
A tarifa de 55% imposta pela China sobre a carne bovina australiana está provocando consequências que vão além da queda nas exportações. Frigoríficos da Austrália começaram a suspender dias de abate porque não têm mais espaço para armazenar a carne produzida, enquanto exportadores recorrem a estratégias logísticas incomuns para evitar o pagamento da tarifa chinesa.
Segundo reportagem publicada pelo portal australiano Beef Central, em 13 de outubro, pelo menos dois frigoríficos exportadores, possivelmente três, deixaram de operar em determinados dias recentemente devido à falta de capacidade de armazenamento refrigerado, tanto para produtos destinados à China quanto a outros mercados.
Os estabelecimentos mais afetados são aqueles especializados em carne Wagyu de alta qualidade ou que prestam serviços de abate para empresas que trabalham com essa raça. A China é um dos principais compradores desse tipo de carne, cuja maior parte é exportada congelada.
O problema começou a se intensificar depois que a Austrália ultrapassou sua cota anual de aproximadamente 205 mil toneladas de carne bovina para o mercado chinês. Desde junho de 2026, os embarques acima desse limite estão sujeitos à tarifa adicional de 55%.
Com a expectativa de que uma nova cota entre em vigor em 2027, exportadores e compradores chineses estão tentando armazenar a carne até que possam importá-la sem a cobrança adicional.
A situação é particularmente grave porque a maioria dos frigoríficos australianos possui capacidade limitada de armazenamento refrigerado dentro das próprias unidades.
O modelo de operação normalmente prevê que a carne embalada seja transferida para armazéns externos poucos dias após o processamento. Com a dificuldade de exportar para a China, porém, esses espaços passaram a acumular volumes cada vez maiores.
Uma fonte do comércio de exportação afirmou ao Beef Central que grandes armazéns refrigerados de Brisbane, como os operados pela Americold, estão completamente ocupados por produtos congelados, incluindo grandes quantidades de Wagyu.
Segundo essa fonte, os frigoríficos têm basicamente duas alternativas: direcionar a carne para mercados diferentes da China, muitas vezes aceitando preços menos favoráveis, ou interromper os abates até que haja espaço disponível nas câmaras frigoríficas.
O portal australiano recebeu informações de que uma unidade estaria entre 2 mil e 2,5 mil cabeças atrasada em relação ao cronograma de abates previsto. A reportagem, entretanto, ressalta que não conseguiu confirmar esse número.
Para os fornecedores que utilizam serviços terceirizados de abate, os atrasos significam manter os animais por mais tempo nos confinamentos, aumentando os custos de produção.
Segundo as fontes ouvidas, a falta de espaço em instalações habilitadas para armazenar carne destinada à China vem ocorrendo de maneira intermitente há pelo menos um mês.
A reportagem observa que essa pode ser a primeira vez desde as enchentes de 2011 e 2022, que interromperam as operações comerciais no Porto de Brisbane, que frigoríficos australianos são obrigados a suspender a produção devido ao acúmulo de carne nos armazéns.
Embora as vendas de carne bovina australiana para a China não tenham sido completamente interrompidas desde a aplicação da tarifa, os volumes caíram significativamente.
Em setembro de 2026, a Austrália exportou menos de 7,8 mil toneladas de carne bovina para o mercado chinês, aproximadamente um terço do volume registrado no mesmo mês de 2025.
A redução dos embarques, combinada à continuidade dos abates e à demanda interna enfraquecida por carne bovina, aumentou a pressão sobre a infraestrutura de armazenamento refrigerado.
Segundo fontes do setor, os armazéns próximos aos principais portos exportadores australianos, especialmente Brisbane e Melbourne, já enfrentavam limitações de capacidade havia anos. As restrições comerciais impostas pela China agravaram essa situação.
Parte da carne está sendo mantida em armazéns australianos habilitados para exportação à China e, posteriormente, transferida para depósitos alfandegados no próprio país asiático, onde permanece aguardando a abertura da nova cota.
Uma das estratégias mais incomuns adotadas pelos exportadores australianos é prolongar deliberadamente o tempo de transporte marítimo para que a carne chegue à China somente depois do encerramento da cobrança adicional referente à cota de 2026.
Segundo fontes do setor logístico consultadas pelo Beef Central, navios porta-contêineres foram carregados recentemente em Brisbane com destino ao Panamá, atravessando o Oceano Pacífico.
Depois de chegar à região do Panamá, os navios deverão retornar em direção à China para entregar a carne congelada.
O objetivo é estender o trânsito marítimo para aproximadamente 60 dias, permitindo que os produtos desembarquem após o fim do período tarifário de 2026, com a entrada em vigor da nova cota.
Outra operação envolve um navio carregado com carne bovina australiana em Melbourne, programado para seguir até o porto de Roterdã, na Holanda, antes de retornar em direção à China.
Na prática, essas embarcações passam a funcionar como verdadeiros armazéns frigoríficos flutuantes.
A estratégia permite retirar parte da carne dos depósitos australianos, mas também gera novos problemas logísticos.
Com os navios permanecendo mais tempo em viagem e produtos congelados sendo armazenados em contêineres refrigerados nos portos ou em outras instalações, os contêineres vazios disponíveis para novas operações estão se tornando escassos.
Todo esse processo envolve custos adicionais, desde o frete prolongado até a manutenção dos produtos congelados durante o período de espera.
Fontes consultadas pela reportagem avaliam, contudo, que a fase mais crítica da falta de espaço pode estar começando a passar, à medida que mais mercadorias são embarcadas para chegar à China no início de 2027.
Os impactos sobre a carne Wagyu são especialmente complexos devido ao longo período de alimentação dos animais em confinamento.
Segundo o Beef Central, programas típicos de produção de Wagyu na Austrália podem manter os bovinos confinados durante 380 a 400 dias.
Quando a China anunciou, no início de janeiro, a tarifa adicional de 55% para os embarques australianos que ultrapassassem a cota anual, muitos desses animais já estavam em confinamento, seguindo programas de alimentação definidos meses antes.
Agora, parte desse gado está chegando ao momento de abate justamente quando o principal mercado comprador enfrenta fortes restrições tarifárias.
Para empresas especializadas em Wagyu, a situação limita as possibilidades de ajustar rapidamente a produção à demanda.
Um frigorífico de Nova Gales do Sul que presta serviços de processamento para clientes do segmento afirmou ter conseguido reduzir parte da pressão porque seus compradores buscaram mercados alternativos ainda no início do ano.
Entretanto, outras empresas continuam enfrentando dificuldades para encontrar destinos capazes de absorver os volumes anteriormente direcionados à China.
O conflito no Oriente Médio também reduziu algumas oportunidades comerciais para a carne Wagyu australiana, restringindo ainda mais as alternativas de exportação, além da China e dos Estados Unidos.
A abertura de uma nova cota chinesa em 2027 deverá aliviar parte da pressão sobre os estoques, mas o setor australiano já demonstra preocupação com a possibilidade de que o limite seja novamente atingido em poucos meses.
Segundo um grande frigorífico especializado em Wagyu ouvido pelo Beef Central, alguns participantes do mercado acreditam que a cota australiana de 2027 poderá ser totalmente preenchida até a Páscoa.
Caso isso aconteça, a indústria poderá enfrentar novamente a tarifa de 55% durante grande parte do ano.
Essa perspectiva já começa a influenciar decisões sobre a colocação de animais em confinamento.
O frigorífico consultado afirmou que, se a cota for rapidamente esgotada, poderá haver uma redução no número de bovinos Wagyu colocados em confinamento para abate entre maio e novembro de 2027.
A preocupação é evitar que animais com longos ciclos de engorda cheguem ao momento de comercialização justamente quando o acesso ao mercado chinês estiver novamente limitado.
“A volatilidade não vai desaparecer para a carne Wagyu destinada à China. Na verdade, o próximo ano pode ser ainda pior”, afirmou o representante da indústria.
Outro ponto de tensão envolve os custos de manter a carne congelada durante semanas ou meses, seja em armazéns refrigerados, seja em contêineres transportados por navios.
Segundo um comerciante de exportação ouvido pelo Beef Central, a divisão dessas despesas é negociada diretamente entre vendedores e compradores.
Para os fornecedores de Wagyu, cujo produto possui elevado valor comercial, o financiamento desses estoques pode representar uma dificuldade significativa.
O comerciante afirmou que vendedores deveriam procurar receber um sinal de 50% ou até o pagamento integral antecipado, já que cadeias de fornecimento menores nem sempre possuem capital suficiente para manter a mercadoria armazenada por períodos prolongados.
A situação evidencia que, além da tarifa em si, as restrições comerciais geram despesas financeiras e logísticas que afetam diferentes participantes da cadeia produtiva.
A Austrália também está ampliando sua infraestrutura de armazenamento refrigerado.
Segundo a reportagem, há diversas instalações em construção na região de Brisbane, próxima ao porto, o que poderá ajudar a reduzir problemas de capacidade nos próximos anos.
Entretanto, as novas estruturas ainda não parecem estar prontas para oferecer alívio significativo durante 2026.
Enquanto isso, frigoríficos e exportadores precisam administrar estoques elevados, custos adicionais de armazenamento, dificuldades de transporte e a incerteza sobre a duração das restrições comerciais.
A expectativa de abertura da nova cota chinesa no início de 2027 oferece uma possibilidade de recuperação dos embarques, mas não elimina o risco de que a situação volte a se repetir.
O caso australiano mostra como uma restrição tarifária pode afetar toda a cadeia da carne bovina, desde as decisões de confinamento e o planejamento dos abates até a capacidade de armazenamento, o transporte marítimo e o financiamento das exportações.
Fonte: Beef Central, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.