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Intoxicação por uréia em bovinos. Afinal, como prevenir este mal?

Estamos entrando na entressafra, momento bem delicado para os pecuaristas, afinal as forragens começam a decrescer em produção e aspectos nutricionais, podendo chegar a menos de 4% de proteína bruta (PB) na matéria seca (MS) entre os meses de junho a agosto. Existem alternativas para que não ocorra o famoso "boi sanfona", aquele que perde o que ganhou de peso durante a safra. Uma delas seria o confinamento ou semi-confinamento desses animais, ou seja, fornecer dietas que supram as exigências em PB, energia e minerais da categoria animal. A fonte de PB economicamente mais atrativa seria a utilização de fontes de nitrogênio não protéica, como a uréia.

Estamos entrando na entressafra, momento bem delicado para os pecuaristas, afinal as forragens começam a decrescer em produção e aspectos nutricionais, podendo chegar a menos de 4% de proteína bruta (PB) na matéria seca (MS) entre os meses de junho a agosto. Em muitas regiões do nosso país a estiagem acarreta sérios transtornos econômicos, pois interferem diretamente sobre o desempenho animal, principalmente relacionado ao ganho de peso.

Existem alternativas para que não ocorra o famoso “boi sanfona”, aquele que perde o que ganhou de peso durante a safra (gráfico 1). Uma delas seria o confinamento ou semi-confinamento desses animais, ou seja, fornecer dietas que supram as exigências em PB, energia e minerais da categoria animal. A fonte de PB economicamente mais atrativa seria a utilização de fontes de nitrogênio não protéica, como a uréia.

Gráfico 1. Ganho de peso a pasto durante o ano


Estima-se que cerca de 22,6% do nosso rebanho receba este ingrediente, seja por meio de confinamento, sistema cana e uréia ou sal proteinado. Entretanto, quando fornecido de maneira errônea, causam quadro de intoxicações prejudicando ainda mais o desempenho dos animais manejados com tal dieta. Cerca de 2.000 a 4.000 animais morram por ano desse mal.

A intoxicação ocorre por excesso de ingestão em animais adaptados ou pequenas quantidades em não adaptados, ou ainda, ingestão da uréia na forma líquida, o famoso “sopão de uréia”, isto ocorre devido aos veranicos durante a entressafra em sistemas de suplementação com uréia em cochos livres de coberturas e sem escoamento de água.

Deparados com o excesso de risco de perder o animal o proprietário muitas vezes adota uma postura que uréia é muito perigosa e não a emprega na sua propriedade. Conseqüência: desempenhos reduzidos na entressafra ou ameaçados por falta de informação.

Se por um lado podem ocorrer quadros de intoxicação, por outro a uréia é extremamente barata e trás muitas vantagens, do ponto de vista produtivo, pois melhorar o consumo de MS (normalmente pasto seco) aumenta a absorção e conversão alimentar do volumoso ingerido. Porém nessas horas vêm a seguinte pergunta: “Mas e a adaptação? Tem que ser reiniciada caso ocorra interrupção no consumo ou fornecimento?”

Fizemos um experimento e detectamos que a adaptação é extremamente necessária, porém em animais que nunca receberam ou consumiram uréia na vida, mas caso tenham sido alimentados com dietas contendo níveis de uréia e ocorra uma interrupção, por até 20 dias, os animais não precisam sofrer uma readaptação necessitando de doses maiores para que se intoxiquem.

A uréia ingerida chega ao rumem no qual é degradada pelas bactérias ruminais em amônia (NH3) – forma tóxica -, amônio (NH4) e energia, alcalinizando o meio ruminal. Fisiologicamente, o NH4 e a energia são convertidos em proteína bacteriana, porém já o NH3 é absorvido atingindo a corrente sanguínea onde é novamente metabolizado pelo fígado em uréia, convertendo em músculo (carne) e excretado na forma de NH4 pela urina e fezes do animal.

Em casos de intoxicação, por ingestão excessiva, as bactérias do rumem não dão conta de converter a uréia em proteína bacteriana deixando livre grande parte do NH3 no rumem e esta é rapidamente absorvida, por ser lipossolúvel, pela corrente sanguínea intoxicando o animal.

Contudo, a uréia em contato com liquido se transforma em NH4 e este no rumem é reduzido em NH3, causando quadros super agudos de intoxicação quando ingeridos na forma líquida devido ao excesso de NH3 livre no rumem, conseqüentemente, maior absorção e maior concentração circulante no organismo.

A sintomatologia é de origem nervosa já que o NH3 é lipossolúvel sendo depositado em grande quantidade no cérebro. O animal intoxicado apresentará sialorréia (não deglutição da saliva devido à paralisia da faringe), hiperestesia, desidratação, taquipnéia e taquicardia, nistagmo (movimentos oculares), incoordenação motora, quadros de tremores musculares evoluindo para convulsão e morte.

Para diagnosticar este quadro é importante saber o manejo alimentar, doses utilizadas de uréia na dieta total, problemas de misturadores, sintomatologia e tempo de fornecimento durante o dia uma vez que animais com fome comem rapidamente e em grandes quantidades.

Em quadros de intoxicação quando surgem os primeiros tremores musculares e o tratamento é empregado a cura é de 80%, entretanto quando o animal já apresenta sinais de convulsão a morte é de 100%. Para tal, alguns autores indicam como tratamento a retirada do conteúdo ruminal ou ingestão forçada de água gelada, conduto é difícil arrumar grandes quantidades de água gelada além de retirar boa parte do líquido ruminal de muitos bovinos intoxicados, uma vez que a dieta é fornecida em lotes e não individualmente. A água gelada ou retirada do liquido ruminal reduzem a absorção do NH3, mas o que foi absorvido e atingiu a corrente sangüínea faz com que o animal apresente intoxicação sistêmica. Nestes casos, é imprescindível a assistência de um médico veterinário para resolução do quadro sistêmico.

Para prevenir “surpresas” em bovinos alimentados com uréia são indicadas algumas medidas, como:

-Seguir o período de adaptação em animais que nunca receberam a uréia;

-Fornecer quantidades recomendadas prescritas por técnicos;

-Cobrir cochos contra chuvas e fazer furos para que a água escoe, não empossando;

-Ter “kit” de vinagre ou ácido acético 4% na fazenda para tratamento de emergência, pois estes se ligam a amônia no rumem transformando-a em NH4 que é hidrossolúvel, diminuindo assim sua absorção pela parede ruminal.

Lembre-se: quadro de intoxicação por uréia tem cura quando tratado no começo dos sintomas, mas é mais importante o tratamento sistêmico que o local, muitas vezes é este que vai ser fundamental para a vida do animal.

Referência Bibliográfica:

SANTOS, N.V.M. Eficiência da desintoxicação de amônia em bovinos adaptados ou não com uréia dietética e submetidos a diferentes períodos de privação. Tese de doutorado. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP:São Paulo, 2005.

KITAMURA, S.S. Intoxicação por amônia em bovinos e ratos: o desempenho renal na desintoxicação e o emprego de tratamentos alternativos. Dissertação de mestrado. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP:São Paulo, 2002.

ORTOLANI, E.L. Informações pessoais. 2008.

RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C.; BLOOD, D. C.; HINCHCLIFF, K. W. Clínica veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e eqüinos. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002. 1737 p.

14 Comments

  1. José Brígido Pereira Pedras Júnio0r disse:

    Excelente o artigo sobre como prevenir intoxicação por uréia.

  2. David de Castro Lima disse:

    Muito importante essa matéria, visto que muitos produtores fazem ao contrário, levando o seu proprio rebanho a beira da morte, exagerando a quantidade de uréia, esta de parabens a equipe de profissionais, pela excelente matéria, fazendo com que muitos pecuaristas observem bem seus procedimentos nas fazendas, e sempre que possivel estejam aparados por médicos veterinários, pois são esses que estarão ao seu lado para indicar, contra-indicar a uréia no seu rebanho.

    Um grande abraço.

  3. Rodrigo Cáceres disse:

    Tenho uma pequena dúvida: a diluição da uréia para suplementação de N não proteico é recomendada?

    Banhar a cana triturada ou outra fonte de forrageira. “Se a uréia em contato com liquido se transforma em NH4 e este no rumem é reduzido em NH3, causando quadros super agudos de intoxicação quando ingeridos na forma líquida devido ao excesso de NH3 livre no rumem, conseqüentemente, maior absorção e maior concentração circulante no organismo.”

  4. Thales dos Anjos de Faria Vechiato disse:

    Prezado José Brígido Pereira Pedras Júnior.

    Obrigado pelo elogio. Qualquer dúvida que possa surgir me coloco a disposição.

    Atenciosamente,

    Thales

  5. Fabio Jose Marsango disse:

    Assunto de extrema importancia e muito bem esclarecido! Parabens!

    Gostaria de implementar a informação sobre o uso de ureia que quando associada a uma fonte de enxofre na proporção de 10:1 (10 partes de ureia para 1 parte de enxofre), aliada com uma fonte de energia ( milho, milheto ou sorgo triturados), pode melhorar a conversão alimentar dos bovinos.

    Um forte abraço.

  6. Thales dos Anjos de Faria Vechiato disse:

    Prezado David de Castro Lima,

    Realmente muitos produtores desconhecem o assunto e quando aplicam acabam errando na dosagem, favorecendo quadros de intoxicação associado ao futuro preconceito contra este fabuloso ingrediente na dieta. O aparo de profissionais adequados é extremamente importante em sistemas intensivos de produção, uma vez que somos aptos a indicar dietas e corrigir possíveis intercorrencias nos fortificando no meio produtivo.

    Obrigado pelas colocações e elogios.

    Forte abraço.

    Thales

  7. Thales dos Anjos de Faria Vechiato disse:

    Prezado Rodrigo Cáceres

    O rúmen ter um forte potencial redutor em seu meio, o que muitas vezes nos coloca em situações delicadas frente a este tipo de suplementação. Por ocorrer essa redução de NH4 para NH3, a NH3 não é convertida em proteína microbiana e sim absorvida mais acentuadamente entretanto quando fornecemos uréia em grão essa redução fica “mais lenta” em relação a forma liquida. O problema está quando o animal bebe esta água com grandes concentrações de NH4.

    A diluição da uréia é indicada sim, pois fornecemos em pequenas proporções da dieta total do rebanho e não conseguiríamos obter uma mistura homogênia sem que esta fosse diluída.

    Espero ter esclarecido sua dúvida.

    Thales

  8. Adrian Castedo disse:

    Gracias por la orientación. Si el ganadero no protege de la lluvia la sal mineral proteinada con úrea, puede tener bajas inmediatas que el personal a cargo confunde con otras dolencias si no está debidamente capacitado. HAce poco padecí de estos efectos, agradezco nuevamente por el artículo.

  9. José Rodolfo Reis de Carvalho disse:

    Gostaria de saber como é feito essa adaptação dos animais e qual o máximo que deve ser fornecido de uréia.

    Meus parabéns pelo assunto exposto pois é de muita importância.

  10. Thales dos Anjos de Faria Vechiato disse:

    Prezado José Rodolfo Reis de Carvalho.

    Primeiramente gostaria de agradecer os elogios pelo artigo.

    A adaptação deve ocorrer por 15 dias com 0,5% de uréia e aumentando 0,5% a cada semana posterior a adaptação até atingir a dosagem desejada. O máximo de uréia fornecida vai depender de como será fornecida, categoria animal ou como será formulada, normalmente a dosagem de uréia é de:
    *35% da proteína bruta da ração;
    *1% total da matéria seca (MS);
    *1,5% MS da forragem;
    *3% MS do concentrado;
    *30% da mistura mineral.

    Espero ter ajudado, no mais me coloco a disposição para eventuais dúvidas.

    Sucesso.

    Thales.

  11. Renildo Rocha disse:

    Um excelente artigo, muito bom, coisas que demorei quase dois meses para entender, consegui entender lendo esse artigo.

    Um abraço e minha respeitosa gratidão pelo artigo, obrigado!

  12. Thales dos Anjos de Faria Vechiato disse:

    Prezado Renildo Rocha,

    Fico feliz pelos elogios. Realmente fiz um artigo de fácil leitura e compreensão.

    Obrigado pelas palavras!

    Caso tenha eventuais dúvidas, pode me procurar!

    Sucesso em sua carreira!

    Forte abraço,

    Thales

  13. Paulo Roberto Brandt disse:

    A uréia de adubação pode ser usada no trato animal? Qual o risco de residual na carne para consumo?

  14. Jairo do Prado Almeida disse:

    massa de soja ao passar do tempo pode estragar isto tras mal ao animal de corte