
Uma crise sanitária no rebanho bovino da Rússia está chamando a atenção internacional. Inicialmente acreditava-se tratar de casos isolados de pasteurelose (septicemia hemorrágica), relatados no início de fevereiro de 2026 na Sibéria, mas agora há relatos de uma epidemia mais ampla se espalhando para o oeste, em direção ao Volga e à região dos Urais.
A crescente emergência chama atenção não apenas pela escala da resposta, mas também pelas dúvidas sobre qual doença exatamente as autoridades russas podem estar enfrentando.
Em 19 de março, o Serviço Agrícola Estrangeiro (FAS) do USDA começou a acompanhar relatos de que as autoridades veterinárias russas estavam respondendo a surtos de pasteurelose e possivelmente raiva entre bovinos, centrados no distrito de Kupinsky, em Novosibirsk. Os relatos indicam que as medidas de controle do governo russo escalaram para apreensões em larga escala de animais, quarentenas, controle de movimentação e abate de rebanhos em várias áreas de Novosibirsk.
O abate, que se acredita ter começado no início de março, pode em breve atingir centenas de milhares de animais, sem sinais de desaceleração. O alvo principal são bovinos de corte e leite. O rebanho bovino do país gira em torno de 17 milhões de cabeças.
Os relatórios do FAS sugerem que a escala da resposta indica um surto de algo muito mais grave do que a pasteurelose — provavelmente febre aftosa (FMD). O vírus da febre aftosa é um patógeno altamente contagioso que afeta animais de casco fendido, incluindo bovinos, suínos e pequenos ruminantes.
Embora as suspeitas de febre aftosa não tenham sido confirmadas pelas autoridades russas, a pasteurelose normalmente é tratável, o que não justificaria o abate em massa. Além disso, o fato de as autoridades veterinárias russas terem declarado estado de emergência na região de Novosibirsk tem gerado preocupação internacional.
A família de Jamila Jaxaliyeva cria gado na região do Cazaquistão Ocidental, que faz fronteira com a Rússia. Relatos preocupantes estão surgindo da região vizinha de Astrakhan sobre a apreensão de bovinos saudáveis pelas autoridades russas, retirados de produtores que, seguindo tradições de gerações, deixam seus rebanhos soltos.
As apreensões não parecem estar diretamente ligadas ao surto da doença, cujo epicentro permanece mais a leste, na Sibéria, embora Jaxaliyeva tenha confirmado que a crise evoluiu para uma ampla e forçada redução de rebanhos em toda a Rússia, provocando protestos de produtores que afirmam que as medidas estão ameaçando seus meios de subsistência.
“Está muito ruim para os produtores russos — e para todos por lá”, disse Jaxaliyeva. “Batendo na madeira, essa doença, seja qual for, ainda não cruzou a fronteira com o Cazaquistão — pelo menos não que saibamos.”
Jaxaliyeva concordou com a hipótese de que tudo indica febre aftosa. Caso contrário, segundo ela, é difícil acreditar que as autoridades russas estariam tomando medidas tão drásticas de abater tantos animais em modo de crise.
“É difícil saber o que realmente está acontecendo”, disse Jaxaliyeva. “Mas estamos ouvindo relatos de que um produtor pode sair de manhã para buscar correspondência na cidade e voltar para encontrar todo o seu gado abatido enquanto estava fora.”
Ela acrescentou que animais saudáveis provavelmente também estão sendo alvo de abate pelas autoridades russas na tentativa de criar uma ampla zona de contenção ao redor do surto.
A compensação também se tornou um ponto de tensão. Relatórios do FAS indicam que o governo russo está oferecendo cerca de 170 rublos por quilo (aproximadamente US$ 0,95 por libra) como compensação pelos animais abatidos — valor que muitos produtores afirmam não refletir o valor real dos animais.
Enquanto isso, começam a surgir implicações comerciais. Em 17 de março, o Cazaquistão impôs restrições às importações de gado e ao trânsito de produtos de origem animal vindos da Rússia.
Jaxaliyeva destacou que a fronteira entre Cazaquistão e Rússia é a mais longa fronteira internacional contínua do mundo, com cerca de 7.640 km. Ela atravessa completamente a estepe eurasiática aberta, com poucas barreiras naturais. Ela descreveu a paisagem e o clima como semelhantes aos do centro e norte de Dakota do Norte.
Ela teme que produtores russos possam considerar mover animais ilegalmente para o Cazaquistão para escapar do abate imposto pelas autoridades russas.
A situação é ainda mais complicada por preocupações sobre a eficácia das vacinas contra febre aftosa na Rússia e a eficiência das estratégias de controle da doença no país, o que ameaça o status sanitário russo. Em 29 de maio de 2025, a Organização Mundial de Saúde Animal reconheceu a última zona da Rússia (Sibéria Ocidental/Urais) como livre de febre aftosa, onde a vacinação é praticada.
O relatório do USDA, no entanto, aponta que veterinários da região acreditam que as vacinas atuais são inadequadas e possivelmente até prejudiciais ao gado.
Há também insinuações de que o vírus da febre aftosa faz parte do arsenal de armas biológicas herdado pela Rússia da União Soviética em 1991. Os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos afirmam que o exército russo pode ainda manter estoques de armas biológicas prontas para uso.
No entanto, o vírus da febre aftosa é notoriamente difícil de ser replicado e mantido em laboratório. Além disso, o produto resultante apresenta baixa virulência, o que torna improvável que esse surto recente, caso seja de fato febre aftosa, esteja relacionado ao uso do patógeno como arma biológica sistêmica.
Fonte: Beef Mafazine, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.