

As autoridades chinesas negaram o pedido do Brasil para redistribuir as cotas remanescentes de carne bovina não utilizadas por outros países exportadores, informaram fontes familiarizadas com o tema ao Agro Estadão. O pedido foi realizado pelo governo brasileiro no âmbito das negociações referentes às medidas de salvaguardas aplicadas pela China, desde o início deste ano, às suas importações de carne bovina.
Pelas regras do Ministério do Comércio da China — principal comprador da carne bovina brasileira —, cada país exportador deverá respeitar o limite anual de embarques. No caso do Brasil, o volume é de 1,106 milhão de toneladas — volume inferior ao exportado ao país asiático no último ano. Enquanto isso, países vizinhos como a Argentina e o Uruguai estão com cotas superiores aos seus embarques – 510 mil e 320 mil toneladas, respectivamente.
Além disso, as autoridades chinesas estipularam uma tarifa adicional de 55% aos volumes que excederem a cota estabelecida. Essa tarifa será aplicada sobre as alíquotas já em vigor para cada país exportador. As medidas serão implementadas por três anos até 31 de dezembro de 2028.
Na última semana, o vice-presidente do Brasil e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, demonstrou preocupação em relação às salvaguardas da China. Em telefonema com o vice-presidente da China, Han Zheng, ressaltou a relevância do setor pecuário para a economia brasileira e enfatizou a importância do tema para o governo brasileiro.
A negativa da China às reivindicações brasileiras não surpreendeu o mercado pecuário. Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, a redistribuição de cotas entre países exportadores contrariaria o objetivo das salvaguardas adotadas por Pequim. “Do ponto de vista prático, parecia difícil que as reivindicações do Brasil fossem aceitas, especialmente a possibilidade de absorver cotas de outros mercados. Quando a China distribuiu essas cotas, o objetivo era justamente controlar o fluxo de importações e estimular a produção local”, disse.
O analista destaca que, embora a medida possa gerar pressão inflacionária, com preços mais elevados no mercado chinês, a estratégia do governo asiático é reduzir a dependência externa.
Outro ponto considerado negativo para o Brasil é o critério adotado pela China para computar as cotas tarifárias. Segundo Iglesias, os volumes são contabilizados independentemente da data de embarque, pois consideram a chegada da mercadoria ao País. “Mesmo cargas vendidas em novembro ou dezembro e que estejam chegando agora à China vão compor a cota de exportação de 2026, o que reduz o espaço disponível para novos embarques brasileiros”, explica.
Apesar do cenário, Iglesias pondera que a diversificação de mercados para o Oriente Médio, Europa e outros países da Ásia tem limitado os impactos das salvaguardas chinesas sobre as exportações brasileiras de carne bovina.
Mesmo assim, diante desse cenário, a Safras & Mercado projeta um recuo nas exportações brasileiras de carne bovina em 2026. Atualmente, a consultoria estima um volume de 3,28 milhões de toneladas para este ano — uma redução de cerca de 4% em relação ao registrado em 2025 (3,43 milhões de toneladas).
Fonte: Estadão.