

Entre o som dos leilões, o desfile de animais de elite e os corredores tomados por produtores rurais de diferentes regiões do país que circulam pela Expointer, a Exposição Internacional de Esteio (RS), um visitante observa tudo com atenção. Médico-veterinário nascido em Bruxelas e acostumado ao ambiente corporativo europeu, Paul Riga estreou na Expointer poucos meses depois de assumir o comando da Elanco Brasil.
Para quem vem de um país de pouco mais de 11 milhões de habitantes, uma das maiores feiras agropecuárias a céu aberto da América Latina, e que segue até este domingo (6), esse também é um retrato da dimensão que está encontrando pela frente.
“Tudo no Brasil exige adaptação à escala: o trânsito, a quantidade de pessoas e o volume de animais trazem desafios muito diferentes dos que enfrentamos em outros continentes.”
A observação de Riga é um retrato do primeiro impacto de quem deixou a Bélgica para liderar uma das operações globais mais estratégicas da multinacional norte-americana de saúde animal Elanco. A companhia encerrou 2025 com receita de US$ 4,72 bilhões (R$ 24 bilhões na cotação atual), consolidando-se entre as quatro maiores empresas do setor. À sua frente aparecem apenas Zoetis, MSD e Boehringer Ingelheim. Em 2025, o mercado de saúde animal no Brasil faturou R$ 12,8 bilhões, 7,9% acima de 2024, de acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan)
Foi nesse ambiente que o executivo concedeu à Forbes Agro sua primeira entrevista para um veículo de comunicação brasileiro desde que assumiu a presidência da companhia no país. Além de falar do planos que tem, a conversa também pendeu para o que o fez trocar o ambiente europeu pelo desafio de atuar em um mercado dono do maior rebanho bovino comercial do planeta, e que é um desafio para o futuro da saúde animal. Porque ela caminha a passos largos para a chamada saúde Única (One Health), na qual se estabelece integralmente a interdependência entre a saúde humana, a saúde animal, a saúde vegetal e o meio ambiente.
“Quando olho para o nosso negócio, ele significa um rebanho de 230 milhões de cabeças de gado”, diz Riga.
Nascido em Bruxelas, capital belga, Riga construiu sua carreira como médico-veterinário antes de migrar para a indústria farmacêutica veterinária. Ingressou na Elanco há 16 anos, passando vendas, operações e marketing até assumir a direção da subsidiária francesa. Apesar da experiência internacional, nunca havia vivido na América Latina.
A primeira visita ao Brasil ocorreu em agosto do ano passado, quando conheceu São Paulo antes de aceitar o convite para comandar a operação no país. Desde então, ele conta que passou a descobrir um mundo que desafia qualquer parâmetro europeu. “Até aquilo que vocês chamam de pequeno é enorme para mim”, diz o executivo.
A Bélgica tem 11 milhões de habitantes, o mesmo que a região metropolitana de São Paulo, mas com o dobro da população. Na pecuária, ele diz ser normal falar em 800 bovinos para uma grande fazenda francesa. Mas aqui, propriedades com mais de 2,5 mil bovinos está na rotina comercial da companhia. Essa dimensão, afirma, exige além de uma adaptação geográfica, colocando nessa conta uma nova forma de compreender o mercado.
Riga chegou ao país para suceder a médica-veterinária Fernanda Hoe, promovida à diretoria executiva da unidade global de Animais de Produção da Elanco, nos EUA. Depois de mais de uma década na operação brasileira, sendo quatro anos e meio como diretora-geral, Fernanda deixa uma empresa fortalecida internamente e mais integrada à estratégia global da companhia. Por isso, o novo CEO afirma que sua primeira missão não é promover mudanças radicais, mas preservar aquilo que considera um dos principais ativos. “O crescimento da equipe é mais importante do que o meu desenvolvimento individual”, afirma. “Sou um estrangeiro no Brasil. Tenho mais a aprender com a minha equipe do que ela tem a aprender comigo.”
Além dessa aproximação, as visitas às propriedades rurais começaram a integrar sua agenda após a mudança definitiva para o país e incluem produtores de bovinos, aves, suínos, equinos e o segmento pet. Ao ser questionado sobre qual marca deseja deixar na companhia, Riga evita falar de participação de mercado ou metas financeiras. “Se daqui a quatro ou cinco anos os colaboradores da Elanco e nossos clientes puderem dizer que a empresa mudou suas vidas para melhor, terei atingido meu objetivo.”
A chegada do executivo ocorre em um momento importante para a companhia. Depois dos EUA, o Brasil representa hoje a segunda maior operação da companhia em receita, impulsionado pelo tamanho da pecuária e do mercado pet. A empresa atua no Brasil desde 1973, com sede em São Paulo, uma fábrica em Barueri, município colado à capital, e cerca de 400 funcionários.
Mas o cenário está longe de ser confortável. O mercado brasileiro de saúde animal movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano e concentra alguns dos maiores grupos globais do setor, como Zoetis, MSD, Boehringer Ingelheim, Ceva, Virbac, Ourofino Saúde Animal e a própria Elanco. A disputa envolve medicamentos e vacinas para animais de produção e o um mercado que mercado que cresce continuamente, o de pets. O país hoje é o terceiro maior mercado global, atrás de EUA e China, com 160,9 milhões de pets. Em 2025, o setor faturou R$ 78 bilhões, 3,5% acima de 2024, segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet).
“Vejo o mercado brasileiro como uma verdadeira terra de oportunidades”, diz Paul.
“Há um enorme potencial a ser explorado. O mercado é menos maduro do que outros mercados globais, o que abre espaço para expansão do nosso negócio. Contudo, devido à sua magnitude, ele se torna um oceano vermelho em diversos segmentos, com concorrência acirrada. É um ambiente altamente competitivo, mas entendemos que as empresas competem justamente pelo tamanho da oportunidade disponível.”
Embora reconheça a importância dos lançamentos da companhia, o executivo defende um conceito mais amplo de inovação. Para ele, inovar não significa somente desenvolver novos medicamentos. Significa também incorporar inteligência artificial, ampliar a automação, revisar processos internos, aumentar a produtividade das equipes e acelerar a chegada das soluções ao mercado. “Precisamos inovar em todos os aspectos, do RH ao financeiro, passando por suprimentos e comercial.”
Essa visão acompanha uma transformação da própria indústria de saúde animal, cada vez mais orientada por dados, digitalização e eficiência operacional. Por isso, Riga enxerga espaço para expansão em animais de produção e pets. Segundo ele, enquanto 85% dos cães e gatos recebem tratamento veterinário regular em mercados europeus, essa taxa gira em torno de 50% no Brasil. Na pecuária, o desafio passa pela adoção de tecnologias capazes de elevar produtividade, eficiência e sustentabilidade dos sistemas de produção.
A experiência construída na Europa também molda sua percepção sobre o agronegócio brasileiro. Na avaliação do executivo, poucos países ocupam posição tão relevante para a segurança alimentar global quanto o Brasil. “O Brasil é o centro da produção de proteína para alimentar o mundo.” Para isso, afirma, será cada vez mais importante avançar em rastreabilidade, segregação dos rebanhos e adaptação às novas exigências regulatórias. “Se o mundo externo muda, é preciso se reinventar para se adaptar. O Brasil tem todas as soluções nas mãos para continuar garantindo suas exportações.”
Fonte: Forbes.