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Genética de R$ 54 milhões: como é a rotina da vaca mais cara do mundo

O peso dos números: as prenhezes de Donna saem por até R$ 600.000, e os pacotes de 100 oócitos ficam na casa de R$ 3 milhões — Foto: Thiago de Jesus

Originários da Índia, os primeiros zebuínos nelore chegaram ao Brasil, onde encontraram condições ideais para ganhar escala produtiva, no fim do século XIX. Hoje, cerca de 85% do rebanho de corte nacional é de animais da raça, de acordo com a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB).

Essa concentração ajuda a explicar as cifras milionárias nas negociações da genética dos exemplares mais imponentes da raça. Fora do segmento, a compra de um animal por milhões de reais pode parecer apenas curiosidade de leilão, mas, na pecuária de elite, esse movimento é a consequência natural de um mercado bastante sofisticado.

Nos últimos anos, as negociações que puseram holofotes sobre as vacas mais caras do mundo tiveram um elemento em comum: todas essas vacas são nelore.

Em 2023, Viatina-19 FIV Mara Móveis figurou no Guinness World Records, o livro dos recordes, ao ser avaliada em R$ 21 milhões. Dois anos depois, Donna FIV CIAV ultrapassou a marca e chegou a impressionantes R$ 54 milhões, quando os grupos Traia Veia e Nelore Huff, do cantor sertanejo Murilo Huff, arremataram 25% de seu pacote genético no Leilão Cataratas Collection, em Foz do Iguaçu (PR). Os outros 75% estão sob posse de Mata Velha (25%), Casa Branca (25%) e Lucas Moura (25%).

A atual recordista vive hoje em Uberaba (MG), na Fazenda Mata Velha, uma das primeiras investidoras da matriz. O grupo comprou 50% do animal há cerca de quatro anos, por R$ 700.000. Naquele momento, Donna já chamava atenção, principalmente por ser filha de Parla FIV AJJ, matriz bastante conhecida entre os neloristas. “Nós sabíamos de seu potencial, mas ela conseguiu superar todas as expectativas”, celebra Fernando Barros, gerente da propriedade.

No universo da pecuária de elite, a linhagem conta uma história anterior ao próprio animal, já que ela atesta uma cronologia de resultados e desempenho produtivo, que o mercado acompanha com atenção.

Os pais de Donna são igualmente referência entre os pecuaristas: a mãe foi duas vezes Grande Campeã da ExpoZebu, em Uberaba, em 2009 e 2010, e o pai, o touro Big Ben da Santa Nice, foi Grande Campeão Nacional na Expoinel 1999, também em Uberaba, e na ExpoZebu 2000.

A procura pela genética de Donna multiplicou-se, acompanhando seus bons resultados e os de seus descendentes. Com isso, em um intervalo de poucos anos, o valor do animal pulou de R$ 1,4 milhão para os R$ 54 milhões do leilão de Foz do Iguaçu. Segundo Barros, esse enorme salto ocorreu porque o animal reúne justamente os critérios que os pecuaristas mais valorizam.

“É algo raro, difícil de se ver novamente. Não se trata apenas de uma matriz sofisticada. Temos uma doadora capaz de repetir resultado, de transmitir padrão, fertilidade, precocidade e correção racial em escala”, afirma. “É uma genética única na história.”

Donna também demonstrou ter enorme potencial para o melhoramento bovino, característica extremamente valiosa para o mercado, ao produzir com mais de 20 touros diferentes.

O valor multimilionário, no entanto, não se concentra em um único indivíduo, mas sim no que os criadores chamam de “combo genético”. O animal tem três clones idênticos, todos extremamente produtivos, que aumentam significativamente a produção de embriões – e, com isso, também a receita dos proprietários.

“O volume de embriões que Donna e seus clones produzem dá uma abertura genética gigantesca, o que nos permite multiplicar, valorizar e comercializar esse material em abundância. É isso que dá segurança para o investimento”, afirma o gerente.

Donna pode ter atraído holofotes, mas, no dia a dia da Mata Velha, não há grandes pirotecnias. O manejo do animal é bem mais individualizado do que o do restante dos animais da propriedade, mas sem extravagâncias. “É a combinação de simplicidade com eficiência”, resume Barros, que compara a rotina de cuidados de Donna com a de um atleta de alto rendimento.

Um de seus clones, a TM2, apelidada de Donninha, faz o papel de dama de companhia, junto com Alessandra, outra doadora valiosa para o grupo. As três ficam em uma área reservada na fazenda, sempre juntas, a fim de criar um ambiente de tranquilidade, sob supervisão de uma equipe de segurança que as vigia 24 horas por dia.

“Temos uma doadora capaz de repetir resultado, de transmitir padrão, fertilidade, precocidade e correção racial. É uma genética única na história” — Fernando Barros, gerente da Fazenda Mata Velha
A rotina de cuidados começa por volta das 9h. Todas as manhãs, a equipe leva o trio ao lavador, onde as vacas recebem banho, escovação e hidratação de chifres e orelhas, cuidados que ajudam a manter a pele sedosa e brilhante, e passam também por controle de ectoparasitas. Se for necessário oferecer qualquer cuidado mais específico, como ajuste de casco, os funcionários acionam o veterinário.

Depois disso, as vacas secam ao natural, descansam por alguns minutos e seguem para o piquete ao lado, onde passam boa parte do dia soltas em um ambiente com sol e sombra, antes de retornarem à baia, no fim da tarde. A dieta controlada consiste em pastagem natural, silagem, ração balanceada e feno em quantidades que um nutricionista ajusta para manter o trio com peso ideal e um bom escore corporal.

Segundo Barros, esse cotidiano bastante regrado tem efeito direto sobre a produtividade. Quanto mais o animal está acostumado à rotina, menos oscila o número de oócitos – as células germinativas femininas, que vão se transformar em óvulos quando maduras – obtidos nas aspirações de material genético.

“Esse equilíbrio entre nutrição, manejo, bem-estar e sanidade é fundamental para mantê-la saudável no longo prazo, tanto na parte fisiológica quanto reprodutiva”, diz o gerente.
A aspiração dos ovários ocorre mensalmente, respeitando a fisiologia das matrizes. Depois da coleta, os oócitos seguem para fertilização in vitro em laboratório, e os embriões que resultam desse processo são transferidos para as receptoras, chamadas de “barrigas de aluguel”.

Apenas dois veterinários têm autorização para fazer esse procedimento em Donna e seus clones, um cuidado que ajuda a preservar a saúde ovariana das matrizes e manter um padrão rigoroso no processo. Parte desse material permanece com os proprietários, e outra parte vai ao mercado, em uma operação com valores altíssimos.

Os números impressionam. As prenhezes de Donna custam de R$ 600.000 a R$ 700.000, e os pacotes de 100 oócitos ficam na casa de R$ 3 milhões. Cada filhote custa de R$ 700.000 a R$ 1 milhão, mas alguns já foram negociados por um valor cinco vezes maior. Fernando Barros observa que, por se tratar de uma genética tão rentável, em muitos casos, é melhor comprar do que vender, dado o retorno que os indivíduos podem gerar.

A grande rentabilidade potencial explica a própria estrutura da pecuária nelore no Brasil, que se organizou em torno de um sistema próprio de avaliação, seleção e liquidez. Exposições, julgamentos, campeonatos de progênie e leilões oficializados consolidaram, ao longo do tempo, um ambiente em que o valor de uma matriz tem lastro em critérios bem definidos de qualidade.

Nesse universo, um dos principais balizadores é o Ranking Nacional Nelore, da ACNB, competição em que Donna recebeu a Medalha de Ouro como Melhor Matriz na temporada 2023/24. Ela também acumula títulos de Progênie de Mãe na ExpoZebu e na Expoinel, e, embora esteja fora das pistas desde 2024, sua genética segue em evidência, com o destaque de alguns de seus filhos.

Criado em 1993 pela ACNB, o Ranking Nacional Nelore reúne os resultados que os animais conquistaram em exposições oficiais ao longo do ciclo. Nos julgamentos, avaliam- -se critérios como padrão racial, conformação de carcaça, estrutura, aprumos e, no caso das matrizes, características reprodutivas. O desempenho em pista ajuda a dar visibilidade aos exemplares e acaba exercendo influência sobre a valorização do exemplar no mercado.

Fonte: Globo Rural.

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