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21 de outubro de 2026

Argentina reduz dependência da China e amplia exportações de carne bovina para EUA e Israel

A Argentina está passando por uma mudança importante no destino de suas exportações de carne bovina. Embora a China continue sendo a principal compradora, sua participação no comércio exterior argentino vem diminuindo, enquanto Estados Unidos e Israel ganham espaço entre os principais mercados.

Segundo levantamento divulgado pela Associação de Produtores Exportadores Argentinos (APEA), com base em informações do setor, a China, que chegou a concentrar aproximadamente dois terços do volume exportado, passou a responder por cerca de 50% dos embarques em julho de 2026.

A mudança também aparece nas receitas. Na comparação entre julho de 2025 e julho de 2026, a participação chinesa no valor exportado caiu de 49,7% para 35,3%. No mesmo período, os Estados Unidos ampliaram sua participação de 6,9% para 20,8%, enquanto Israel avançou de 13,6% para 20,1%.

O movimento indica uma diversificação dos destinos da carne argentina, com crescimento das vendas para países que, em média, pagam valores superiores aos praticados pelo mercado chinês.

Estados Unidos ganham espaço entre os principais compradores

Um dos fatores que impulsionaram essa mudança foi a ampliação do acesso da carne argentina ao mercado americano.

Segundo a APEA, um acordo comercial elevou de 20 mil para 100 mil toneladas o volume de carne que poderia ser exportado aos Estados Unidos em condições tarifárias preferenciais. A oportunidade foi rapidamente aproveitada pelos frigoríficos argentinos.

Dados da Câmara da Indústria e Comércio de Carnes da Argentina (CICCRA) mostram que, apenas no primeiro semestre de 2026, os Estados Unidos importaram 54,15 mil toneladas de carne bovina argentina, volume quase três vezes superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.

Com isso, o país passou a responder por 19,3% do volume exportado pela Argentina, tornando-se seu segundo maior comprador naquele semestre, atrás apenas da China.

As vendas para os Estados Unidos movimentaram aproximadamente US$ 448 milhões nos primeiros seis meses do ano, cerca de 2,5 vezes o valor registrado no mesmo período de 2025.

Grande parte da carne enviada ao mercado americano é destinada ao processamento industrial, especialmente à fabricação de hambúrgueres, embora também existam embarques de cortes de maior qualidade.

Em julho, o preço médio da carne argentina exportada aos Estados Unidos foi de US$ 8.181 por tonelada, acima dos US$ 5.641 por tonelada registrados nas vendas para a China.

Israel também amplia compras e paga preços superiores

Outro mercado que ganhou importância foi Israel, especialmente pela demanda por carne bovina kosher, produzida de acordo com as exigências alimentares judaicas.

Os embarques são compostos principalmente por cortes do quarto dianteiro, cuja procura tem aumentado em um cenário de preços internacionais elevados.

No primeiro semestre de 2026, Israel importou 27,92 mil toneladas de carne bovina argentina, crescimento de 24,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O preço médio dessas vendas aumentou 43,2%, chegando a US$ 10.859 por tonelada no acumulado do semestre. Com isso, a receita das exportações para Israel alcançou US$ 303,21 milhões, alta de 78,9%.

Em julho, o preço médio chegou a US$ 12.065 por tonelada, mais que o dobro do valor registrado nas vendas para a China.

Esses números ajudam a explicar a crescente importância de Israel para os frigoríficos argentinos, especialmente pela possibilidade de comercializar cortes com maior valorização no mercado internacional.

Mercado europeu continua pagando os maiores preços

Apesar do crescimento dos Estados Unidos e de Israel, a Europa continua sendo um dos destinos mais valorizados para determinados cortes de carne bovina argentina.

Países europeus compram principalmente cortes premium, como filé-mignon, contrafilé e cortes do traseiro, incluindo produtos comercializados dentro da Cota Hilton, que estabelece condições preferenciais de acesso ao mercado europeu.

Segundo os dados divulgados pela APEA, esses produtos podem alcançar valores entre US$ 15 mil e US$ 17 mil por tonelada.

Em julho de 2026, os preços médios registrados em alguns destinos europeus foram:

  • Alemanha: US$ 15.300 por tonelada;
  • Países Baixos: US$ 15.558 por tonelada;
  • Itália: US$ 16.118 por tonelada;
  • Espanha: US$ 16.787 por tonelada.

A diferença entre os preços pagos pelos compradores internacionais reflete, entre outros fatores, os tipos de cortes comercializados, as exigências de cada mercado e o posicionamento dos produtos.

Por isso, a diversificação dos destinos permite que a indústria argentina busque maior valorização das diferentes partes da carcaça, combinando mercados voltados ao processamento industrial com compradores interessados em cortes de maior valor agregado.

Exportações crescem mesmo com menor produção

A mudança no perfil das exportações ocorre em um momento de redução da oferta de bovinos para abate na Argentina.

De acordo com a CICCRA, a indústria frigorífica argentina exportou 280,1 mil toneladas de carne bovina no primeiro semestre de 2026, crescimento de 11,1% em relação ao mesmo período de 2025.

O preço médio da tonelada exportada também aumentou, passando para US$ 7.738, uma valorização de 31,4%.

Como resultado, a receita das exportações atingiu o recorde de US$ 2,17 bilhões no semestre, crescimento de 45,9% em relação ao ano anterior.

Entretanto, enquanto as vendas externas avançaram, a produção argentina de carne bovina recuou.

Entre janeiro e julho, foram produzidas aproximadamente 1,69 milhão de toneladas em equivalente carcaça, redução de 6,8% em relação ao mesmo período de 2025.

A menor disponibilidade de animais está relacionada, entre outros fatores, à redução dos nascimentos nos últimos anos, aos efeitos de condições climáticas adversas e aos movimentos do ciclo pecuário.

A CICCRA também identificou sinais de transição para uma fase de maior retenção de fêmeas, o que pode contribuir para a recomposição do rebanho, mas tende a limitar a oferta de animais para abate no curto prazo.

O desafio será ampliar a produção

A diversificação dos mercados representa uma oportunidade para a pecuária argentina aumentar suas receitas e reduzir a concentração das exportações em um único comprador.

Entretanto, a China permanece como o principal destino da carne bovina do país e continua desempenhando um papel fundamental para o escoamento de determinados cortes.

Além disso, manter o crescimento das exportações dependerá da capacidade de recuperar o rebanho bovino e ampliar a disponibilidade de animais para abate.

A experiência argentina também evidencia um aspecto importante do comércio internacional de carne bovina: o crescimento da receita não depende exclusivamente do aumento do volume exportado.

A capacidade de atender diferentes mercados, comercializar cortes de maior valor e aproveitar oportunidades comerciais pode ser tão importante quanto ampliar a produção.

Para os países exportadores de carne bovina, incluindo o Brasil, a diversificação dos destinos é uma estratégia relevante para reduzir riscos comerciais e buscar maior valorização dos produtos no mercado internacional.

Fontes:

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