

O Congresso Nacional deve avançar, nesta semana, nas discussões internas rumo à aprovação do acordo Mercosul-União Europeia no Brasil. O País sai um pouco atrás de outros vizinhos, como a Argentina, onde a Câmara dos Deputados já aprovou o texto, abrindo caminho para a análise dos senadores.
O tratado, assinado no início deste ano depois de mais de 26 anos de negociações, cria o maior bloco de livre comércio do mundo, unindo cerca de 718 milhões de consumidores e beneficiando diversos setores da economia, entre os quais está o agronegócio. No Brasil, conforme noticiado pelo Agro Estadão, os benefícios englobam diversos elos da cadeia.
Nesse contexto, encontra-se também a cadeia de couro brasileiro que, ao longo dos últimos anos, acompanhou uma desaceleração de seus embarques. De acordo com Rogério Cunha, gestor de inteligência comercial do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), a União Europeia responde atualmente por cerca de 20% das exportações brasileiras de couro, tanto em valor quanto em volume, considerando os dados consolidados de 2025.
Segundo o especialista, o principal ganho imediato estaria na eliminação da tarifa de importação aplicada ao couro brasileiro. Atualmente, o imposto cobrado dos compradores europeus varia entre 5,5% e 6,5%, conforme a classificação do produto, dependendo do acabamento do couro, mas sobretudo, do produto de maior valor agregado.
Com a desgravação tarifária imediata prevista no acordo, o produto brasileiro chegaria ao cliente europeu sem esse custo adicional, ampliando sua competitividade frente a fornecedores de outros países. “Então, os clientes europeus do couro brasileiro vão deixar de pagar esse imposto lá e nós vamos passar a ser mais competitivos”, destaca Cunha.
A mesma opinião é reforçada por Francisco Beduschi, líder da National Wildlife Federation (NWF) no Brasil. Para ele, a retirada da tarifa europeia, somada às exigências de rastreabilidade ligadas à lei antidesmatameto da União Europeia — que foi adiada duas vezes, com novo prazo para começar a valer no encerramento deste ano —, tende a estimular a consolidação de uma indústria de identificação individual mais robusta no País.
Ele lembra que o Brasil já avança na rastreabilidade individual dos bovinos e bubalinos, no entanto, o sistema ainda está baseado, majoritamente, na rastreabilidade dos lotes. “O Brasil já trabalha com rastreabilidade há bastante tempo. São mais de 30 anos de trabalho de rastreabilidade. […]O que a gente vai precisar fazer agora é transformar essa experiência da rastreabilidade por lote em uma rastreabilidade individual para poder atender todos os requisitos da União Europeia”, afirma.
O otimismo dos especialistas baseia-se nos histórico passado de embarques aos europeus. Segundo dados compilados pela CICB, em 2017, o Brasil chegou a exportar aproximadamente 200 milhões de metros quadrados de couro para a União Europeia. O volume é equivalente a cerca de 12 milhões de peles.
Atualmente, porém, esse volume está próximo de 6 milhões, uma retração de 50% em termos físicos. “Nós projetamos a possibilidade de crescer com as nossas exportações para a Europa. Uma vez que nós já tivemos uma participação maior em termos de volume, acreditamos que o mercado está lá e existe a condição de buscarmos esse espaço novamente”, reforça Rogério.
Na percepção do especialista, isso significa que o couro nacional pode se tornar mais atraente para segmentos estratégicos da indústria europeia, como o automotivo e de artefatos de moda. Nesse cenário, a Itália, terceiro maior importador mundial de couro e principal porta de entrada do produto brasileiro na Europa, com concentração de cerca de 8% de participação do Brasil em suas compras externas, continuaria sendo uma peça-chave para o setor.
Espanha, Alemanha, França e Portugal também figuram entre os mercados relevantes. Com a tarifa zerada, a expectativa é de ganho gradual de share também nestes destinos.
Conforme destacado anteriormente, o líder da NWF no Brasil acredita que o desafio da rastreabilidade da cadeia do couro, uma vez que o produto é derivado da cadeia pecuária, não deve ser encarado apenas como um obstáculo, mas como oportunidade estratégica.
Além disso, para Beduschi, o fato de o couro não estar sujeito a cotas no acordo amplia o potencial de ganhos. “O acordo Mercosul-União Europeia e a lei antidesmatamento caminham juntos. Um abre mercado, o outro exige organização. Se o Brasil aproveitar essa combinação para estruturar melhor sua cadeia, o setor de couro pode sair mais forte do que entrou”, salienta.
Nesse cenário, ele acredita que o avanço do Brasil no mercado europeu dependerá diretamente da capacidade de adaptação da cadeia como um todo às conformidades ambientais.
Fonte: Estadão.