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Suplementação protéica e energética de animais em pastejo, manejo e custo benefício. Parte II: Suplementação protéica

O termo proteína bruta (PB) aparece nas análises bromatológicas de forragens e o valor é calculado multiplicando-se o teor de nitrogênio total pelo fator 6,25. Na PB, estão as diferentes formas de nitrogênio que ocorrem nas forragens: duas, uma de nitrogênio não protéico (NMP) e outra de nitrogênio protéico (NP), potencialmente disponíveis para o ruminante, e uma terceira, que está ligada à fração fibrosa denominada nitrogênio insolúvel em detergente ácido (NIDA), que é considerada indisponível para o animal. O NP também recebe a denominação de proteína verdadeira (PV).

Em termos de nutrição de ruminantes, as frações de NNP e de NP são divididas em duas outras, proteína degradável no rúmen (PDR) e proteína não degradável no rúmen (PNDR). A PDR é composta de todo NNP e de parte do NP degradado no rúmen. A PNDR é composta de NP não degradado no rúmen (às vezes, os valores de PNDR contém o NIDA). A proporção do NP que é degradada no rúmen varia de alimento para alimento assim como é afetada por outros fatores como nível de ingestão, tratamentos físico e químico e por certos aditivos.

Os ruminantes apresentam exigência por aminoácidos que vão estar disponíveis em nível de tecido após a digestão da proteína metabolizável (PM) no intestino e absorção dos aminoácidos e peptídeos resultantes da digestão. A PM é resultante da soma da proteína microbiana verdadeira (nitrogênio microbiano protéico) e da PV dos alimentos não degradada no rúmen (PNDR). A PDR é a fonte de amônia, aminoácidos, peptídeos e esqueletos carbônicos para síntese de PM composta de duas frações: nitrogênio microbiano não protéico e de nitrogênio microbiano protéico. A uréia fornece somente amônia enquanto algumas formas orgânicas de NNP podem fornecer um ou mais dos seguintes compostos: esqueletos carbônicos, amônia, aminoácidos e peptídeos. A PDR originária da proteína verdadeira degradada no rúmen fornece todos os compostos citados.

As bactérias celulolíticas, que digerem fibra, apresentam exigência somente para amônia e esqueletos carbônicos que podem ser fornecidos por carboidratos e isoácidos. As bactérias amilolíticas, que digerem amido e açúcares aumentam a eficiência de síntese de proteína quando aminoácidos e peptídeos estão disponíveis no meio ruminal.

1. Suplementação com PDR

As exigências de PDR estão relacionadas aos microrganismos do rúmen e não ao animal. Quanto maior a disponibilidade de energia em nível de rúmen, maior a exigência de PDR. Existem maneiras simples e sofisticadas para estimar as exigências de PDR. A mais simples e que produz resultados satisfatórios quando usada com critério, é a que estima a exigência de PDR (% da MS) usando a equação:

%PDR = % NDT x 0,125

onde NDT = nutrientes digestíveis totais

Essa equação produz bons resultados para teores de extrato etéreo entre 2 e 3% (base seca) que ocorre normalmente em forragens e dietas com ingredientes clássicos. Para teores de extrato etéreo variando de 3,5% a 5,5%, diminuir o coeficiente 0,125 para valores entre 0,12 e 0,11.

A deficiência de PDR diminui a taxa de degradação e a extensão de degradação ruminal de MS, causando um descréscimo na ingestão voluntária de MS. A ingestão de nutrientes diminui e o potencial de valor alimentar da forragem não é explorado adequadamente.

1.1. Fontes de PDR

A fonte mais barata de PDR é a uréia, e, como visto anteriormente, fornece amônia que é um requisito essencial para os microrganismos do rúmen, principalmente para as bactérias celulotíticas. O maior problema com o uso da uréia como única fonte de PDR é a rápida liberação de amônia no rúmen logo após a ingestão. Nessas ocasiões, a eficiência de síntese de proteína microbiana em dietas com altos teores de fibra é baixa. Dentro de certos limites, o excesso de amônia é liberado no rúmen logo após a ingestão da uréia é absorvido, transformado em uréia no fígado, retornando através da saliva e de secreções via parede ruminal ao rúmen, podendo ser eficientemente utilizada pelos microrganismos. Entretanto, a síntese de uréia no fígado é um processo que consome energia, e parte dessa uréia pode ser eliminada via urina, ocorrendo então redução da disponibilidade de energia para o animal. Quanto maior o excesso, maior a proporção de uréia sintetizada no fígado que é perdida. Em condições de excesso de amônia acima da capacidade do fígado de converter amônia em uréia, ocorre a intoxicação por amônia.

Um dos anseios dos nutricionistas é o desenvolvimento de formas de NNP com liberação distribuída de amônia no rúmen durante o processo de fermentação da fração fibrosa das forragens. Para atingir esse objetivo, além da liberação lenta, a fonte deve permanecer no rúmen. Embora já existam algumas patentes registradas para esse tipo de produto, na prática ainda desconhecemos uso em escala comercial. A amiréia, equivalente brasileira da “starea”, desenvolvida nos EUA há mais de 30 anos, é pouco solúvel em água mas altamente solúvel no líquido ruminal, apresentando pouca vantagem quanto à taxa de liberação de amônia no rúmen quando comparada a formas de suplementação com uréia e amido de alta taxa de degradação ruminal.

A PDR dos suplementos protéicos de origem vegetal atende melhor a exigência de amônia dos microrganismos por apresentar liberação melhor distribuída desse composto durante o dia. As principais fontes de PDR são os farelos de soja, algodão, girassol e canola. Farelo de soja integral e quirera de soja moída não devem ser usados em mistura com uréia se não tiverem sido processados para destruição da urease. Fontes de PDR que apresentem taxas médias à baixas de degradabilidade devido a barreiras físicas ou químicas, e que são retidas no rúmen por longos períodos de tempo, são as mais indicadas. Fontes de PDR com essas características deveriam ser desenvolvidas. O caroço do algodão, apesar de ter proteína considerada de alta degradabilidade, devido à necessidade de ruminação tanto para a redução do tamanho de partículas como para disponibilizar seus nutrientes aos microrganismos, parece apresentar, pelo menos em parte, as características descritas acima. Entretanto, o teor de PB do caroço de algodão é relativamente baixo e ele não apresenta características desejáveis para a confecção de misturas. De qualquer maneira, as fontes de PDR citadas acima, em combinação com uréia, enxofre, e misturas minerais, permitem formular suplementos protéicos adequados para bovinos mantidos em pastagens tropicais principalmente durante o período seco do ano. Como sugestão, a meta seria manter, no suplemento protéico, proporção de PDR resultante no NNP inferior a 70% da PDR total do suplemento.

2. Suplementação com PNDR

Quando se usa como fontes de PDR suplementos protéicos de origem vegetal, é fornecido também PNDR. A resposta à suplementação adicional com fontes especiais de PNDR vai depender de quatro fatores: da existência de energia disponível em nível celular acima da exigência pela proteína matebolizável da dieta; do perfil de aminoácidos da PM fornecida na dieta; do perfil de aminoácidos da fonte de PNDR suplementada; e do potencial do animal em responder ao aporte adicional de aminoácidos.

2.1. Fontes de PNDR

A melhor fonte de PNDR é a farinha de peixe de boa qualidade. Além do excesso de matéria mineral, outro fator que pode comprometer a farinha de peixe é o estado de degradação do material original antes do processamento. A farinha de carne e ossos autoclavada e a farinha de sangue, quando adequadamente processadas, seriam boas fontes de PNDR, mas o uso dessas farinhas está proibido. A farinha de penas hidrolisada e a farinha de vísceras de aves são outras fontes adequadas de PNDR. Em alguns casos, é interessante combinar mais de uma fonte para que o perfil de aminoácidos essenciais seja mais bem balanceado. Outras fontes de PNDR podem ser obtidas através do processamento físico (farinha de soja integral tostada ou extrusada), e químico (farelos vegetais tratados com formaldeído).

3. Épocas do ano e categorias animais para suplementação protéica

O período da seca é quando ocorre maior necessidade de suplementação protéica. Entretanto, em algumas situações, suplementação de certas categorias de animais durante o período das águas pode ser recomendada.

3.1. Suplementação protéica durante o período da seca

Para que a suplementação protéica durante o período da seca tenha efeito, a disponibilidade de forragem não pode ser um fator limitante à ingestão voluntária de MS. A outra condição importante, razão principal da suplementação protéica, é que a forragem consumida (selecionada) pelo animal apresente deficiência de PDR. Em condições de alimentação em que se trabalha com sobra de forragem produzida durante o período das águas para ser consumida durante o período da seca, a deficiência de PDR é uma constante. Portanto, praticamente todas as categorias animais devem receber alguma fonte de suplementação com PDR para aumentar a ingestão de matéria seca e, portanto, de energia e proteína.

3.2. Suplementação protéica durante o período das águas

A suplementação protéica durante o período das águas pode dar resultados econômicos quando:

* a forragem ingerida apresenta deficiência de PDR;
* existe deficiência de proteína metabolizável após correção da defici6encia de PDR;
* deficiência de aminoácidos essenciais em nível celular.

O primeiro caso é comum em pastagens de braquiária não adubadas com nitrogênio, estabelecidas em solos de baixa fertilidade, principalmente com baixa matéria orgânica, e manejados para permitir acúmulo de forragem para o período da seca. Pastagens de gramíneas tropicais adubadas com nitrogênio e com manejo rotacionado adequado podem apresentar essa situação quando a resposta à adubação nitrogenada ainda se encontra no início da fase linear. Bezerros mamando e outras categorias em crescimento (machos e fêmeas) são as que apresentam melhor relação custo/benefício.

O segundo caso ocorre quando a proteína metabolizável (soma das frações de proteína verdadeira microbiana e proteína alimentar não degradada no rúmen) não fornece, em quantidades suficientes, aminoácidos essenciais exigidos em nível celular para o nível energético da dieta consumida. Essa situação pode ocorrer para pastagens tropicais adubadas com nitrogênio, descrito no parágrafo anterior e com animais com alto potencial de crescimento (bezerros (as) no final do período de amamentação e logo após a desmama, e machos em crescimento). Nesse caso, há necessidade de incluir no suplemento protéico fontes de proteína de baixa degradabilidade no rúmen.

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