
O beef-on-dairy tornou-se uma parte significativa da oferta de carne bovina dos Estados Unidos ao longo da última década, ganhando impulso como um trem de carga que continua acelerando. De fato, cerca de 20% da carne bovina atual tem origem em uma vaca leiteira, refletindo o quanto a produção leiteira se tornou integrada à cadeia de valor mais ampla da carne.
E, segundo Matthew Cleveland, da ABS Global, e Nick Hardcastle, da Cargill América do Norte, esse impulso não dá sinais de desaceleração.
“Acho que todos estamos cientes da dimensão e magnitude que o beef-on-dairy alcançou e do papel significativo que desempenha hoje em nossa cadeia de suprimento de carne bovina”, observou Cleveland durante um painel na conferência de 2026 da National Cattlemen’s Beef Association.
Ele afirma que o crescimento do setor também mudou a forma como as indústrias de leite e carne se enxergam. Em vez de operarem como segmentos separados, as fronteiras entre elas ficaram mais difusas.
“O negócio do leite é uma grande parte do negócio da carne”, diz Cleveland. “Eu nem gosto mais de separá-los. Estamos todos no negócio da carne, e valorizamos a parceria com nossos produtores de leite.”
À medida que o beef-on-dairy se expandiu, mais atenção passou a ser dada às decisões tomadas nas fazendas leiteiras, onde as escolhas de acasalamento influenciam diretamente o desempenho desses bezerros ao longo de todo o sistema de produção de carne.
Nos primeiros anos do beef-on-dairy, as decisões de cruzamento eram motivadas principalmente pela conveniência, e não por uma intenção genética estratégica. O sêmen de raças de corte era frequentemente escolhido com base no preço e na disponibilidade, e não na adequação genética às necessidades do setor de carne.
“Antes de as pessoas realmente começarem a pensar na genética de touros de corte sobre vacas leiteiras, quase não havia consideração sobre quais eram essas genéticas”, diz Cleveland. “A maioria das decisões se resumia ao sêmen que já estava no tanque ou ao que era gratuito. O principal objetivo era simplesmente emprenhar a vaca.”
Essa abordagem começou a mudar quando o setor passou a enxergar o beef-on-dairy como uma oportunidade genética de longo prazo, e não apenas como uma ferramenta reprodutiva.
“Começamos a olhar para o beef-on-dairy de forma mais séria sob a perspectiva de melhoramento genético por volta de 2012”, afirma Cleveland. “Começamos a ver sinais de que o beef-on-dairy estava crescendo.”
Pouco tempo depois, programas de melhoramento específicos começaram a ser desenvolvidos por empresas de genética para atender tanto às necessidades dos produtores de leite quanto às da cadeia de carne. Hoje, segundo Cleveland, esses programas continuam evoluindo, com dados de desempenho comercial sendo incorporados às avaliações genéticas para impulsionar melhorias contínuas.
Nos primeiros anos do beef-on-dairy, os bezerros cruzados revelaram desafios reais para a indústria da carne. Cleveland observa que muitos desses animais eram vistos simplesmente como “Holandeses pretos”, o que reduziu o entusiasmo dos frigoríficos.
“Se você voltar para 2013-14, o objetivo era apenas produzir um bezerro preto”, observa. “Não estávamos vendo o desempenho esperado de um bezerro de corte. E, por alguns anos, acho que isso desanimou a cadeia de suprimento em relação ao beef-on-dairy.”
Com a seleção de touros se tornando mais intencional, o desempenho melhorou. Em 2017-18, segundo Cleveland, os bezerros oriundos de vacas leiteiras começaram a se assemelhar mais aos bezerros tradicionais de corte.
“Tivemos que criar animais que realmente entregassem desempenho”, diz Cleveland. “E, para nós, isso significou focar nosso melhoramento genético para garantir que selecionássemos as características certas para cada segmento.”
Algumas dessas melhorias genéticas incluíram:
Segundo Cleveland, esses esforços ajudaram os bezerros beef-on-dairy a se comportarem mais como bovinos de corte tradicionais. Ao focar nas características relevantes para fazendas leiteiras, confinamentos e frigoríficos, os animais beef-on-dairy atuais são muito mais consistentes e valiosos.
Com os bezerros beef-on-dairy apresentando desempenho cada vez mais semelhante ao de bovinos de corte tradicionais, os frigoríficos veem essa consistência como essencial para manter a qualidade e o fluxo de animais no sistema.
“O beef-on-dairy é algo muito importante para a indústria da carne neste momento, especialmente quando falamos de capacidade”, afirma Hardcastle. “Precisamos garantir que temos uma população bovina capaz de atender à demanda dos consumidores.”
Ele enfatiza que esses animais não estão reduzindo os padrões gerais da indústria.
“Eles são bons para o consumidor”, diz Hardcastle. “Os dados de maciez mostram que apresentam desempenho muito bom, gerando impacto positivo. Não são apenas animais sendo misturados para reduzir a qualidade; na verdade, ajudam a melhorá-la.”
Ele destaca que, nos últimos cinco anos, o grau de qualidade tem melhorado continuamente.
“Em 2021, esses animais atingiam 80% de classificação Choice ou superior. Hoje estão em torno de 92% Choice.”
Hardcastle afirma que o beef-on-dairy também contribui significativamente para a categoria Prime.
“Do ponto de vista de marmoreio, quase dois terços desses animais poderiam se qualificar como Choice superior (upper two-thirds Choice)”, afirma. “Os que não conseguem geralmente ficam abaixo por fatores como peso de carcaça quente, tamanho de área de olho de lombo e espessura de gordura.”
Do ponto de vista de qualidade de carcaça, segundo Hardcastle, o beef-on-dairy está entregando o que a indústria precisa: boa classificação, estabilidade na oferta e desempenho consistente.
Mesmo com melhora em classificação e marmoreio, os frigoríficos ainda enfrentam desafios relacionados a características de carcaça que afetam o retorno econômico, especialmente o excesso de gordura interna (rim, pélvica e cardíaca – KPH). Hardcastle explica que os animais beef-on-dairy frequentemente refletem sua origem Holandesa, apresentando maior deposição de gordura KPH do que bovinos de corte tradicionais.
“Do ponto de vista do frigorífico, você paga pela carcaça com a gordura de rim, pélvica e cardíaca incluída, mas essa gordura não pode ser vendida como carne”, explica. “Ela acaba no mercado de sebo por cerca de US$ 1,10 a US$ 1,32 por kg, comparado a aproximadamente US$ 7,94 por kg na grade de carne, gerando perda imediata de valor.”
Em carcaças mais pesadas, mesmo pequenas diferenças em KPH têm impacto.
“Se eu tiver uma carcaça de aproximadamente 431 kg, algo bastante comum hoje, isso pode significar cerca de 5,4 kg extras de gordura interna em vez de carne vendável,” diz. “Essa diferença pode custar de US$ 30 a US$ 40 por cabeça.”
Essas diferenças também evidenciam as limitações do sistema tradicional de classificação de rendimento (yield grade).
“O yield grade foi desenvolvido para estimar quanto de carne vermelha vendável uma carcaça produzirá”, explica Hardcastle.
Com base em área de olho de lombo, gordura de cobertura e peso de carcaça, os beef-on-dairy deveriam apresentar melhor rendimento que bovinos de corte tradicionais, mas o yield grade nem sempre reflete seu desempenho real.
“Yield grade e beef-on-dairy não estão intimamente relacionados”, afirma. “Pesquisas mostram que o yield grade não prediz de forma confiável o rendimento de cortes ou o valor em Holandeses ou beef-on-dairy.”
Para enfrentar esse desafio, a Cargill está testando uma nova tecnologia chamada SizeR, que capta medições tridimensionais da carcaça em velocidade de linha.
“Assim podemos avaliar a composição completa desses animais, não apenas a área de olho de lombo e a espessura de gordura”, diz Hardcastle. “Isso ajudará confinadores e geneticistas a direcionar melhor as características certas para melhorar rendimento e consistência.”
Todos os anos, milhões de bezerros beef-on-dairy entram no mercado, fornecendo uma fonte confiável de animais de alta qualidade que geram valor desde a fazenda leiteira até o frigorífico.
“Temos algo em torno de 3 a 3,5 milhões de bezerros beef-on-dairy no mercado hoje, o que representa uma parcela significativa da cadeia de suprimento de carne”, acrescenta Cleveland.
Essa presença está levando tanto participantes do setor leiteiro quanto do setor de carne a repensarem seu papel dentro do sistema maior.
“Em cada etapa, da fazenda leiteira ao confinamento e ao frigorífico, esses animais estão performando e agregando valor”, diz Hardcastle. “Entendemos a importância do beef-on-dairy, e sabemos que ele não vai desaparecer.”
À medida que a indústria continua refinando a forma como esses animais são avaliados e manejados, o beef-on-dairy está posicionado para permanecer como um componente confiável tanto da oferta quanto da demanda do consumidor. Com ganhos genéticos contínuos e forte demanda por carne impulsionando esse motor, o setor ganha velocidade e se consolida como parte permanente da cadeia de suprimento da carne bovina.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.