
A missão técnica do Japão que avaliará o sistema sanitário brasileiro para uma possível abertura de mercado do país asiático à carne bovina nacional chegou ao Brasil no fim de semana e terá agendas até 13 de abril. Apesar dos pedidos do governo brasileiro para ampliar a área avaliada, a auditoria será focada nos três Estados do Sul, os primeiros a obter certificado de livres de febre aftosa sem vacinação.
A auditoria in loco é uma etapa decisiva no longo processo de validação sanitária para aval aos embarques de carne, aguardada há décadas pelo Brasil. Depois da visita dos técnicos japoneses, o trâmite para autorização para o início das exportações é apenas documental. Ainda assim, há cautela no setor privado, e a demora na abertura não está descartada.
O Japão importa cerca de 700 mil toneladas de carne bovina por ano, 60% do consumo local anual, sobretudo dos Estados Unidos e da Austrália, com negócios que rondam US$ 4 bilhões anuais. Canadá, México, Nova Zelândia e Uruguai também exportam ao país.
O Brasil quer entrar nesse mercado, devido ao alto valor pago pelos japoneses pela carne — os preços médios variam entre US$ 4,5 mil e US$ 6,8 mil por tonelada — e para diversificar a pauta exportadora, ainda mais após a imposição de cotas pela China, principal cliente. Procurada, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) não comentou.
A comitiva é formada por auditores do Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca e da Organização Nacional de Pesquisa em Agricultura e Alimentos do Japão. Os resultados da auditoria serão analisados por um comitê de saúde animal japonês antes da tomada de decisão, que não tem prazo definido.
A reportagem apurou que o objetivo da inspeção será avaliar a consistência e confiabilidade do dossiê técnico — enviado pelo Brasil a partir do questionário feito pelos japoneses — e a aplicação efetiva da legislação e dos procedimentos sanitários pelos atores envolvidos. Os inspetores também vão analisar a efetividade das ações de vigilância e controle da febre aftosa em níveis nacional, regional e local. A intenção é comprovar a capacidade do país de prevenir, detectar e controlar a doença.
A avaliação do sistema sanitário pelos japoneses valerá para uma eventual abertura de mercado para os três Estados do Sul, apesar de pedidos do Brasil para incluir ao menos Rondônia e Acre, que também já tinham o reconhecimento de zonas livres de aftosa sem vacinação. O itinerário inclui visitas a fazendas de gado bovino, frigoríficos, laboratório federal agropecuário, estruturas de vigilância em aeroportos e divisas estaduais e agências de defesa agropecuária.
Uma vez vencida a barreira sanitária existente, apesar do status brasileiro e da presença da carne bovina nacional em mais de 160 países, o Brasil deverá tentar melhorar as condições comerciais de acesso ao Japão. Atualmente, exportadores enfrentam tarifas de até 38,5%, consideradas altas no mercado internacional. Os Estados Unidos, por exemplo, cobram 26,4% e a China, 12% dentro da cota definida no começo do ano.
Os técnicos que chegaram no último fim de semana vão visitar autoridades em saúde animal do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Como parte da avaliação de risco, eles vão analisar o arcabouço legal brasileiro e sua aplicação, as condições de produção e distribuição pecuária, dos estabelecimentos, a rastreabilidade e o controle da movimentação animal, a quarentena, o diagnóstico laboratorial, a vigilância e a resposta a uma eventual emergência em aftosa.
Há um termo de confidencialidade firmado entre os governos brasileiro e japonês para não divulgar informações sobre os cronogramas, locais a serem visitados, os preparativos para a inspeção in loco e demais detalhes operacionais relacionados, sob pena de cancelamento da missão.
Uma comitiva de especialistas sanitários japoneses já esteve no Brasil em 2025 para uma avaliação prévia, mas não oficial e definitiva, em itinerário semelhante ao de agora. As negociações para a abertura do mercado foram destravadas depois da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Japão, em março do ano passado, quando houve compromisso do primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, de envio da missão.
Logo depois, em junho de 2025, o Brasil recebeu o reconhecimento da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) de país livre da febre aftosa sem vacinação, uma das exigências feitas pelo Japão para adquirir carne de seus fornecedores.
Na semana passada, Yasushi Noguchi, embaixador do Japão em Brasília, afirmou em entrevista a um veículo de imprensa brasileiro que o país vive uma fase de expansão econômica e busca de maior resiliência na sua cadeia de suprimentos. Ele disse que, nesse cenário, as parcerias com o Brasil se tornam estratégicas e citou o processo de abertura para a carne bovina.
“Estamos dando passos para entrar na próxima etapa e esperamos que esse processo se acelere, e possamos decidir sobre a abertura do mercado de carne bovina”, disse em entrevista ao Poder360. Questionado sobre outros Estados que poderão ser avaliados, ele disse que a medida depende do resultado da inspeção no Sul e que, posteriormente, poderão conversar com as autoridades brasileiras para “ver qual será a próxima etapa”.
Fonte: Globo Rural.