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13 de outubro de 2026

Carne bovina mais sustentável chega ao consumidor com preço próximo à ligada ao desmatamento

A produção de carne bovina em áreas desmatadas não barateia o produto para o consumidor. É o que mostra um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health, realizado com participação da USP em parceria com quatro instituições internacionais. Os resultados indicam que carnes com diferentes níveis de desmatamento associado chegam ao consumidor com preços semelhantes, enquanto fatores como tipo de corte, nível de inspeção sanitária e distância entre o frigorífico e o varejista têm maior influência sobre o preço.

A equipe analisou quase três mil produtos de carne bovina vendidos em supermercados de São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco, do Mato Grosso do Sul e do Acre, relacionando seus preços ao nível de desmatamento associado. Para isso, rastreou os cortes até os frigoríficos de origem e estimou a pegada de desmatamento por meio de dados de movimentação de gado e sensoriamento remoto. Em seguida, comparou os preços encontrados nas etiquetas, considerando as características dos produtos, frigoríficos e supermercados, como tipo de carne, inspeção sanitária e distância entre os estabelecimentos.

“Nossa análise incluiu dados de 2980 produtos de carne bovina, sendo 1844 (62%) inspecionados pelo sistema federal, 1214 (41%) processados por frigoríficos com compromissos de monitoramento da cadeia de suprimentos e 1579 (53%) provenientes da Amazônia Legal . A amostra incluiu 706 (24%) produtos da maior empresa de processamento de carne, todos sob o sistema de inspeção federal e cobertos por um compromisso de monitoramento da cadeia de suprimentos”, detalharam os pesquisadores no artigo.

“Nosso estudo mostra que combater o desmatamento não acontecerá às custas dos consumidores”, diz Jacqueline Tereza da Silva, pesquisadora na Universidade Católica da Lovaina (Bélgica) e autora do estudo. “Vimos que, atualmente, a carne associada ao desmatamento é vendida lado a lado na prateleira e com um preço semelhante ao da carne com baixo desmatamento”, acrescenta. Ela explica que os dados contestam argumentos contrários à redução do desmatamento na cadeia de produção bovina, tradicionalmente baseados na ideia de que práticas de produção com menor impacto ambiental podem encarecer os produtos.

“O consumidor que compra carne bovina com origem conhecida e sem ligação ao desmatamento não paga mais caro e ainda incentiva uma produção mais sustentável”, afirma.

A produção de carne sem desmatamento pode exigir investimentos em máquinas, fertilizantes, manejo de pastagens e sistemas de monitoramento mais precisos. Ainda assim, o estudo mostra que o equilíbrio nos preços que chegam aos consumidores acontece ao longo do caminho entre os pastos e supermercados. “O mais provável é que atores intermediários da cadeia de suprimentos, como frigoríficos, atacadistas e varejistas, capturem a maior parte do valor agregado; esses atores intermediários fazem o elo entre os produtores rurais e os mercados”, comenta Jacqueline Silva.

A equipe estima que eliminar o desmatamento da cadeia de produção teria impacto limitado sobre os preços da carne bovina: o aumento seria de cerca de 3,5%, abaixo da inflação de 6,5% registrada para o produto nos últimos ano. O impacto maior sobre os preços finais parece estar relacionado a fatores como inspeção sanitária, tipo de corte e distância entre frigorífico e varejista. Ao mesmo tempo, a redução do desmatamento poderia trazer benefícios ambientais, como o auxílio na preservação da biodiversidade, a diminuição das emissões de gases de efeito estufa e da poluição por fumaça, além da redução de eventos climáticos extremos. “As preocupações com o poder de compra e a segurança alimentar, portanto, não justificam a inércia no combate ao desmatamento”, diz a autora.

Os pesquisadores pretendem contribuir para ampliar a transparência sobre a origem, o desempenho socioambiental e os preços da carne bovina, com o intuito de estimular a escolha de produtos com menor impacto ambiental. “Nossa próxima pesquisa investigará qual é a melhor maneira de informar os consumidores sobre o risco de desmatamento da carne e como essa informação pode influenciar a decisão de compra”, afirma a pesquisadora.

Ela cita que a iniciativa “do Pasto ao Prato” já faz parte desse caminho, auxiliando consumidores a identificarem a origem da carne disponível nos supermercados através do escaneamento do código de barras ou da inserção do número de inspeção sanitária. A autora finaliza destacando a relevância do país na produção de gado. “O Brasil possui um enorme potencial inexplorado para a produção sustentável de carne bovina; temos capacidade de triplicar a produção sem desmatar”.

Na América do Sul, onde a expansão da pecuária causa 70% do desmatamento, e no Brasil representa57% das emissões totais de gases do efeito estufa. “A falta de transparência e diferenciação entre a carne bovina produzida por pecuaristas que praticam desmatamento ilegal e a produzida por aqueles que adotam práticas sustentáveis impede que os incentivos de mercado recompensem a produção sustentável, o que pode dificultar a transição para um setor pecuário livre de desmatamento. O desmatamento ainda é lucrativo”, ponderam os autores do artigo.

Fonte: Jornal da USP.

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