
A pecuária bovina dos Estados Unidos atingiu em 2026 o menor nível de rebanho dos últimos 75 anos, segundo o mais recente relatório anual de inventário de gado divulgado pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). De acordo com o levantamento, o país conta atualmente com 86,2 milhões de cabeças de gado e bezerros, número que representa uma queda de 0,35% em relação ao ano anterior e consolida uma trajetória de redução que já dura três anos.
O dado mais preocupante para a cadeia da carne é a redução do rebanho de vacas de corte, que caiu 1% e agora soma 27,6 milhões de cabeças. Para Derrell Peel, especialista em mercado pecuário da Universidade Estadual de Oklahoma, o relatório confirma que o setor segue encolhendo. “A indústria tecnicamente ficou um pouco menor em 2025. O padrão de redução continua o mesmo dos últimos anos”, afirma.
Outro número que chama atenção é a safra de bezerros de 2025, estimada em 32,9 milhões de cabeças, a menor desde 1941. Isso significa que os níveis atuais de produção voltaram ao patamar de mais de 80 anos atrás, o que deve impactar diretamente a oferta de animais para engorda e, consequentemente, a produção de carne nos próximos anos.
Mesmo em 2014, ano marcado por forte liquidação do rebanho, a safra havia sido maior, em torno de 33,5 milhões de bezerros. Agora, a escassez tende a ser ainda mais sentida, especialmente em um cenário de demanda firme por carne bovina.
O relatório também mostrou leve aumento no número de novilhas destinadas à reposição, que subiu 1% e chegou a 4,71 milhões de cabeças. Apesar disso, analistas avaliam que o movimento ainda é insuficiente para caracterizar uma retomada consistente do rebanho.
Patrick Linnell, diretor de pesquisa da consultoria CattleFax, classifica o cenário como “otimista, mas ainda incerto”. Segundo ele, há alguns sinais iniciais de retenção, mas nada que permita afirmar que o ciclo de reconstrução começou de fato.
Historicamente, quando os produtores norte-americanos entram em fase de expansão, cerca de 21% das novilhas são retidas para reprodução. Em 2025, esse índice ficou em torno de 17%, bem abaixo do necessário para um crescimento expressivo do rebanho.
Outro ponto que reforça a dificuldade de recuperação é o volume de abate de novilhas. Em 2025, cerca de 9,5 milhões de novilhas foram abatidas, número 7% menor que em 2024, mas ainda elevado. Isso representa aproximadamente 52% das fêmeas com mais de 230 quilos de peso vivo existentes no início do ano — patamar considerado alto para um momento de possível reconstrução.
Em ciclos anteriores de retenção, esse percentual variava entre 39% e 49%, indicando que hoje ainda há forte pressão de curto prazo sobre a oferta de carne.
Com menos bezerros disponíveis e oferta cada vez mais restrita, a expectativa dos analistas é de manutenção — ou até intensificação — dos preços recordes do boi e da carne bovina nos Estados Unidos ao longo de 2026.
“Os preços já estão em níveis históricos e ainda devem subir mais, tanto para o gado quanto para a carne”, afirma Derrell Peel. Segundo ele, o fator decisivo não é apenas a escassez de oferta, mas também a força da demanda. “Mesmo com a carne mais cara em relação ao frango e ao suíno, o consumidor não está migrando. Isso é um sinal extremamente positivo para o setor”, avalia.
Apesar do cenário favorável em preços, a recomposição do rebanho será lenta. Um bezerro nascido em 2025, se retido para reprodução, só produzirá sua primeira cria por volta de 2027, e essa cria só entrará no mercado de carne a partir de 2029.
Ou seja, mesmo que o processo de retenção se intensifique agora, os efeitos práticos sobre a oferta de carne só serão sentidos no longo prazo.
Para Peel, o recado do mercado é claro: há espaço e incentivo econômico para aumentar a produção.
“O valor das pastagens está aí, os preços estão aí. Se o produtor tem área e condição de criar bezerros, o mercado está pedindo isso. A mensagem é aproveitar esse momento”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele alerta para a necessidade de manter a produtividade do rebanho. Como o descarte de vacas foi muito reduzido nos últimos anos, parte dessas matrizes precisará sair do sistema em algum momento, exigindo reposição apenas para manter o nível atual, antes mesmo de pensar em expansão.
Apesar do encolhimento do rebanho, especialistas lembram que a pecuária americana vem ganhando eficiência produtiva. Hoje, cada vaca produz mais carne do que no passado, o que ajuda a suavizar parte do impacto da redução numérica.
Mesmo assim, a combinação de menor número de animais, safra recorde de baixa e demanda aquecida mantém o mercado em uma situação de forte aperto de oferta — cenário que sustenta o atual ciclo de preços elevados da carne bovina nos Estados Unidos.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.