
O retorno do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026 acendeu um sinal de alerta no agronegócio brasileiro. Além da agricultura, a pecuária de corte também enfrenta os desafios climáticos, que trazem riscos operacionais, sanitários e financeiros para a atividade.
No entanto, os impactos do fenômeno são diferentes nas diversas regiões de criação de bovinos, destaca um levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Enquanto o Brasil Central deve se preparar para o atraso na recuperação das pastagens e o aumento do estresse hídrico, o Sul enfrenta o problema contrário: um excesso de chuvas que aumenta a quantidade de lama, desafia a sanidade animal e reduz a qualidade das forragens.
Segundo o Cepea, na pecuária de corte, os maiores focos de vulnerabilidade concentram-se no Centro-Oeste e Norte. O principal gargalo está na transição entre a seca e a estação chuvosa.
A irregularidade das precipitações, somada às temperaturas elevadas, pode atrasar a rebrota do capim, reduzindo a capacidade de suporte dos pastos e comprometendo o ganho de peso dos lotes de engorda.
“Esse cenário tende a reduzir a oferta de animais gordos para o abate”, destaca Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador da área de pecuária de corte do Cepea.
Outro ponto crítico está na fase de cria, especialmente nos meses de outubro e novembro, quando os criadores começam a emprenhar as vacas, alerta Carvalho. “Para emprenhar e gestar com sucesso, a vaca precisa de boa condição corporal, dependendo da oferta de forragem na primavera. Caso o clima afete a produção de pasto nesse início de ciclo, o produtor corre o risco de registrar perda de prenhez e queda na safra de bezerros”, comenta.
Além do impacto direto no campo, o El Niño pressiona os custos de suplementação. O mercado de insumos, como milho e farelo de soja tende a reagir com forte instabilidade de preços.
Como resposta de curto prazo, o pesquisador do Cepea orienta o pecuarista a focar na gestão nutricional. “É preciso aproveitar os preços mais acessíveis do milho, farelo de soja e DDG para formação de estoques de ração para suplementar uma possível falta de pasto”, destaca.
No Sul, onde o El Niño traz aumento de umidade e de chuvas, o fenômeno pode favorecer a recuperação hídrica e melhorar a disponibilidade de pastagens e culturas de inverno em alguns momentos.
Porém, o excesso de precipitações é o risco mais relevante. Chuvas frequentes podem prejudicar o manejo de áreas de pastagem, aumentar lama, reduzir qualidade de forragens conservadas, dificultar colheitas e ampliar problemas sanitários.
O ambiente úmido e encharcado favorece o surgimento de doenças como a laminite (podridão dos cascos) e infecções respiratórias. O calor fora de época também antecipa infestações de ectoparasitas, como carrapatos e a mosca-dos-chifre, destaca o engenheiro agrônomo Guilherme Coradini Fontoura da Silva, chefe do escritório da Emater-RS em São Gabriel (RS).
“No manejo produtivo, a sequência de dias chuvosos dificulta os trabalhos no curral, impactando diretamente os protocolos de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) e o controle sanitário”, afirma o especialista.
A alta umidade também traz severos prejuízos às pastagens. De acordo com Soraya Tanure, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a formação de lâminas d’água aliada ao pisoteio do gado causa forte compactação do solo. “Essa situação compromete o estabelecimento e a perenidade do pasto”, comenta.
Uma preocupação adicional é o calor excessivo que o fenômeno El Niño traz, especialmente em regiões como o oeste e o centro do Rio Grande do Sul. “As altas temperaturas geram estresse térmico, reduzindo o ganho de peso e o desempenho reprodutivo”, destaca Guilherme.
Para mitigar perdas, os especialistas recomendam antecipar o combate a parasitas, manter o calendário vacinal rigorosamente em dia e reservar pastos em áreas mais altas. Outra estratégia crucial é acelerar a engorda no inverno para diminuir a lotação dos campos e estocar insumos nutricionais para suplementar o rebanho durante o declínio das pastagens.
Fonte: Globo Rural.