
Depois de sete anos consecutivos de redução, o rebanho de matrizes de corte dos Estados Unidos começa a apresentar sinais de que pode estar chegando ao fundo do ciclo pecuário.
A mudança, no entanto, ainda não significa que uma expansão consistente esteja em andamento.
Segundo Derrell Peel, especialista em mercado pecuário da Oklahoma State University, a virada de um ciclo do gado ocorre em duas etapas. Primeiro, é necessário reduzir a liquidação e estabilizar o número de animais. Depois, é preciso aumentar a retenção de novilhas para que o rebanho efetivamente volte a crescer.
Os dados mais recentes indicam que os Estados Unidos podem estar justamente nessa primeira fase.
O relatório de meio de ano do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) ainda mostrou redução de 0,7% no número de matrizes de corte em relação ao ano anterior. Por outro lado, a forte queda no abate de vacas indica uma mudança no movimento de liquidação observado nos últimos anos.
Desde 2022, os pecuaristas americanos reduziram significativamente o descarte e passaram a manter as vacas adultas por mais tempo no rebanho.
Entre 2022 e 2025, o abate de matrizes de corte caiu 40,5%. Até meados de setembro de 2026, houve uma nova redução de 13,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Com isso, a taxa de descarte projetada para 2026 é de apenas 7,3%, o menor nível já registrado. O número representa uma forte mudança em relação a 2022, quando a taxa chegou ao recorde de 13,2% em meio ao processo de liquidação do rebanho.
Para comparação, a média histórica de descarte de matrizes nos Estados Unidos é de aproximadamente 10%.
A forte retenção de vacas, porém, tem um limite.
Segundo Peel, a redução do descarte desde 2023 fez com que aumentasse a participação de matrizes mais velhas no rebanho. Em algum momento, parte desses animais precisará ser descartada, mesmo que ainda não exista uma retenção significativa de novilhas para substituí-los.
Os dados históricos reforçam essa possibilidade. Desde 1986, a taxa de descarte de matrizes ficou abaixo de 8% apenas duas vezes, em 2005 e 2015, e nunca permaneceu abaixo desse nível por mais de um ano.
Por isso, a expectativa apresentada por Peel é que o abate de matrizes permaneça estável ou volte a aumentar em 2027, à medida que as vacas mais velhas deixem o sistema produtivo.
Se o descarte voltar a crescer em 2027, a expansão do rebanho americano dependerá diretamente da entrada de novilhas de reposição.
O levantamento de janeiro do USDA havia mostrado um aumento modesto de 42 mil novilhas de reposição.
Peel chama atenção, porém, para outro movimento que ocorre ao longo do ano.
Desde 2001, o USDA separa os dados de reposição entre as novilhas que devem parir no ano corrente e as bezerras que deverão ser cobertas para parir no ano seguinte.
Historicamente, o número de bezerras classificadas inicialmente para reposição em janeiro é menor do que o número de novilhas prenhes registrado 12 meses depois.
Isso significa que, ao longo do ano, parte das fêmeas que inicialmente teria outro destino acaba sendo direcionada para reprodução. Peel chama esse movimento de “impulse heifer breeding” — em termos práticos, uma decisão tomada ao longo do ciclo de direcionar mais novilhas para reprodução em vez de destiná-las à terminação.
Para que o rebanho de matrizes de corte dos Estados Unidos apresente mesmo um crescimento modesto em 2027, considerando uma taxa de descarte superior a 8%, o número de novilhas prenhes entrando no rebanho precisaria aumentar aproximadamente 6% a 7%.
O problema é que o levantamento de janeiro mostrou que a quantidade de bezerras disponíveis para reposição permaneceu praticamente inalterada em relação ao ano anterior. Dessa forma, uma eventual expansão dependerá principalmente de mais novilhas sendo direcionadas à reprodução ao longo desta temporada.
Já existem alguns sinais de que esse movimento pode estar começando.
Até meados de setembro, o abate de novilhas acumulava queda de 11,3% em 2026. Além disso, o relatório de meio de ano apontou aumento de 100 mil cabeças no número de animais destinados à reposição.
Apesar dos primeiros sinais de mudança, Peel não espera uma recuperação rápida.
Na avaliação do especialista, o aumento de novilhas direcionadas à reprodução ao longo do ano provavelmente será maior e ocorrerá mais rapidamente do que indicam inicialmente os números formais de retenção.
Mesmo assim, ele considera improvável que o rebanho de matrizes de corte dos Estados Unidos apresente mais do que um pequeno crescimento na entrada de 2027.
O relatório de estoques de janeiro deverá mostrar com mais clareza o tamanho da mudança ocorrida ao longo de 2026. Segundo Peel, a reconstrução do rebanho poderá ganhar mais força depois de 2027.
Assim, os Estados Unidos podem estar próximos do fim de um longo período de liquidação, mas ainda existe uma diferença importante entre parar de reduzir o rebanho e começar efetivamente a reconstruí-lo. Os dados de retenção de novilhas serão fundamentais para mostrar quando essa segunda etapa do ciclo realmente começará.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.