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Calor extremo ameaça produção de alimentos no planeta, diz FAO

Ondas de calor extremo mais frequentes e intensas estão ameaçando a produção de alimentos no planeta, segundo um relatório divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Meteorológica Mundial (WMO).

Para a maioria das culturas agrícolas, segundo o relatório, a produtividade começa a cair a partir dos 30°C, quando as células se enfraquecem, afetando a distribuição de energia na planta. O estudo aponta como exemplo a seca no Brasil na safra 2023/24, quando as temperaturas chegaram a 7°C acima da média, e houve perdas de até 20% na produtividade.

Conforme o relatório, desde 2017 temperaturas máximas mais de 5°C acima da média histórica entre a primavera e o outono têm sido comuns. “De forma geral, as ondas de calor têm se tornado mais intensas e mais frequentes no Brasil. Esses períodos mais secos estão muito evidentes nas áreas centrais do país, com estiagens prolongadas que afetam a produtividade no campo”, diz Ana Maria Heuminski de Avila, agrometeorologista do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri).

Para Jean Ometto, pesquisador sênior no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla inglês), os efeitos das ondas de calor têm sido debatidos cada vez mais no mundo, mas sobretudo no Brasil que sofre por ser uma potência na produção de grãos e na pecuária.

Segundo ele, estudos recentes feitos pelo Inpe mostram que as ondas de calor aumentam ano a ano, em intensidade e frequência. “A agricultura do Brasil é muito dependente de irrigação. Nossa agricultura é tropical, mas as plantas têm um limite de operação. As ondas de calor impactam a biologia e fisiologia das plantas, como no enchimento dos grãos de soja e milho e na floração do café”, exemplifica.

O relatório da FAO afirma que na pecuária mundial, a mortalidade em bovinos em condições de calor extremo pode chegar a 24% do rebanho. Na pecuária leiteira, o estudo aponta que o calor extremo já é responsável pela perda de 1% da produção no mundo e também afeta a qualidade do leite.

O relatório cita um acompanhamento feito por pesquisadores da ONU durante um episódio de calor extremo na região central do Brasil entre 2023 e 2024. Segundo eles, as temperaturas altas amplificaram o estresse em suínos, gerando danos fisiológicos que afetam as capacidades de alimentação do animal.

“Quando você precisa ter o controle do ambiente por mais tempo, como com ventilação constante, o consumo de energia é maior, aumentando o custo para manter uma temperatura ideal para o desenvolvimento potencial dos animais em geral”, diz Ana de Avila.

O calor extremo também representa risco à vida de trabalhadores no campo, segundo o estudo da FAO. A pesquisa aponta que o número de dias por ano considerados muito quentes para o trabalho rural pode chegar a 250 no sul da Ásia, na África Subsaariana e partes da América do Sul e Central.

Além dos extremos climáticos mais frequentes, a safra 2026/27 no Brasil ainda deve ser afetada pelos efeitos do El Niño. Dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) indicam que, em 2026, a chance de formação do El Niño entre maio e julho é de 61%, subindo para 79% entre junho e agosto e chegando a 87% entre julho e setembro.

Apesar de alguns modelos apontarem para um El Niño mais intenso nesta temporada, não é possível prever com precisão a força do fenômeno até seu início, mas os impactos mais comuns podem ser esperados. “Para o Sul, há aumento das chances de chuvas volumosas. O Norte e Nordeste podem ter períodos mais longos de seca, enquanto a tendência para a região central do país é de calor”, afirma Ana de Avila, do Cepagri.

Fonte: Valor Econômico.

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