
O agro brasileiro está vivendo uma contradição: por um lado, temos tecnologia, mercado e demanda; por outro, por onde quer que eu vá, a pergunta é sempre a mesma: “vocês também estão tendo dificuldade em encontrar mão de obra?”. O fato é que está faltando gente no campo.
Mas onde estão as pessoas? São duas situações principais. Primeiro, alguns trabalhadores resistem à carteira assinada por medo de perder benefícios sociais, o que gera um impasse: o produtor quer contratar, oferece estrutura, salário e oportunidade, mas enfrenta dificuldades para formalizar o vínculo.
No fim, todo mundo perde. O trabalhador abre mão de direitos e da estabilidade no longo prazo; o produtor sofre com a alta rotatividade, a dificuldade de manter uma equipe fixa e a consequente queda na produtividade.
Além disso, existe um apagão de mão de obra qualificada. Faltam operadores, auxiliares administrativos, técnicos e gestores. Como resultado, os salários no setor elevam-se acima da média nacional. Ou seja: não é apenas falta de pessoas, é falta de gente preparada e disponível.
A situação é parte de um quadro mais amplo de escassez de profissionais no Brasil, observada em muitos setores da economia, refletindo um mercado de trabalho com menos candidatos disponíveis. E isso não fica restrito ao ambiente “da porteira para dentro”.
Menos produtividade significa custo maior. O custo elevado no campo, inevitavelmente, pressiona o preço dos alimentos, impactando toda a cadeia, inclusive o consumidor final.
Esse cenário pressiona custos, reduz a eficiência e pode comprometer a oferta de alimentos no médio prazo. O setor do agronegócio avançou amplamente no uso de tecnologia, o que resulta na necessidade urgente de investimento na formação destes profissionais.
Atualmente, existe uma constante necessidade de supervisão e retrabalho para correção de erros. Esta gestão intensiva reduz a autonomia, a produtividade e a rentabilidade do negócio.
Segundo o Boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro, publicação trimestral elaborada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a População Ocupada (PO) no agronegócio atingiu um novo recorde no 3T2025, totalizando 28,58 milhões de trabalhadores.
Este volume representa 26,35% do total de empregos do país no período, participação superior à observada no 3T2024 (26,15%) e no 2T2025 (26,04%).
Este é o maior valor da série histórica iniciada em 2012. Por outro lado, 87% da população brasileira vive em áreas urbanas, o que diminui a disponibilidade de pessoas para o trabalho rural.
Dados do Cepea indicam o crescimento da participação de trabalhadores com ensino médio e superior no setor, enquanto diminui a presença de pessoas com menor escolaridade. Isso demonstra que o perfil profissional do campo está mudando drasticamente.
De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), é necessária uma ação ampla que resulte na melhora da infraestrutura, conectividade, organização dos processos produtivos e das jornadas de trabalho.
O agro é feito por pessoas, e a solução passa por três frentes: qualificação contínua, modernização das relações de trabalho no campo e alinhamento estratégico entre programas sociais e o estímulo ao emprego formal.
*Helen Jacintho é engenheira de alimentos e produtora rural com mais de 25 anos de atuação no agronegócio brasileiro. Integra o Grupo Continental, empresa familiar com operações em cana-de-açúcar, seringueira, soja, milho e pecuária a pasto, confinamento e semiconfinamento. Diretora de Melhoria Contínua, lidera a implementação da filosofia Lean de gestão no campo. Estudou Business for Entrepreneurs na Universidade do Colorado e marketing e carreira no agronegócio. É juíza de morfologia pela ABCZ, fundadora do Grupo Forbes Mulher Agro, conselheira do COSAG/FIESP e reconhecida entre os 100 Mais Influentes do Agronegócio em 2025.
Fonte: Forbes.