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Preços do boi gordo caem na entressafra

Os preços do boi gordo estão em queda em plena entressafra, contrariando a expectativa dos produtores. Nos últimos 40 dias, a arroba do boi gordo caiu 3,8%. O aumento da oferta de animais confinados, o clima atípico e o abate de matrizes são apontados como causas dessa baixa, quando normalmente o preço deveria estar reagindo.

Segundo o analista Paulo Molinari, da Safras & Mercado, está ocorrendo uma sazonalidade invertida, pois em maio o boi estava valorizado e agora o preço está em queda.

“O clima este ano foi atípico, fazendo com que as ofertas de gado ocorressem em períodos diferentes”, diz a pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), Shirley Menezes. Segundo ela, no início do ano o produtor segurou animais e agora está ofertando esse gado, já que as chuvas ainda não vieram em intensidade. Com a pastagem seca, o pecuarista gasta na suplementação alimentar do animal. O alto custo para deixar o boi em confinamento não compensa, assim, a alternativa é vendê-lo. “A chuva atrasada causa apreensão ao produtor, que se descarta do animal”, diz o analista da FNP Consultoria, José Vicente Ferraz.

Outro fator determinante é o aumento do confinamento de animais. Segundo os analistas, no início do ano, a expectativa era de que a arroba do boi estivesse valorizada na entressafra, por causa das vendas externas em alta, o que não ocorreu, mas estimulou a produção. Também com o clima atípico, houve antecipação desse confinamento. “Desde o final de agosto há pressão dos animais confinados, quando geralmente isso ocorre em outubro”, afirma Ferraz.

De acordo com Molinari, houve um acréscimo de 8% no número de animais confinados. No ano passado foram 1,94 milhão de cabeças confinadas e, neste ano esse número subiu para 2,1 milhões. O analista diz ainda que, com as exportações em alta, muitos frigoríficos também fizeram confinamento próprio, com medo de falta de abastecimento, e agora estão usando seus animais.

“Maior que o volume, a influência principal nos preços é a oferta nesse período”, afirma Shirley. Molinari acrescenta que o câmbio em baixa também está prejudicando a formação do preço, pois o dólar alto poderia estimular ainda mais as vendas externas.

Outro fator apontado por ele é que a relação de troca entre o bezerro e o boi gordo está favorável à reposição, ou seja, o pecuarista se desfaz do animal e adquire animais novos para a engorda. Segundo ele, a relação é de cerca de 2,5 bezerros para cada boi gordo abatido. “Mesmo que o preço do boi suba, com essa relação de troca, é melhor vender o boi e ficar com o bezerro”, afirma Molinari.

O analista da FNP Consultoria, José Vicente Ferraz explica que, como não há perspectiva de melhora de preço, o pecuarista acaba vendendo. Molinari também afirma que, se a demanda interna estivesse aquecida, o quadro poderia ser diferente. Mas, segundo a sua avaliação, não há crescimento no consumo de carne.

Ferraz acrescenta que outra causa da queda dos preços é um ciclo grande, superior a dois anos, de abate de matrizes. Neste período, a pecuária cedeu áreas à agricultura. Segundo ele, um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que no primeiro trimestre do ano o abate de fêmeas foi 27% maior em relação ao mesmo período do ano passado. Por sua vez, naquela época, o descarte foi 52% maior. “Se previa uma reação desse ciclo por agora, que ainda não ocorreu”, destaca Ferraz.

Para Molinari, a perspectiva é que a partir da segunda quinzena de outubro o mercado possa se reverter, pois deverá haver um hiato entre o fim da oferta de animal confinado e o da safra nova, uma vez que a seca foi mais extensa e atrasará a entrada desses animais. Ferraz também acredita que haverá melhora de preço, uma vez que o gado que está sendo abatido antecipadamente, além disso, há a demanda crescente por exportação.

Fonte: Gazeta Mercantil (por Neila Baldi), adaptado por Equipe BeefPoint

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