

As exportações de carne bovina da Austrália para a China praticamente chegaram a uma paralisação nas últimas semanas, à medida que o setor se aproxima rapidamente do acionamento de uma tarifa adicional de 55% sobre os embarques que excederem a cota anual estabelecida pelo governo chinês.
A medida, anunciada pela China em 1º de janeiro de 2026, estabeleceu uma cota de 205 mil toneladas para a carne bovina australiana. Uma vez ultrapassado esse volume, todas as importações adicionais passam a pagar uma tarifa de 55% até o final do ano. O volume permitido representa cerca de dois terços do total exportado pela Austrália para a China em 2025.
O Brasil, principal concorrente da Austrália no mercado chinês, também enfrenta em 2026 um sistema semelhante de cota e tarifa, criado por Pequim com o objetivo de proteger a indústria doméstica de carne bovina diante do crescimento das importações.
Dados divulgados pela consultoria Expana mostram que a Austrália atingiu 90% da cota anual em 1º de junho. O ritmo de embarques acelerou significativamente à medida que o limite se aproximava. Segundo os dados, foram necessários apenas 17 dias para o país passar de 80% para 90% do volume autorizado. Antes disso, foram necessários 51 dias para avançar de 50% para 80% da cota.
Com cargas já embarcadas por navio ou em trânsito por transporte aéreo, os exportadores acreditam que os 10% restantes serão rapidamente preenchidos. Na prática, isso significa que o acesso livre de tarifas ao mercado chinês está praticamente encerrado para este ano.
Segundo um importante frigorífico exportador do sul da Austrália, poucos operadores estão dispostos a continuar enviando carne para a China neste momento.
“Ninguém colocará carne em um navio para a China a partir desta semana”, afirmou o executivo ao Beef Central.
A justificativa é simples: considerando o tempo de viagem, que varia entre duas e três semanas, a mercadoria chegaria à China quando a cota já estivesse esgotada, passando automaticamente a sofrer a incidência da tarifa de 55%, o que elevaria drasticamente o custo final do produto.
O setor já começa a ajustar os preços diante dessa nova realidade. Algumas operações ainda podem ocorrer após a entrada em vigor da tarifa, especialmente quando exportadores e importadores concordarem em dividir parte do impacto financeiro.
Segundo o exportador, alguns produtos considerados estratégicos para o mercado chinês podem continuar sendo comercializados, embora em volumes muito menores.
“Peças como peito bovino e ossos, que a China procura constantemente, podem continuar entrando mesmo com a tarifa. Mas os volumes serão bem menores por causa do aumento dos preços”, explicou.
Outro grande exportador australiano afirmou que sua empresa não pretende compartilhar os custos da tarifa com clientes chineses.
“Essa é uma tarifa aplicada aos importadores, não aos exportadores”, declarou.
Segundo ele, cada frigorífico poderá adotar estratégias próprias de negociação com seus clientes, mas sua empresa não discutiu qualquer mecanismo de compensação tarifária durante a recente feira SIAL, realizada em Xangai.
A expectativa é que ocorra uma interrupção temporária no fluxo comercial. Entretanto, caso os estoques chineses de carne australiana comecem a diminuir ao longo do segundo semestre, algumas negociações poderão ser retomadas no terceiro ou quarto trimestre.
O fechamento efetivo do mercado chinês já está provocando impactos imediatos e, em alguns casos, bastante significativos nos preços da carne bovina no mercado atacadista australiano.
Os reflexos são mais evidentes em cortes tradicionalmente direcionados à China, que começam a se acumular no mercado doméstico.
Fontes do setor relatam que cortes resfriados de animais terminados em confinamento, como filé-mignon, contrafilé e porterhouse, registraram quedas de preço entre 15% e 20% no atacado australiano.
Segundo um trader de carnes de Brisbane, a redução está diretamente relacionada à perda do mercado chinês.
“Existem ofertas de carne para entrega imediata sendo negociadas com descontos bastante significativos. Dependendo do corte, especialmente os cortes do lombo, as quedas chegam a 15% ou 20%”, afirmou.
Embora outros fatores também influenciem o mercado, ele acredita que o fechamento do acesso à China seja o principal motivo da pressão sobre os preços.
Além da questão chinesa, o setor enfrenta outros desafios. A Austrália já utilizou cerca de 88% de sua cota de exportação para a Coreia do Sul em 2026. Soma-se a isso o cenário geopolítico internacional e a expectativa de que o Brasil também esgote sua própria cota de exportação para a China nos próximos meses.
Na avaliação do mercado, compradores de países como Estados Unidos e Japão já começam a adotar uma postura cautelosa.
Esses clientes acreditam que a menor demanda chinesa poderá gerar uma oferta maior de carne australiana disponível para outros destinos, favorecendo preços mais baixos nos próximos meses.
Uma expectativa existente entre exportadores era que a China voltasse a realizar grandes compras de carne australiana no final do ano para formar estoques antes da eliminação da tarifa em 1º de janeiro de 2027.
No entanto, especialistas em acesso a mercados explicaram que as regras chinesas para armazenagem alfandegada de carnes são muito mais restritivas do que as adotadas por outros países.
Segundo essas regras, somente produtos que chegarem ao país aproximadamente duas semanas antes da retirada da tarifa poderão ser colocados nesses estoques especiais.
Na prática, isso limita fortemente a possibilidade de antecipação das compras durante o quarto trimestre.
Além disso, a Austrália possui capacidade limitada de armazenamento refrigerado para manter grandes volumes de carne estocados até o início do próximo ano.
Outro obstáculo é financeiro.
“Seria necessário muito capital de giro para comprar grandes quantidades de carne e deixá-las armazenadas em câmaras frias por meses esperando uma oportunidade futura de venda”, explicou uma fonte ligada ao setor de acesso a mercados.
O cenário reforça o descompasso que começa a surgir entre os preços historicamente elevados pagos pelo gado para abate e o enfraquecimento observado nos mercados de carne.
Enquanto as exportações australianas enfrentam dificuldades, a China anunciou nesta semana uma medida favorável ao Brasil.
Em 2 de junho, as autoridades chinesas reconheceram oficialmente todo o território brasileiro como livre de febre aftosa, eliminando restrições sanitárias que anteriormente limitavam as exportações de algumas regiões.
Até então, apenas determinados estados brasileiros possuíam autorização para exportar carne bovina para a China sob determinadas condições sanitárias.
Com o novo reconhecimento, todas as regiões do país passam a operar sob o mesmo status sanitário perante o mercado chinês.
O anúncio foi considerado um avanço importante para o Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo.
Autoridades brasileiras destacaram que a ampliação do acesso poderá gerar bilhões de dólares em comércio adicional ao longo dos próximos anos, além de influenciar preços internacionais, cadeias de suprimento e fluxos globais de proteína animal.
No entanto, a notícia também possui um lado menos favorável.
Assim como a Austrália, o Brasil também caminha rapidamente para atingir sua própria cota de exportação para a China em 2026. Analistas acreditam que o limite brasileiro poderá ser alcançado nos próximos meses, o que colocaria os exportadores brasileiros diante de desafios semelhantes aos enfrentados atualmente pelos australianos.
O resultado é um cenário de incerteza para o comércio global de carne bovina. Com os dois maiores fornecedores internacionais enfrentando limitações de acesso ao principal mercado importador do mundo, os próximos meses deverão ser decisivos para a formação dos preços internacionais da carne e para o redirecionamento dos fluxos comerciais entre os principais países exportadores e importadores do setor.
Fonte: Beef Central, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.