

A Coreia do Sul se tornou um dos mercados de interesse para a carne bovina brasileira. Em 2025, o país asiático importou 468,1 mil toneladas do produto, sendo aproximadamente 47% provenientes dos Estados Unidos. Apesar do potencial de consumo, a carne bovina brasileira ainda não tem acesso oficial ao mercado sul-coreano.
Segundo análise de Camila Trigueiro, pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Radar Verde, publicada no portal Food Connection, a Coreia do Sul reúne características atrativas para os exportadores: consumo elevado, forte dependência de importações e disposição dos consumidores a pagar por qualidade.
O consumo de carne bovina por habitante no país é 2,5 vezes maior que o do Japão e quase quatro vezes superior ao da China, atualmente o principal destino da carne brasileira.
A Coreia do Sul depende das importações para atender boa parte de sua demanda. Em 2022, a carne importada representava 64% do consumo nacional.
Naquele ano, os Estados Unidos respondiam por 58% das importações, seguidos pela Austrália, com 33%. Nova Zelândia e Canadá participavam com 4% cada.
A presença americana foi fortalecida pelo acordo de livre comércio entre os dois países, que entrou em vigor em 2012. Além das condições comerciais, a confiança dos consumidores ajudou a consolidar essa posição.
Uma pesquisa realizada pela Gallup mostrou que a confiança dos sul-coreanos na carne bovina americana passou de 38% para 68% em dez anos, até 2022.
Em 2025, o Brasil registrou o envio de 967 toneladas de carne bovina à Coreia do Sul, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
Essas operações ocorreram na modalidade de exportação por conta e risco, em que a empresa exportadora assume os riscos da operação caso a entrada da mercadoria não seja autorizada pelas autoridades do país importador. Portanto, os embarques não significam que o mercado sul-coreano esteja oficialmente aberto à carne brasileira.
Uma visita técnica sul-coreana prevista para maio de 2026 foi cancelada. Em agosto, porém, uma missão técnica do país veio ao Brasil para avaliar o sistema sanitário e os procedimentos de inspeção da carne bovina in natura.
Apesar do avanço nas tratativas, a análise publicada pelo Food Connection não aponta expectativa de abertura do mercado no curto prazo.
Além das exigências sanitárias, conquistar o consumidor sul-coreano representa outro desafio para a carne brasileira.
Pesquisas citadas no estudo mostram que os consumidores valorizam a carne produzida no próprio país, especialmente por atributos como qualidade, sabor e segurança. Entretanto, o preço também influencia as decisões de compra, favorecendo a procura por produtos importados quando a carne doméstica fica mais cara.
A rastreabilidade é outro fator relevante. Um estudo publicado em 2024 identificou que os consumidores sul-coreanos atribuem valor significativo à possibilidade de conhecer a origem e a trajetória da carne adquirida.
Para Camila Trigueiro, sistemas de rastreabilidade capazes de comprovar a procedência da carne brasileira podem ajudar a construir confiança entre importadores, varejistas e consumidores.
A busca pelo mercado sul-coreano também está relacionada à concentração das exportações brasileiras.
Em 2025, a China respondeu por 47,3% do volume de carne bovina exportado pelo Brasil e por 49,4% do faturamento, segundo a Abiec. Os Estados Unidos apareceram em segundo lugar, com 8,8% do volume, seguidos pela União Europeia, com 5,1%.
Nesse cenário, a abertura de novos mercados pode ampliar as alternativas comerciais da indústria brasileira e reduzir sua dependência de poucos compradores.
A Coreia do Sul representa uma oportunidade importante, mas o acesso dependerá da conclusão das negociações sanitárias e da capacidade de competir com fornecedores já consolidados, especialmente Estados Unidos e Austrália.
Fonte: Food Connection.