

Em meio à crise da carne nos Estados Unidos, a Tyson Foods, gigante do setor de alimentos e processamento de proteínas, anunciou que manterá temporariamente em operação o frigorífico de Lexington, no Nebraska, enquanto inicia o processo de demissão dos cerca de 3.200 funcionários da unidade.
Segundo comunicado da empresa, cerca de 292 colaboradores — aproximadamente 9% da força de trabalho da planta — continuarão empregados por um período que pode variar entre 3 e 185 dias, para auxiliar nas etapas finais do encerramento das atividades. No entanto, menos da metade desses trabalhadores deve permanecer após o fim de janeiro.
O fechamento da unidade havia sido anunciado em novembro, motivado pela redução na oferta de gado nos EUA, que elevou os custos operacionais e pressionou a rentabilidade dos frigoríficos.
Segundo a Reuters, autoridades locais esperam que a Tyson venda a fábrica ou encontre outra destinação para o espaço, a fim de minimizar os impactos econômicos em Lexington, cidade com cerca de 10 mil habitantes. A planta de carne bovina da Tyson na cidade opera desde 1990.
A medida faz parte da estratégia da companhia para reestruturar sua rede de processamento diante dos desafios da carne bovina nos EUA.
A crise no setor bovino deve se agravar em 2026, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A previsão é de que as exportações de carne americana recuem 5,6% neste ano em relação a 2025, para 2,4 milhões de toneladas em equivalente carcaça (TEC), no segundo ano consecutivo de queda. A estimativa reflete uma combinação de restrição produtiva doméstica, mudanças no comércio internacional e maior concorrência global.
A produção de carne bovina nos EUA deve cair 1% em 2026, para 11,7 milhões de toneladas. Em 2025, já havia recuado 4% em relação ao ano anterior, fazendo o país perder para o Brasil o posto de maior produtor mundial de carne bovina.
A crise vivenciada pelos pecuaristas nos EUA tem se intensificado nos últimos cinco anos. A indústria da carne americana enfrenta uma fase de contração do ciclo pecuário, com redução do rebanho e menor disponibilidade de animais nos confinamentos.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte recuou para 27,9 milhões — queda de 13% — e o inventário total de bovinos está no menor patamar desde 1952, segundo o USDA.
Além da menor oferta de animais, a seca no oeste do país elevou custos com ração e reduziu pastagens, levando muitos pecuaristas a diminuir seus rebanhos ao vender parte do gado. Mesmo com sinais recentes de recomposição do rebanho, a recuperação leva tempo.
“Esse é um processo lento, pois leva de dois a três anos para criar um bezerro até o abate”, afirma Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.
Apesar da menor entrada de gado nos confinamentos em novembro de 2025 — uma queda de 11% em relação ao ano anterior —, o USDA identificou um dado que acende o alerta sobre o comportamento da oferta nos próximos meses.
Em 1º de dezembro, havia 11,727 milhões de bovinos confinados nos Estados Unidos, volume 2% menor que o registrado no mesmo período de 2024.
No entanto, “o número de animais que já ultrapassou 150 dias em confinamento cresceu 25% em um ano”, diz o relatório, sinal de que muitos bois prontos para o abate ainda não foram enviados aos frigoríficos.
O represamento tende a deslocar a oferta para o segundo semestre de 2026, quando esses animais terão de ser abatidos. O resultado deve ser um pico de abates concentrado num curto período, o que pode desorganizar o fluxo de produção e pressionar os preços no atacado, diz o USDA.
No ano passado, em razão da menor oferta e do tarifaço sobre a carne brasileira, os preços da proteína subiram nos Estados Unidos. A situação levou o presidente, Donald Trump, a elevar as importações de carne da Argentina em uma tentativa de conter a inflação.
Fonte: Exame.