
À primeira vista, a redução de 8,7% no abate de bovinos nos Estados Unidos em 2026 pode sugerir apenas uma menor oferta de animais para o mercado. No entanto, uma análise mais detalhada mostra que a pecuária norte-americana está passando por mudanças estruturais importantes na forma como produz carne bovina.
Segundo os economistas Charley Martinez, da Universidade do Tennessee, e Will Secor, da Universidade da Geórgia, os números do abate precisam ser analisados em conjunto com o peso das carcaças, a retenção de fêmeas e a dinâmica dos confinamentos para compreender o verdadeiro cenário do mercado em 2026.
Com o rebanho bovino dos Estados Unidos permanecendo em níveis historicamente baixos, a indústria encontrou uma forma de reduzir o impacto da menor disponibilidade de animais: aumentar o peso das carcaças.
Em março de 2026, o peso médio das carcaças atingiu o recorde de 409 kg. Em maio, a média permaneceu próxima de 408 kg, cerca de 9 a 14 kg acima do mesmo período de 2025 e entre 29 e 39 kg superior à média registrada entre 2020 e 2024.
Historicamente, os pesos das carcaças costumam atingir o ponto mais baixo por volta de junho antes de voltar a subir durante o segundo semestre. Caso a diferença em relação ao ano passado seja mantida, Martinez projeta que o peso médio poderá alcançar entre 415 e 420 kg até dezembro.
Segundo o pesquisador, o aumento do peso das carcaças tem sido um dos principais fatores para evitar uma queda mais acentuada da produção de carne bovina.
“O padrão de aumento no peso das carcaças continua evidente em 2026, permanecendo muito acima tanto da média de 2020 a 2024 quanto dos níveis registrados em 2025”, afirmou Martinez.
Ele explica que margens favoráveis nos confinamentos, melhor desempenho dos animais e incentivos econômicos para maximizar a produção de carne por cabeça levaram os produtores a manter os bovinos por mais tempo na fase de terminação.
Ao mesmo tempo, alerta que carcaças excessivamente pesadas podem, no futuro, afetar a classificação da carne, elevar os custos de alimentação e gerar descontos comerciais caso o mercado passe a penalizar animais muito pesados.
Outro aspecto destacado por Will Secor é que a redução de 8,7% no abate ocorreu de maneira bastante desigual entre as diferentes categorias de animais.
O abate combinado de novilhos e novilhas caiu 9,3% no primeiro semestre de 2026, mas as novilhas apresentaram retração bem mais intensa.
Enquanto o abate de novilhas recuou 11,6%, o de novilhos caiu 7,8%.
Essa diferença também aparece nos confinamentos. Em abril, as novilhas representavam apenas 37% do total de bovinos confinados, o menor percentual para esse mês desde 2018. Embora esse patamar seja semelhante ao observado em alguns anos recentes, como 2025, 2022, 2021 e 2020, o indicador reforça que mais fêmeas estão sendo retidas nas propriedades.
Os números referentes às vacas mostram uma tendência ainda mais clara.
O abate total de vacas caiu 5,9% em 2026, mas esse resultado reúne comportamentos bastante diferentes entre os dois segmentos da pecuária.
Enquanto o abate de vacas leiteiras aumentou 3,9% até junho, o de vacas de corte recuou 16,3%.
Segundo Secor, se esse ritmo for mantido até o final do ano, menos de 8% das vacas de corte existentes no início de 2026 serão destinadas ao abate.
Isso representa mais um sinal de que os pecuaristas continuam priorizando a reconstrução do rebanho, em vez de liquidar matrizes.
Os dois economistas apontam que o mercado vive atualmente uma combinação de oferta restrita e mudanças na estratégia dos confinamentos.
Mesmo com um rebanho nacional menor, o número de bovinos confinados em junho foi superior ao registrado no mesmo mês do ano passado e alcançou o maior nível para junho desde 2022.
Segundo Secor, isso ocorre porque os animais permanecem mais tempo nos confinamentos para atingir pesos maiores antes do abate, comportamento compatível com o aumento observado no peso das carcaças.
Ao mesmo tempo, as margens tanto dos confinadores quanto dos frigoríficos permanecem apertadas, o que pode limitar a utilização de capacidade adicional de abate, mesmo havendo mais animais disponíveis nos confinamentos.
Outro fator de atenção é a demanda do consumidor. Embora o consumo de carne bovina continue firme até o momento, o economista observa sinais de que o ambiente econômico poderá reduzir o ritmo das compras nos próximos meses.
Para Martinez e Secor, alguns indicadores merecem atenção especial ao longo do restante de 2026.
A economia do confinamento continua favorecendo o ganho adicional de peso. Enquanto as margens permanecerem positivas, a expectativa é de que os pesos dos animais terminados continuem aumentando sazonalmente até o quarto trimestre, embora seja importante acompanhar possíveis descontos para carcaças muito pesadas.
A forte retenção de vacas de corte indica que muitos pecuaristas seguem apostando na reconstrução dos rebanhos, o que tende a manter a oferta de animais de reposição relativamente apertada por mais algum tempo.
Por fim, o comportamento das novilhas continua sendo um dos principais indicadores para acompanhar a velocidade da expansão do rebanho norte-americano. Com menos novilhas entrando nos confinamentos e maior retenção nas fazendas, o mercado ganha um importante sinal sobre o ritmo — possivelmente lento — da recuperação da oferta de bovinos nos próximos anos.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.