oferta de animais nos confinamentos.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos EUA atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA. A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os EUA perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
“Embora as condições operacionais possam se tornar ainda mais desafiadoras antes de melhorar, a empresa acredita que os resultados tendem a avançar à medida que sua operação bovina fique mais concentrada em regiões onde a disponibilidade de animais é estruturalmente mais forte”, afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla.
Segundo o banco, a administração da JBS indicou que parte dos ganhos de margem esperados virá justamente do fechamento de unidades menos eficientes, da integração operacional e de iniciativas de produtividade.
A companhia também avalia que uma eventual retomada das importações de gado do México pode aliviar parte da escassez enfrentada pela indústria americana. Contudo, desde o ano passado o México sofre com a bicheira do Novo Mundo, que afeta as cadeias pecuária e de carne bovina tanto no México quanto nos EUA.
Para o BTG, apesar da pressão sobre a carne bovina nos EUA, o principal recado do Investor Day foi outro: a JBS quer ser vista cada vez mais como uma empresa global de alimentos e marcas, e não apenas como uma processadora de proteína animal.
Para os analistas, a diversificação geográfica e de negócios continua sendo uma das maiores vantagens competitivas da companhia. Enquanto a operação bovina americana enfrenta dificuldades, outras áreas seguem crescendo.
Outro ponto destacado pelo BTG é a solidez financeira da empresa. Segundo o banco, a JBS tem uma das estruturas de capital mais robustas do setor global de proteínas, com prazo médio da dívida de 15 anos e custo médio de financiamento de 5,7% ao ano.
A companhia também reduziu em US$ 400 milhões seu plano de investimentos para 2026, movimento interpretado pelo mercado como sinal de disciplina financeira em um ambiente mais desafiador.
Para o banco, a combinação entre diversificação, geração de caixa e disciplina de capital ajuda a explicar por que a JBS continua sendo uma das principais recomendações dentro do universo global de proteínas.
“O tema central já não é apenas crescimento. Trata-se de uma empresa que vem demonstrando previsibilidade operacional, disciplina na alocação de capital e capacidade de atravessar ciclos adversos”, diz Duarte e Gutilla.
Em um momento em que a pecuária americana ainda busca reconstruir seu rebanho — um processo que, segundo a companhia, pode levar de dois a três anos —, a aposta da JBS é que sua presença global permita compensar as dificuldades de um mercado com os resultados de outros. Para o BTG, essa continua sendo a principal tese de investimento da empresa.
Fonte: Exame.