

As incertezas impostas no mercado pela cota de importação de carne bovina da China vão exigir resiliência dos frigoríficos brasileiros no segundo semestre de 2026. A escassez do produto a nível mundial e a expansão dos negócios do Brasil com outros países são apontados como saídas para os abatedouros nacionais por Júlio Ramos, diretor de Assuntos Estratégicos da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
“É um ano de muitos desafios. A pecuária mundial vive esse desafio de oferta de gado, de oferta de carne, mas o Brasil é resiliente, tem um trabalho consolidado como grande player e importante parceiro no combate à insegurança alimentar. Temos trabalhado com parceiros globais para levar carne de qualidade”, afirmou à reportagem nessa quarta-feira (20/5), após o encerramento da participação brasileira da Sial China 2026, em Xangai.
Ramos ressaltou que a qualidade do produto nacional e a rigidez sanitária reconhecida mundial faz com que o setor crie boas expectativas, apesar dos percalços conjunturais, como a queda do câmbio e as dificuldades econômicas do país. “O Brasil está preparado. Há uma grande demanda e temos que pensar também na oferta, vamos superar mais essa”, acrescentou.
Segundo ele, mercados como os Estados Unidos e países do sudeste asiático, como Indonésia, Malásia e Cingapura, podem entrar na mira dos frigoríficos brasileiros para direcionar cargas que não irão para a China após o esgotamento da cota, previsto agora para julho. Na Sial, as empresas brasileiras negociaram embarques para os chineses apenas até o fim de junho.
“Vislumbramos não só sudeste asiático, mas vizinhos como Argentina, Chile. O México também é um importante consumidor”, apontou. “Teremos a expansão com os EUA em 2026 e muitos outros mercados que os EUA atendiam o Brasil pode passar a atender”, concluiu.
Júlio Ramos lembrou que a pecuária bovina brasileira mudou de patamar nos últimos anos por meio da relação com a China e das exigências de sanidade e qualidade feitas pelo país. “O Brasil se aprimorou e aprendeu a lidar com as condicionantes, e cada vez mais agregar valor à sua produção junto ao seu maior parceiro comercial”, disse. Agora, é hora de novo ajuste de rota, segundo ele.
A estratégia para os próximos meses, disse ele, passa pelo olhar para o mercado interno, principal cliente dos frigoríficos e que tem sido beneficiado pelo equilíbrio financeiro que a indústria obtém com as vendas externas. O Brasil, maior produtor e exportador mundial, vende cerca de 30% da produção total de carne bovina para outros países.
“Esses produtos exportados, muitas vezes com valor agregado, fazem com que a produção local tenha um preço mais razoável. Exportamos produtos que não estão no dia a dia do brasileiro, não está na cultura do brasileiro, com valor maior e isso consegue fazer um balanço para que a carne que fica no Brasil fique com preço mais acessível”, indicou. “O que exportamos faz com que o brasileiro continue comendo carne de qualidade. Isso acaba com o estigma que o Brasil exporta o que tem de melhor. O Brasil com a exportação tem agregado valor”, concluiu.
Fonte: Globo Rural.