
Depois de anos de redução do rebanho bovino, os Estados Unidos começam a dar os primeiros sinais de estabilização. Os dados mais recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam um leve aumento no número total de bovinos, mas especialistas avaliam que ainda é cedo para falar em uma retomada consistente da produção. O cenário continua marcado por retenção limitada de fêmeas, custos elevados e desafios estruturais que devem prolongar o ciclo de oferta restrita e preços firmes.
O relatório mostra que o rebanho total de bovinos e bezerros alcançou 94,2 milhões de cabeças, crescimento de apenas 0,2% em relação ao ano anterior. Embora seja a primeira alta após vários anos de queda, o aumento foi considerado insuficiente para caracterizar o início de uma fase acelerada de expansão do rebanho.
Segundo Patrick Linnell, diretor de pesquisa de mercado da CattleFax, os números sugerem que o setor provavelmente ficou para trás do ponto mais baixo do ciclo pecuário, mas a recuperação deverá ocorrer de forma lenta e gradual.
Outro dado reforça essa avaliação: o número de vacas de corte continuou diminuindo. O rebanho de matrizes de corte caiu 1%, para 28,5 milhões de cabeças, enquanto o número de novilhas destinadas à reposição aumentou 3%, chegando a 3,8 milhões de animais. Para os analistas, esse pequeno crescimento na retenção de fêmeas representa um primeiro sinal de mudança, mas ainda muito discreto para indicar uma reconstrução efetiva do rebanho.
Especialistas da Universidade Estadual de Oklahoma compartilham da mesma visão. Para eles, o setor está tentando estabilizar a produção, mas ainda não há evidências suficientes para afirmar que a fase de reconstrução do rebanho tenha começado oficialmente. A expectativa é que apenas os próximos levantamentos confirmem se o número de matrizes realmente deixará de cair.
Embora a seca continue sendo um dos principais obstáculos para a expansão da pecuária norte-americana, ela está longe de ser o único fator limitante.
O estudo destaca que o envelhecimento dos produtores, a escassez de mão de obra, o aumento dos custos de produção, a expansão urbana e a competição pelo uso da terra também reduzem a velocidade de recuperação do rebanho. Mesmo nas regiões onde as condições climáticas melhoraram, esses fatores estruturais continuam limitando novos investimentos na atividade.
Um dos aspectos mais curiosos do atual ciclo é que os preços elevados dos bezerros, normalmente vistos como um fator positivo para a pecuária, acabam retardando a reconstrução do rebanho.
Com a valorização recorde dos animais jovens, muitos pecuaristas optam por vender as novilhas em vez de mantê-las como futuras matrizes. A decisão aumenta a receita imediata da fazenda, mas reduz a velocidade de expansão do rebanho nacional.
Segundo Patrick Linnell, esse comportamento é compreensível diante da forte valorização do mercado, mas ajuda a explicar por que a retenção de fêmeas continua ocorrendo de forma bastante cautelosa.
O relatório do USDA sobre confinamentos apresenta um cenário semelhante ao observado no inventário bovino.
O número de bovinos em confinamento permaneceu elevado, mas as entradas de novos animais caíram 3% em relação ao ano anterior, refletindo a menor disponibilidade de bezerros no mercado. Ao mesmo tempo, as saídas para abate também recuaram 3%, registrando o menor volume para o mês de junho desde o início da série histórica, em 1996.
A combinação entre menor oferta de animais para reposição e permanência mais longa dos bovinos nos confinamentos tem resultado em carcaças mais pesadas. Esse ganho de peso ajuda parcialmente a compensar a menor oferta de animais, mas não altera o quadro de disponibilidade restrita de bovinos para abate.
Além disso, a participação de novilhas nos confinamentos permaneceu próxima da média histórica, indicando que os produtores ainda não intensificaram a retenção de fêmeas para reprodução. Esse comportamento reforça a expectativa de uma recuperação lenta do rebanho.
Na avaliação dos especialistas, os dados divulgados pelo USDA não alteram a perspectiva positiva para os preços do boi nos Estados Unidos.
Apesar das recentes oscilações do mercado futuro, a oferta continua limitada e o setor ainda não iniciou um processo consistente de retenção de novilhas suficiente para ampliar significativamente o rebanho.
Segundo Derrell Peel, da Universidade Estadual de Oklahoma, o pico dos preços ainda não foi alcançado. Ele avalia que, enquanto a retenção de fêmeas permanecer limitada, a oferta continuará apertada e os preços deverão seguir sustentados nos próximos anos. Caso o setor demore a aumentar de forma mais consistente o número de matrizes, a expansão do rebanho poderá ser adiada inclusive para 2028.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.