
No início de 2026, o governo dos Estados Unidos publicou a nova edição das Dietary Guidelines for Americans (DGA 2025–2030). À primeira vista, trata-se apenas de mais um documento técnico, revisado a cada cinco anos, com recomendações nutricionais para a população. Na prática, porém, o texto representa uma ruptura simbólica e cultural com quase meio século de orientação alimentar baseada em restrição de gordura, priorização de carboidratos e tolerância implícita ao avanço dos alimentos ultraprocessados.
Mais do que prescrever nutrientes, a nova diretriz redefine o que o Estado americano considera “comida de verdade”. E isso tem implicações profundas para o consumo de proteína, para o papel da carne bovina, para a indústria de alimentos e, sobretudo, para a leitura histórica da epidemia de obesidade nos Estados Unidos.
As Dietary Guidelines for Americans não são leis. Elas não obrigam indivíduos a comer desta ou daquela forma. No entanto, seu impacto é estrutural: servem de base para programas federais como merenda escolar, assistência alimentar (SNAP, WIC), compras institucionais, comunicação oficial de saúde e, indiretamente, para a formulação de produtos pela indústria de alimentos.
Desde sua primeira edição, em 1980, as diretrizes moldam o “padrão alimentar desejável” nos EUA. E padrões culturais, quando reiterados por décadas, moldam comportamentos, mercados e sistemas produtivos.
A mudança mais explícita da DGA 2025–2030 é a elevação da proteína ao centro da estrutura alimentar. O documento passa a recomendar ingestões na faixa de 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo de peso corporal por dia, valor significativamente superior ao antigo referencial de 0,8 g/kg, que por décadas foi tratado — equivocadamente — como ideal, quando na verdade era um mínimo para evitar deficiência.
Essa mudança tem três implicações diretas:
Não se trata de “dieta hiperproteica” no sentido extremo, mas de um reposicionamento claro: proteína deixa de ser coadjuvante.
Outra inflexão relevante é o tratamento dado aos alimentos ultraprocessados. Em edições anteriores, a crítica existia, mas diluída em linguagem técnica. Na nova diretriz, o recado é direto: dietas baseadas em produtos altamente processados estão associadas a pior qualidade nutricional, maior ingestão calórica e piores desfechos metabólicos.
Essa mudança dialoga diretamente com evidências experimentais. O estudo controlado conduzido por Kevin Hall, no NIH, mostrou que indivíduos consumindo dietas ultraprocessadas ingeriram, espontaneamente, cerca de 500 kcal a mais por dia do que quando consumiam dietas baseadas em alimentos minimamente processados — mesmo com refeições pareadas em macronutrientes. O resultado foi ganho de peso em curto prazo.
Ou seja: o problema não é apenas “caloria”, mas estrutura alimentar, textura, densidade energética e palatabilidade industrial.
Pela primeira vez, o guia afirma de forma inequívoca que não existe quantidade recomendada de açúcar adicionado dentro de uma dieta saudável. Embora limites percentuais já existissem, a nova formulação muda o enquadramento moral e educativo do nutriente.
Esse ponto é crucial porque toca diretamente em um dos pilares do padrão alimentar das últimas décadas: bebidas açucaradas, snacks, cereais matinais e produtos “low fat” compensados com açúcar.
A DGA 2025–2030 também sinaliza uma flexibilização relevante em relação às gorduras naturais e aos laticínios integrais. Embora o teto de gordura saturada permaneça formalmente em torno de 10% das calorias, o discurso muda: alimentos integrais, menos manipulados, passam a ser preferidos em relação a versões artificialmente reduzidas em gordura.
Esse ponto marca uma inflexão histórica. Desde os anos 1970, a política nutricional americana foi dominada pelo paradigma low fat, impulsionado por hipóteses ainda em debate sobre gordura saturada e doença cardiovascular. O efeito colateral foi a explosão de produtos “sem gordura”, mas ricos em açúcar e amido refinado.
A famosa pirâmide alimentar de 1992, com 6 a 11 porções diárias de pães, cereais, arroz e massas, tornou-se um ícone cultural. Ela não causou a obesidade sozinha — seria intelectualmente desonesto afirmar isso. Mas ajudou a criar um ambiente alimentar no qual carboidratos refinados eram normalizados como base da dieta, enquanto alimentos mais saciantes eram demonizados.
Os dados históricos são claros:
Esse fenômeno é multifatorial — envolve sedentarismo, urbanização, marketing, porções maiores —, mas o papel dos ultraprocessados e do excesso de carboidratos refinados é hoje amplamente reconhecido.
A nova diretriz não admite explicitamente erros do passado, mas seu reposicionamento implícito funciona como uma correção de rota.
A pergunta central não é se a nova diretriz fará os americanos “comerem mais carne”. O efeito mais provável é outro: mudança na composição do consumo proteico.
A orientação pró-proteína e anti-ultraprocessado tende a favorecer:
Nos dados do USDA, o consumo per capita de frango já superou o de carne bovina nas últimas décadas. A nova diretriz não reverte automaticamente essa tendência, mas cria espaço para um reposicionamento qualitativo da carne bovina: menos como vilã metabólica, mais como fonte densa de nutrientes e saciedade, quando inserida em um padrão alimentar coerente.
Um ponto sensível é que o texto final das diretrizes não segue integralmente o relatório científico do Dietary Guidelines Advisory Committee (DGAC), que mantinha recomendações mais conservadoras sobre gorduras saturadas, laticínios integrais e carne vermelha.
Essa divergência revela algo fundamental: diretrizes alimentares não são apenas ciência; são política pública. Elas equilibram evidência científica, viabilidade econômica, custo do sistema de saúde e aceitabilidade social.
A DGA 2025–2030 não é uma defesa irrestrita de dietas carnívoras, nem um ataque formal ao vegetarianismo. Seu recado central é mais profundo e mais simples: pare de basear sua alimentação em produtos industriais ultraprocessados e reconstrua as refeições em torno de alimentos reais.
Se essa mensagem se consolidar culturalmente, o impacto não será apenas nutricional, mas estrutural — do campo à indústria, da política de saúde ao comportamento do consumidor.
A pirâmide pode até ser apenas um desenho. Mas, desta vez, ela aponta para uma mudança real de direção.