União Europeia lidera a remuneração das exportações de carne bovina em MT
24 de março de 2026

Exportadores de carne para China têm risco ambiental na Amazônia

Nenhum dos frigoríficos que estão na Amazônia Legal e que são habilitados para exportar carne bovina para a China e Hong Kong atende plenamente às especificações ambientais recomendadas pela Associação Chinesa de Carnes (CMA, na sigla em inglês), segundo análise do Radar Verde obtida pelo Valor. As principais fragilidades ainda estão no controle de fornecedores indiretos e na exposição a risco de compra de gado bovino em áreas de desmatamento.

Paulo Barreto, pesquisador associado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e um dos coordenadores do Radar Verde, diz que o nível de atendimento a esses critérios não interrompe o fluxo de embarques de carne, mas pode servir de base para a distribuição das cotas de exportação do produto fornecido pelo Brasil. Essa é, ao menos, a sugestão da organização, que será apresentada em agendas na China, que começaram ontem e devem durar duas semanas.

“Na China, vamos falar com universidades, instituições da sociedade civil, representantes da indústria e acadêmicos que assessoram o governo na criação dessas políticas de cotas para a carne bovina. Empresas com menor risco e melhor pontuação poderiam acessar percentuais maiores na cota. É isso que a gente propõe”, afirma à reportagem.

Após uma investigação de salvaguarda, a China impôs cotas a seus principais fornecedores. O Brasil ficou com 1,1 milhão de toneladas sujeita à tarifa reduzida de 12%. Volumes excedentes pagarão taxas de 55%. Em janeiro e fevereiro, os frigoríficos brasileiros já consumiram 33,6% da cota.

O Radar Verde avaliou os frigoríficos à luz da “Specification for Meat Industry Green Trade”, norma da associação chinesa que define critérios de rastreabilidade, transparência e compromisso com desmatamento zero nas cadeias de suprimento. Na Amazônia, entre as 31 plantas habilitadas para a China, 21 apresentam baixo nível de controle socioambiental e 10 têm nível muito baixo. Apenas 20 delas monitoram fornecedores diretos de gado, e nenhuma comprovou mecanismos efetivos para controlar fornecedores indiretos.

Já nas plantas habilitadas a exportar para Hong Kong, que são 71, cerca de 61% têm baixo nível de controle socioambiental, e 55% monitoram apenas fornecedores diretos, segundo os dados.

O levantamento também mapeou as zonas potenciais de compra de gado dessas plantas frigoríficas na Amazônia Legal, e identificou risco de aquisição do boi em áreas de desmatamento que variam de cerca de 31 mil hectares a quase 3,8 milhões de hectares.

Apenas uma empresa, a Plena Alimentos, respondeu ao questionário Radar Verde 2025, que permite às companhias apresentar evidências e informações adicionais sobre suas políticas e práticas socioambientais. Segundo Barreto, todas as empresas foram questionadas. Grandes grupos como MBRF (antiga Marfrig), JBS, Minerva e Frigol aparecem na lista citados com efetividade muito alta no controle de fornecedores diretos, porém muito baixa no monitoramento de indiretos e, por isso, têm pontuação geral baixa.

Ao Valor, a MBRF informou em nota que monitora 100% dos fornecedores diretos e indiretos, por meio de um sistema que inclui tecnologias geoespaciais, cruzando bases públicas e protocolos próprios, “e atende às exigências ambientais de todos os mercados em que atua, incluindo a China”. A Minerva também disse que possui sistemas robustos de controle e monitoramento socioambiental e que está plenamente apta a atender às exigências regulatórias e comerciais de todos os mercados em que atua.

O Frigol afirmou que ainda não teve acesso ao relatório Radar Verde, mas disse que realiza, desde 2023, a verificação de 100% de seus fornecedores indiretos nível 1 no Estado do Pará. A JBS não respondeu.

Procurada, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) reafirmou ao Valor que o Radar Verde tem o “louvável” objetivo de auxiliar consumidores em suas decisões de compra, mas que acredita que há oportunidades de melhoria na metodologia estabelecida.

“Políticas das empresas relacionadas ao rigor na aquisição de matéria-prima não são consideradas. Por isso, mesmo indústrias com alta aprovação em auditorias do TAC (Termo de Ajuste de Conduta) podem aparecer de forma negativa nas análises do Radar Verde”, disse. Sobre a possibilidade de que o Radar Verde seja utilizado como critério para a distribuição de cotas pela China, a Abiec não comentou.

Fonte: Globo Rural.

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