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75% dos economistas preveem impacto econômico relevante caso a bicheira continue se espalhando nos Estados Unidos

A confirmação dos primeiros casos de bicheira do Novo Mundo (New World Screwworm – NWS) nos Estados Unidos não provocou grandes turbulências imediatas no mercado pecuário, mas o cenário pode mudar caso a doença avance para novas regiões. É o que mostra a mais recente edição do Farm Journal Ag Economists’ Monthly Monitor, levantamento que ouviu especialistas em economia agrícola sobre os possíveis efeitos da praga na pecuária americana.

A pesquisa revela que 75% dos economistas agrícolas acreditam que a disseminação da bicheira provocaria impacto econômico moderado, significativo ou severo sobre o setor. Ao mesmo tempo, nenhum dos entrevistados considera que o risco atual seja catastrófico, indicando que a situação ainda é vista como administrável desde que o avanço da praga seja contido.

Mercado reagiu pouco à confirmação dos primeiros casos

O primeiro caso de bicheira do Novo Mundo foi confirmado no sul do Texas, próximo a La Pryor, em 3 de junho. Até 30 de junho, o número de casos confirmados havia chegado a 27, distribuídos entre Texas e Novo México.

Logo após o anúncio, os contratos futuros de gado de reposição registraram queda superior a US$ 5 por hundredweight (cwt), mas recuperaram praticamente todas as perdas já no dia seguinte. Segundo os economistas consultados, não houve impacto perceptível no mercado físico de bovinos, pois a possibilidade da chegada da praga já vinha sendo precificada pelos agentes do mercado.

Para Derrell Peel, especialista em comercialização de pecuária da Universidade Estadual de Oklahoma, a confirmação dos casos trouxe até certo alívio ao mercado.

“Foi quase um suspiro de alívio. Não porque fosse uma boa notícia, mas porque finalmente aconteceu. A expectativa e a incerteza sobre quando isso ocorreria eram provavelmente piores do que a própria confirmação.”

Segundo Peel, a presença da bicheira não altera os fundamentos da oferta de bovinos e, por isso, não deve provocar mudanças expressivas nos preços do gado ou da carne bovina.

“O problema é enorme para os produtores localizados nas áreas infestadas e para os órgãos responsáveis pelo controle da doença. É um desafio muito caro de manejo, mas não representa, neste momento, um impacto para todo o mercado”, resumiu.

Custos aumentam onde a praga está presente

David Anderson, professor e especialista em comercialização de pecuária da Texas A&M University, concorda que os efeitos econômicos tendem a ser regionais.

Segundo ele, os maiores custos decorrem da necessidade de aumentar a frequência das inspeções nos animais, tratar os casos confirmados e dedicar mais tempo ao controle da praga.

Na avaliação do pesquisador, a intensidade dos impactos dependerá principalmente da gravidade e da duração do surto.

“Também é importante reconhecer que se trata de um problema regional. Toda a faixa sul dos Estados Unidos pode ser suscetível”, afirmou.

Avaliação sobre a resposta do governo ainda é dividida

A pesquisa também investigou como os economistas avaliam a atuação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Os resultados mostram que o setor ainda não chegou a um consenso:

  • 40% afirmam que ainda é cedo para avaliar a eficácia das medidas adotadas;
  • 33% consideram a resposta adequada;
  • 7% acreditam que ela foi mais do que adequada;
  • 20% avaliam que a atuação do governo foi parcialmente inadequada.

Para Anderson, existe uma ferramenta cuja eficácia já foi amplamente comprovada.

“As moscas estéreis funcionam. Sabemos como controlar essa praga”, afirmou.

Na opinião do pesquisador, o principal erro foi não iniciar mais cedo a construção de uma nova unidade de produção de moscas estéreis, à medida que a praga avançava em direção ao norte do México.

Maioria apoia reabertura da fronteira com o México, mas com maior controle sanitário

Mesmo após a confirmação da entrada da bicheira nos Estados Unidos, a maior parte dos economistas consultados defende a retomada das importações de bovinos mexicanos.

Segundo a pesquisa:

  • 71% apoiam a reabertura da fronteira;
  • 64% defendem que isso ocorra apenas com protocolos reforçados de inspeção e tratamento sanitário;
  • apenas 29% acreditam que a fronteira deveria permanecer totalmente fechada.

Os entrevistados entendem que o comércio continua sendo importante para a pecuária americana, desde que acompanhado de medidas rigorosas de biossegurança.

David Anderson afirmou que não teria fechado a fronteira.

Segundo ele, a decisão trouxe consequências negativas para ambos os países.

Os confinamentos e frigoríficos americanos perderam uma importante fonte de abastecimento de bovinos, contribuindo para a redução da oferta e para preços mais elevados. Ao mesmo tempo, os pecuaristas do norte do México passaram a terminar e abater mais animais dentro do próprio país, aumentando a produção mexicana de carne bovina.

“Na prática, exportamos parte da produção de carne dos Estados Unidos para o México e perdemos parte desse valor agregado”, afirmou.

Kenny Burdine, economista da Universidade de Kentucky, acrescentou que muitos confinamentos americanos dependem historicamente da entrada de bovinos mexicanos.

Segundo ele, quanto mais tempo durar o fechamento da fronteira, maior tende a ser o fortalecimento da indústria mexicana de carne bovina, que poderá se tornar uma concorrente ainda mais importante no futuro.

Mesmo com uma eventual reabertura, Derrell Peel acredita que o retorno do fluxo de animais será gradual.

Ele prevê que poucos bovinos deverão cruzar a fronteira antes do outono, considerando o tempo necessário para reabrir os pontos de entrada, preparar os animais e também porque julho e agosto não costumam ser meses favoráveis para o transporte de gado.

Seca continua sendo a maior preocupação da pecuária

Embora a bicheira seja considerada uma ameaça importante, ela ainda não aparece como o principal fator de risco para a sustentabilidade econômica da pecuária americana.

Na classificação elaborada pelos economistas, a maior preocupação continua sendo a seca e as condições climáticas adversas.

Na sequência aparecem:

  • preços da carne bovina no varejo e demanda dos consumidores;
  • custos de produção;
  • bicheira do Novo Mundo e outras pragas;
  • incêndios florestais;
  • lobos.

Para Burdine, a seca continua representando um desafio maior do que a própria bicheira.

Ele também demonstrou preocupação com a reação dos consumidores diante dos atuais níveis de preços da carne bovina, especialmente durante a temporada de churrascos no verão americano.

David Anderson compartilha dessa avaliação.

Segundo ele, se os Estados Unidos não tivessem enfrentado sucessivos períodos de seca nos últimos anos, o país hoje teria um rebanho maior e produziria mais carne bovina.

“A seca continua sendo um dos principais fatores que impedem a expansão do rebanho. A demanda por carne bovina permanece muito forte e é justamente essa combinação entre oferta restrita e consumo elevado que mantém os preços em níveis recordes”, afirmou.

Impacto pode ir além da pecuária

Apesar de não prever efeitos relevantes sobre os preços pagos pelos consumidores, Anderson chama atenção para outro aspecto frequentemente esquecido: a fauna silvestre.

Segundo ele, a bicheira do Novo Mundo pode causar prejuízos significativos às populações de cervos, afetando diretamente uma atividade econômica importante em diversos estados americanos.

“A caça de cervos movimenta muito dinheiro. A bicheira tem potencial para devastar populações de animais silvestres e isso pode gerar grandes impactos econômicos, inclusive para pecuaristas que obtêm parte importante de sua renda com o arrendamento de áreas para caça”, concluiu.

Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

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