
A pecuária de corte dos Estados Unidos começou 2026 em uma situação pouco comum: a maioria das operações de cria está lucrativa, a qualidade das carcaças permanece elevada e a demanda por carne bovina continua historicamente forte.
Por trás dos bons resultados, porém, há um setor pressionado por custos elevados, seca, riscos sanitários, dificuldades com mão de obra e sucessão. Ao mesmo tempo, o baixo número de animais mantém a oferta restrita e contribui para sustentar os preços.
Esse é o cenário apresentado pelo relatório State of the Beef Industry 2026, do Farm Journal, elaborado a partir de uma pesquisa com 354 produtores de bovinos dos Estados Unidos e de discussões com produtores, economistas e representantes da cadeia.
O levantamento descreve o momento atual da atividade de cria como “maravilhoso, mas caro”.
Os custos nunca estiveram tão altos na série apresentada pela CattleFax, mas as receitas também atingiram níveis elevados.
Segundo dados citados no relatório, o custo caixa médio chegou a US$ 780 por vaca, maior valor já registrado nesse conjunto de dados.
Ao mesmo tempo, a receita média obtida com os bezerros ultrapassou US$ 2.200 por cabeça. Com isso, o lucro total das operações de cria ficou próximo de US$ 1.400 por vaca.
O resultado ajuda a explicar por que, apesar dos desafios, o sentimento dos produtores em relação ao futuro permanece positivo.
Jamie Courter, especialista em genética de bovinos da extensão da Universidade do Missouri, afirmou ter se surpreendido positivamente com os resultados da pesquisa. Segundo ela, a maioria dos entrevistados continua otimista em relação ao futuro da pecuária e pretende aumentar o rebanho de vacas nos próximos cinco anos. Uma ampla maioria das propriedades também relatou ter sido lucrativa.
Um dos principais fatores por trás do cenário atual está na oferta.
O rebanho de vacas de corte dos Estados Unidos permanece próximo das mínimas históricas e apresentou uma pequena redução em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, houve apenas um aumento modesto no número de novilhas de reposição.
A safra norte-americana de bezerros de 2025, de 32,9 milhões de cabeças, foi a menor desde 1941.
Para 2026, a previsão apresentada no relatório é de uma nova redução, mantendo a disponibilidade de animais para alimentação historicamente apertada.
A expectativa dos economistas consultados é de que os preços continuem elevados até que a pecuária norte-americana entre efetivamente em uma fase de reconstrução do rebanho.
Mesmo diante das margens favoráveis, uma das recomendações apresentadas no relatório é evitar uma expansão indiscriminada.
A orientação é reconstruir o rebanho de forma lenta e intencional, retendo as melhores novilhas e estabelecendo objetivos claros de reprodução, em vez de simplesmente aumentar o número de matrizes disponíveis.
O motivo é o impacto de longo prazo dessas decisões: escolhas feitas agora podem repercutir no rebanho pelos próximos 10 a 15 anos.
O relatório também recomenda que os bons resultados atuais sejam utilizados para fortalecer financeiramente as propriedades e investir em ferramentas capazes de melhorar a rentabilidade, além de aprimorar genética e sistemas de dados.
Outro ponto destacado é o papel da tecnologia dentro das fazendas.
Registros digitais, uso básico de genômica, inseminação artificial e cercas virtuais aparecem no relatório não simplesmente como novas tecnologias, mas como ferramentas de rentabilidade, especialmente em propriedades nas quais mão de obra e disponibilidade de pastagens são limitantes.
A mão de obra, aliás, aparece como um dos desafios estratégicos da pecuária norte-americana.
O relatório recomenda buscar parcerias criativas com produtores de primeira geração, melhorar remuneração e condições oferecidas aos trabalhadores qualificados e estabelecer planos claros de sucessão.
A mensagem é que mão de obra e sucessão devem receber tanta atenção quanto genética ou comercialização.
Os riscos climáticos e sanitários também aparecem entre as preocupações para os próximos anos.
A recomendação apresentada aos produtores é elaborar planos de pastejo, definir o tamanho das vacas e estabelecer estratégias de gerenciamento de risco considerando que secas recorrentes, pressão de pragas e mudanças nas políticas podem fazer parte do ambiente de produção — e não devem ser tratadas simplesmente como acontecimentos excepcionais.
Além das propriedades de cria, outros segmentos da cadeia enfrentam dificuldades.
As margens de frigoríficos e confinamentos continuam pressionadas devido a problemas relacionados ao excesso de capacidade. Segundo o relatório, frigoríficos estão recorrendo a portfólios diversificados para amortecer a volatilidade do mercado de carne bovina, embora permaneçam dúvidas sobre por quanto tempo essa estratégia será sustentável.
O consumidor também faz parte dessa equação.
O relatório descreve uma economia em formato de “K”, na qual parte dos consumidores está reduzindo a frequência com que consome carne bovina, embora continue desejando uma boa experiência quando decide comprar um produto de maior qualidade.
Por isso, uma das recomendações para a cadeia é permanecer alinhada ao que os consumidores efetivamente valorizam.
Qualidade da experiência de consumo, cortes de tamanho adequado, consistência e produtos com valor agregado aparecem entre os pontos importantes. Segundo o relatório, o sabor continua sendo determinante, mas a sensibilidade aos preços está aumentando.
O retrato da pecuária norte-americana em 2026 é, portanto, marcado por um contraste.
De um lado estão receitas e lucros elevados na cria, demanda historicamente forte e uma oferta de animais que permanece restrita. Do outro estão custos recordes, dificuldades de mão de obra, seca, riscos sanitários e incertezas econômicas e políticas.
Mesmo após recentes correções de preços e turbulências no mercado, a avaliação apresentada no relatório é de que os fundamentos da pecuária de corte dos Estados Unidos permanecem sólidos, apoiados pela demanda dos consumidores e pela oferta restrita de bovinos.
Nesse ambiente, a mensagem aos produtores é aproveitar os anos favoráveis sem tomar decisões de expansão apenas com base no momento atual: fortalecer as finanças da propriedade, investir em tecnologias que melhorem a rentabilidade e tomar decisões de genética e reconstrução do rebanho pensando no longo prazo.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.