
A confirmação da presença da bicheira do Novo Mundo (New World Screwworm – NWS) no Texas reacendeu um desafio que vai além do controle sanitário: a falta de mão de obra qualificada para monitorar os rebanhos e tratar animais infestados. Produtores e especialistas alertam que os Estados Unidos enfrentam hoje o parasita com apenas uma fração da força de trabalho disponível durante a última grande campanha de erradicação da doença.
Roy Angermiller, pecuarista que trabalhou com o controle da bicheira quando era estudante em Alpine, no Texas, lembra que, naquela época, havia grande disponibilidade de cowboys e cavalos para percorrer os pastos, laçar bezerros e tratar animais com feridas infestadas.
Segundo ele, a realidade atual é bastante diferente. As fazendas trabalham com mais animais, enfrentam maior pressão da fauna silvestre e convivem com uma escassez crescente de trabalhadores experientes.
O representante estadual Don McLaughlin afirma que a falta de cowboys poderá se tornar um dos principais entraves para a resposta à doença.
“Será um grande problema. Não temos mais os cowboys que tínhamos antes. Não temos mais os trabalhadores temporários; essas pessoas desapareceram”, afirma.
O controle da bicheira depende de inspeções frequentes dos animais para identificar lesões, realizar o tratamento e comunicar rapidamente novos casos às autoridades sanitárias. Sem pessoas suficientes para fazer esse trabalho, a velocidade de resposta pode ser comprometida.
Além da escassez de profissionais, produtores destacam que os salários também precisaram aumentar para atrair trabalhadores qualificados. Segundo McLaughlin, os valores pagos há dez anos já não são suficientes para preencher as vagas atualmente.
Jimmy Speer, coproprietário da Southwest Livestock Exchange, afirma que muitas propriedades e leilões enfrentam dificuldades para encontrar mão de obra suficiente para movimentar os animais, cumprir eventuais novas exigências de inspeção e manter as operações funcionando normalmente.
Embora algumas fazendas estejam recorrendo a trabalhadores estrangeiros por meio do programa H-2A, Speer ressalta que o processo é lento. Segundo ele, a bicheira não espera meses pela conclusão da burocracia necessária para contratar funcionários.
Na avaliação de Angermiller, três fatores tornam o cenário atual mais desafiador do que no passado: a redução do número de cowboys e cavalos disponíveis, o aumento do número de animais sob responsabilidade de cada trabalhador e a maior presença de animais silvestres, que também podem servir como hospedeiros da bicheira.
O uso de caminhões de trato, veículos utilitários, helicópteros e outras tecnologias aumentou a eficiência das operações pecuárias, mas, segundo o artigo, esses recursos não substituem a inspeção visual próxima dos animais.
Alguns produtores também apostam em novas tecnologias para reduzir parte desse desafio. Em uma fazenda do sul do Texas, colares com cercas virtuais estão sendo utilizados para facilitar o monitoramento do rebanho. Outras iniciativas incluem câmeras de campo e ferramentas de inteligência artificial capazes de identificar possíveis ferimentos nas imagens, reduzindo a necessidade de analisar manualmente milhares de fotografias.
Jason Sawyer, diretor científico da East Foundation, afirma que pesquisadores trabalham no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial capazes de detectar lesões em imagens captadas por câmeras instaladas nas propriedades.
Mesmo assim, os entrevistados ressaltam que a tecnologia apenas auxilia o monitoramento. Quando um alerta é emitido, ainda é necessário que uma pessoa vá até o local para verificar o animal e realizar o tratamento.
O artigo lembra que, quando os Estados Unidos erradicaram a bicheira em 1966, o sucesso da campanha dependeu tanto da liberação de insetos estéreis quanto do trabalho diário de cowboys percorrendo as fazendas para localizar, laçar e tratar os animais afetados.
Agora, com a confirmação da bicheira no Texas, produtores voltam a questionar se a atual disponibilidade de mão de obra será suficiente para enfrentar um problema sanitário que exige observação constante e resposta rápida.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.