
O especialista em estratégia global Justin Sherrard argumenta que o gado é fundamental para resolver os desafios globais de desnutrição e clima — desde que a indústria da carne bovina assuma o controle de seus dados e de sua própria narrativa.
Com base em sua atuação internacional nas áreas de clima, sustentabilidade e proteína animal, Sherrard afirma que o gado é indispensável para um sistema alimentar sustentável e que o setor da carne bovina precisa deixar uma postura defensiva e passar a exercer um papel de liderança confiante, baseado em evidências.
Sherrard foi o convidado principal do podcast “The Future of Beef Show”, episódio 18.
Atual presidente da Global Roundtable for Sustainable Beef (GRSB), Sherrard afirma que o gado continua sendo essencial para alimentar uma população crescente, ao mesmo tempo em que se trabalha dentro dos limites ambientais.
O episódio aborda temas que vão desde emissões de metano e sistemas alimentares globais até percepções dos consumidores e nutrição.
Sherrard explica que o gado passou a ser visto como vilão climático principalmente por causa do metano produzido durante a ruminação e por uma tentativa equivocada de aplicar ao sistema alimentar a mesma lógica usada no setor de energia. Na área energética, a solução para reduzir gases de efeito estufa costuma ser apresentada como “usar menos combustíveis fósseis e substituí-los por fontes renováveis”.
Essa lógica de substituição acabou migrando para os debates sobre políticas alimentares porque os ruminantes emitem metano. Assim, a solução proposta passou a ser: “ter menos gado e substituir seus produtos por outra coisa”.
Ele argumenta que isso é um erro de categoria. Sistemas alimentares não são intercambiáveis da mesma forma que elétrons em uma rede elétrica. Dietas envolvem nutrição, cultura, meios de subsistência e paisagens. Simplesmente remover o gado ignora a complexidade tanto da nutrição humana quanto do uso da terra.
Cinco pontos principais destacados no podcast incluem:
“Não vamos criar um sistema alimentar sustentável sem o gado”, afirma Sherrard.
Bovinos de corte e de leite são essenciais para transformar áreas de pastagem não agricultáveis em alimentos altamente nutritivos e devem ser vistos como parte das soluções para o clima e a segurança alimentar — e não apenas como fontes de metano.
Eliminar ou reduzir drasticamente o rebanho, como alguns críticos defendem, ignora tanto a contribuição nutricional da carne quanto o papel dos bovinos no aproveitamento de terras que não podem ser utilizadas para outros tipos de produção de alimentos.
Qualquer discussão séria sobre sustentabilidade precisa considerar o papel nutricional da carne bovina, não apenas sua pegada de emissões. Segundo Sherrard, o ponto de partida de qualquer debate sobre sustentabilidade deve ser a nutrição humana.
Ele destaca que cerca de 700 a 750 milhões de pessoas no mundo ainda não têm comida suficiente, e outros 2 bilhões sofrem com a falta de micronutrientes essenciais para uma vida saudável e para atingir seu pleno potencial. Nesse contexto, ele vê a carne bovina como um alimento particularmente valioso.
A carne bovina fornece micronutrientes essenciais com alta biodisponibilidade, o que significa que o corpo consegue utilizá-los de forma eficiente.
Para ele, a nutrição não é apenas uma necessidade técnica, mas também envolve prazer, cultura e tradições alimentares. Um sistema alimentar sustentável precisa respeitar essas dimensões.
Segundo Sherrard, “ser melhor” significa maior eficiência alimentar, melhor saúde e bem-estar animal, além de uma gestão mais eficiente do solo e das paisagens.
Essas práticas reduzem emissões ao mesmo tempo em que aumentam a produtividade e reduzem custos, melhorando tanto a sustentabilidade quanto a rentabilidade das fazendas.
Um tema recorrente nas falas de Sherrard é que a agricultura — e particularmente o setor da carne bovina — historicamente tem sido um comunicador fraco fora de seus próprios círculos. Ele afirma que isso precisa mudar.
Ele alerta que, se a indústria da carne não coletar e compartilhar seus próprios dados, outros o farão.
Segundo Sherrard, se pessoas de fora coletarem os dados e definirem as métricas, a carne bovina corre o risco de ser mal compreendida, mal interpretada e mal representada.
Produtores e mesas-redondas nacionais precisam compartilhar boas práticas, coletar métricas e enviar essas informações a organizações como a GRSB para que o setor possa demonstrar — e não apenas afirmar — seus avanços.
Ele observa que o interesse dos consumidores em saber como a carne é produzida aumentou rapidamente na última década. À medida que mais consumidores se preocupam com aspectos ambientais e éticos, a carne bovina precisa apresentar histórias claras, confiáveis e baseadas em dados para manter a confiança do público, o acesso aos mercados e, em última análise, seu espaço no prato dos consumidores.
Por meio da GRSB, Sherrard e outros representantes participam de reuniões climáticas das Nações Unidas, cúpulas sobre sistemas alimentares e debates sobre nutrição para defender o papel da carne bovina.
Ele afirma que, se o setor não estiver representado nesses espaços, grupos com agendas contrárias à produção animal ocuparão esse vazio e passarão a influenciar políticas, diretrizes e narrativas de consumo sem a perspectiva dos produtores.
Na visão de Sherrard, sustentabilidade não é apenas um modismo passageiro nem uma ameaça a ser suportada, mas sim um marco de longo prazo para manter a carne bovina viável, valorizada e competitiva em um mundo em transformação.
Ele resume que, ao seguir algumas estratégias-chave, o sistema global da carne bovina pode deixar de ser tratado como um problema climático e passar a ser reconhecido como parte da solução para o clima e para a nutrição:
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.