
O governo de Donald Trump decidiu ampliar temporariamente as importações de carne bovina dos Estados Unidos em uma tentativa de aumentar a oferta e conter os preços elevados ao consumidor. A medida, porém, abriu uma forte disputa com pecuaristas, entidades rurais e integrantes do próprio Partido Republicano e colocou no centro do debate outro problema antigo da cadeia da carne norte-americana: a concentração do setor frigorífico.
Na quarta-feira, 26 de agosto, Trump assinou uma proclamação aumentando em 300 mil toneladas a quantidade de aparas de carne bovina magra que poderá entrar nos Estados Unidos sujeita à tarifa aplicada dentro da cota de importação. O volume será disponibilizado entre setembro e novembro, dividido em três parcelas de 100 mil toneladas.
A decisão ocorre em um momento particularmente delicado para a pecuária norte-americana. O país enfrenta oferta limitada de gado, enquanto os preços da carne permanecem elevados. O rebanho bovino dos Estados Unidos chegou ao menor nível em 75 anos, após anos de secas prolongadas e custos elevados de produção. Nos supermercados, a carne destinada à fabricação de hambúrgueres já ultrapassa US$ 6,80 por libra-peso, aproximadamente US$ 15 por quilo.
Segundo a justificativa apresentada pelo governo, a produção doméstica não é suficiente para atender à demanda a preços considerados razoáveis. Além da redução da oferta de gado, a proclamação cita as restrições à importação de animais vivos do México devido à mosca da bicheira do Novo Mundo, assim como os efeitos de secas e incêndios florestais nas regiões produtoras. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta uma queda de aproximadamente 4% na produção de carne bovina em 2026 em relação a 2025. Ao mesmo tempo, a expectativa é de aumento do consumo durante o restante do ano.
A ampliação não vale para qualquer tipo de carne bovina. A proclamação determina que as 300 mil toneladas adicionais sejam destinadas especificamente a aparas de carne bovina magra, utilizadas principalmente na composição de carne moída.
O volume será destinado à categoria tarifária de “outros países ou áreas” e administrado pelo sistema first come, first served, ou seja, por ordem de chegada.
A primeira parcela, de 100 mil toneladas, ficará disponível entre 1º e 30 de setembro. Outras 100 mil toneladas serão abertas entre 1º e 30 de outubro. A terceira parcela será disponibilizada a partir de 31 de outubro e permanecerá aberta até o preenchimento das 100 mil toneladas ou até 30 de novembro, o que ocorrer primeiro.
A nova cota também não altera uma medida anterior adotada pelo governo. Em fevereiro, Trump havia ampliado em 80 mil toneladas métricas a quantidade dentro da cota destinada a aparas de carne bovina magra provenientes da Argentina em 2026.
Há ainda uma condição importante relacionada ao preço. O secretário de Agricultura e o representante comercial dos Estados Unidos deverão acompanhar se as aparas importadas por meio da nova cota estão sendo comercializadas a um preço 25% inferior ao preço de mercado das aparas de carne bovina magra. Se essa diferença não estiver sendo praticada, o presidente poderá eliminar o saldo ainda disponível da cota adicional.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) avaliou que a decisão pode abrir uma oportunidade para o Brasil, embora outros países também possam se beneficiar.
A própria condição de preço estabelecida pelo governo norte-americano, entretanto, pode limitar os ganhos imediatos de margem das empresas exportadoras. A Abiec afirmou que acompanhará a implementação da medida e que o setor brasileiro trabalhará para adequar sua produção à demanda dos Estados Unidos.
A entidade também ressaltou que uma maior abertura do mercado norte-americano não significa substituir a China como destino da carne brasileira. Segundo a associação, China e Estados Unidos procuram produtos com características e perfis diferentes e, portanto, são mercados complementares dentro da estratégia de diversificação das exportações.
Se a medida busca aliviar a pressão sobre o consumidor, ela provocou reação imediata entre os produtores.
A National Cattlemen’s Beef Association (NCBA) afirmou estar “extremamente decepcionada” com a decisão. O presidente executivo da entidade, Colin Woodall, argumentou que os pecuaristas também querem manter os alimentos acessíveis, mas que aumentar a entrada de carne bovina importada a preços mais baixos não seria o caminho para reconstruir o rebanho dos Estados Unidos.
A U.S. Cattlemen’s Association (USCA) também se posicionou contra. Seu presidente, Justin Tupper, argumentou que intervenções desse tipo podem beneficiar principalmente grandes frigoríficos e varejistas, em vez dos pecuaristas.
Associações estaduais também manifestaram preocupação. Em Illinois, Josh St. Peters, vice-presidente executivo da Illinois Beef Association, afirmou que a tentativa de reduzir os preços ao consumidor estaria ocorrendo às custas dos produtores. A reação ocorre ainda em um momento no qual o setor enfrenta o fechamento de uma grande unidade da Tyson no estado.
Em Montana, Walter Schweitzer, presidente da Montana Farmers Union, alertou que, apesar de a quantidade adicional representar cerca de 2% do consumo norte-americano, compradores e frigoríficos poderiam utilizar a expectativa de maior oferta para pressionar os preços pagos aos produtores justamente em um período importante de comercialização.
A American Farm Bureau Federation também pediu que Trump reconsiderasse o plano. Em carta ao presidente, Zippy Duvall, presidente da entidade, argumentou que a política prejudicaria os pecuaristas norte-americanos.
A controvérsia não ficou restrita às entidades rurais. Parlamentares republicanos de importantes estados pecuários também passaram a contestar a Casa Branca.
John Barrasso, senador republicano pelo Wyoming e número dois do partido no Senado, afirmou que os consumidores querem carne produzida nos Estados Unidos e que os pecuaristas não estão pedindo tratamento especial, mas condições justas de mercado.
Em Nebraska, a senadora republicana Deb Fischer, que também é criadora de gado, argumentou que ampliar fortemente a entrada de carne estrangeira pode prejudicar a indústria doméstica e comprometer a solução de longo prazo: recuperar o rebanho norte-americano para atender à demanda.
O senador Pete Ricketts seguiu linha semelhante. Embora tenha reconhecido o esforço do governo para reduzir o preço dos alimentos, afirmou que mudanças de curto prazo não substituem soluções estruturais.
Em Iowa, a deputada republicana Ashley Hinson também criticou o aumento das importações e defendeu que o governo se concentre na redução da burocracia e dos custos enfrentados pelos produtores. O secretário de Agricultura do estado, Mike Naig, resumiu a preocupação ao afirmar que os Estados Unidos precisam de alimentos acessíveis, “mas não às custas dos produtores de gado”.
A repercussão chegou também à Chicago Mercantile Exchange (CME).
No pregão de terça-feira, 25 de agosto, o contrato futuro de gado gordo (Live Cattle) para outubro caiu US$ 2,65 e fechou em US$ 210,95, atingindo o menor nível em oito meses. Já o contrato de Feeder Cattle para novembro recuou US$ 5,27. O movimento ocorreu depois de perdas expressivas registradas também na sessão anterior.
No mercado físico, os preços também recuaram. Os negócios fecharam a terça-feira em US$ 218 por hundredweight (cwt), abaixo da média de US$ 225,01 por cwt da semana anterior.
Segundo a reportagem, confinadores e frigoríficos reduziram o ritmo de compra de animais diante da expectativa de entrada da carne importada. Consultorias de mercado também indicaram que setores de compra das processadoras já trabalhavam com a possibilidade de utilizar matéria-prima importada mais barata para ajustar suas margens.
Em meio à reação dos pecuaristas, Trump passou a sinalizar outra frente de atuação.
Durante entrevista ao programa de Glenn Beck, o presidente afirmou que analisará se existem regulamentações excessivas nas plantas de processamento de carne bovina. A discussão surgiu depois que Beck sugeriu que a redução de exigências poderia facilitar o processamento pelos próprios agricultores e pecuaristas.
Beck também pediu ao presidente que analisasse o que chamou de “cartel” no processamento de carne. Trump respondeu que a ideia de facilitar o processamento pelos produtores poderia ser positiva e chamou atenção para a concentração do setor.
Atualmente, quatro empresas controlam cerca de 85% do processamento de carne bovina nos Estados Unidos: Cargill, Tyson Foods, JBS USA e National Beef Packing Co. As duas últimas são controladas, respectivamente, pelas brasileiras JBS e MBRF.
A concentração já vinha sendo observada pelo governo. No ano anterior, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos informou que investigava se frigoríficos estavam elevando ilegalmente os preços da carne bovina ao consumidor.
Com isso, o governo Trump tenta atuar simultaneamente em duas pontas: aumentar a oferta no curto prazo por meio das importações e avaliar mudanças estruturais no processamento doméstico.
O desafio é equilibrar interesses que, neste momento, caminham em direções diferentes. De um lado, a Casa Branca busca reduzir o impacto dos preços elevados da carne sobre os consumidores. Do outro, pecuaristas argumentam que pressionar os preços do gado justamente quando o país precisa reconstruir seu rebanho pode enfraquecer a produção doméstica e dificultar a solução estrutural do problema.
Para o Brasil, a abertura de 300 mil toneladas cria uma possibilidade adicional de acesso ao mercado norte-americano. Mas a própria Abiec ressalta que a oportunidade vem acompanhada de limitações de preço e de concorrência com outros fornecedores. O efeito efetivo da medida dependerá, portanto, de quanto desse novo espaço será ocupado pelo produto brasileiro e de como o mercado norte-americano reagirá à entrada dos volumes adicionais nos próximos três meses.
Fonte: Forbes.