
A tarifa extra aplicada pela China sobre volumes de carne bovina importados fora da cota será de 55%, o que levará o custo total para 67%, considerado “impraticável” pela maioria dos exportadores brasileiros e compradores chineses num primeiro momento.
Mas a venda pontual de cortes específicos, com alta demanda na China, não está totalmente descartada. Representantes dos frigoríficos nacionais dizem que quando houver mais clareza sobre custos e preços, o envio de algumas peças pode fazer sentido economicamente e render negócios.
É o caso do músculo dianteiro e traseiro, da bananinha (corte retirado da região da costela bovina), da costela e do lagarto. A avaliação na indústria é de que a produção continuará alta no Brasil e que o mercado interno não terá apetite para absorver a sobreoferta desses cortes, mesmo com uma eventual queda nos preços dessas peças.
Esses negócios, no entanto, vão depender dos ajustes que ocorrerão a partir de julho e da conjuntura que se formará ao fim da cota brasileira.
“Acho que vai abrir espaço para a venda de alguns cortes que ainda podem fazer sentido mesmo com a taxa. Pode haver uma redução de preço no Brasil e aumento na China, e as coisas podem se encaixar”, avaliou Luciano Pascon, CEO da Frigol. “É uma balança, mas em volume só a China consome, não tem outro mercado”, afirmou.
Não houve negociações nesses termos até agora entre Brasil e China. Nenhum lado quis assumir o risco de pagar a sobretaxa nos contratos atuais. Pascon salientou que tudo vai depender de quanto os importadores estarão dispostos a pagar pelo produto.
O brasileiro prefere cortes para churrasco. Já o chinês compra principalmente partes do dianteiro do boi usadas para cozimento.
Flávio Silva, gerente de exportação da Masterboi, disse que será necessário observar o comportamento dos preços ao consumidor chinês no fim da cota e identificar negócios que ainda sejam rentáveis com o imposto adicional. Segundo ele, o spread da China em relação a outros mercados ainda é maior e a venda de cortes específicos pode fazer sentido.
“Se o preço [da carne na China] reagir, alguns cortes podem ser interessantes, pois a China tem um preço acima de outros países”, apontou. “Se ainda for atrativo, mesmo com alguma redução [de cotação pelos frigoríficos], nada significativo, talvez a gente continue exportando, mas imagino que isso vá se focar em um corte isolado ou outro”, avaliou.
Fabrizzio Capuci, diretor-executivo da Naturafrig, acredita em parcerias estratégicas para o futuro dos negócios com os chineses, para consolidar e aumentar o volume exportado para lá e agregar mais valor.
Recentemente, a Naturafrig fechou parceria com uma empresa chinesa, que importa carne de bois confinados, processa e porciona. As peças são colocadas em bandejas, que chegam aos freezers dos supermercados com a logomarca da companhia. “É a evolução da carne brasileira, ter parcerias estratégicas para esse processamento. É o futuro”, disse Capuci.
É assim que a indústria brasileira vai conseguir agregar valor e se posicionar melhor no principal parceiro comercial, mesmo com desafios de limitação de volume com a cota, defendeu.
“Dentro da China existem vários países, é parecido com o Brasil. São várias culturas e formas de consumo. Nosso objetivo é achar esses nichos, distinguindo o que dá para fazer de diferente”, apontou. “Já existe esse mercado, agora é necessário encontrar o parceiro estratégico para levar o produto direto ao consumidor, o que agrega valor e, principalmente, coloca nossa marca”, acrescentou.
Na visão de Pedro Bordon, CEO da Estrela Alimentos, a China deixou os frigoríficos brasileiros na “zona de conforto” por muitos anos, com negócios bons e fáceis em termos de volume e rentabilidade, e que a imposição da cota vai forçar mudanças.
“Vai ser um segundo semestre mais estratégico, mais planejado. Os traders vão voltar a fazer o que faziam antes, que é desmontar o boi: esse corte vai para esse mercado, aquele corte vai para outro lugar”, observou.
Nesse cenário de incertezas em relação à China, a previsão no mercado de déficit de 1,5 milhão de toneladas de carne bovina no mundo neste ano, dada a restrição de oferta nos EUA e Austrália, é quase um alento. Isso porque o Brasil poderia atender a demanda de outros países importadores.
Fonte: Globo Rural.