

A duas semanas de entrar em vigor o bloqueio da União Europeia às proteínas animais brasileiras — os europeus alegam que o Brasil não tem comprovado o controle do uso de antimicrobianos nas cadeias produtivas —, pecuaristas reforçaram os argumentos pela utilização desses insumos no país. Os produtores têm defendido a segregação dos bovinos cuja carne será enviada para o bloco por meio do protocolo privado para certificação de cumprimento das exigências sanitárias.
No início de junho, o Ministério da Agricultura homologou o Protocolo de Exportação de Bovinos Livres de Antimicrobianos. Como o mecanismo destina-se a pecuaristas que desejam vender à UE, ele não impõe exigências adicionais aos demais criadores.
Em julho, 20 fazendas haviam aderido ao instrumento, mas, agora, já são 220 propriedades, disse ao Valor uma fonte que participou ontem da reunião da Câmara Setorial da Carne Bovina do Ministério da Agricultura. Todos os frigoríficos que têm habilitação para exportar para a UE e as empresas certificadoras já participam do protocolo.
Mas a volta do Brasil à lista de países aptos a exportar para os europeus pode estar próxima, ainda que venha a ocorrer paulatinamente. “Trabalhamos para realistar (…) neste semestre. O fornecimento depende muito do período da cadeia”, disse o ministro da Agricultura, André de Paula, a uma rádio de Pernambuco.
Ele acreditou que as aves, que têm ciclo de 45 dias, voltarão à lista antes do que a carne bovina, que, por ter ciclo mais longo, não deverá retornar em setembro. No momento, o cronograma da UE prevê retirar a autorização aos exportadores brasileiros de carnes bovina e de aves, além de pescados, ovos e mel, a partir de 3 de setembro.
Para o ministro, ficar fora da lista pode afetar as vendas não apenas ao bloco, mas a um conjunto de até 18 países que seguem as exigências sanitárias europeias e poderão replicar o veto aos produtos brasileiros.
O aval dependerá, além disso, de auditoria da UE nesse novo modelo de produção e comprovação de que os pecuaristas não estão usando antimicrobianos, relatou uma fonte. Na cadeia de carne bovina, a discussão passou a girar em torno da oferta de estímulos para que os pecuaristas permaneçam no sistema de certificação para exportar à UE, prosseguiu a fonte. Isso ocorre porque, até agora, não há garantias de que o protocolo e as comprovações que a fiscalização agropecuária oficial tem apresentado serão suficientes para viabilizar os embarques ao mercado europeu.
“É preciso que as empresas interessadas em exportar mantenham incentivo econômico para os produtores”, disse. O incentivo econômico seria, por exemplo, o pagamento de um prêmio pela arroba aos pecuaristas que participam do protocolo.
A questão é que a resposta europeia pode demorar e, até lá, os frigoríficos também não recebem a mais pela carne. Por outro lado, sem estímulo, criadores podem sair do protocolo, o que limitaria a oferta de produto para exportação quando o mercado for reaberto. “A indústria que quiser exportar tem que incentivar os produtores pelo pagamento do prêmio, mesmo correndo o risco de o mercado fechar”, completou a fonte.
O ministro André de Paula repetiu que “todo o governo está envolvido” na busca de uma solução para a questão. Os esforços incluem o chanceler Mauro Vieira, para ações na área diplomática, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em tratativas de Estado. “Estamos trabalhando intensamente para que isso [interrupção no fornecimento] não ocorra. Tenho expectativa favorável em relação a essa questão”, disse na entrevista.
Ele disse que há questões econômicas e políticas por trás das exigências técnicas. “A carne bovina brasileira tem competitividade enorme. Muitos países da Europa têm carne oito vezes mais cara que a nossa. É evidente que por trás de exigências sanitárias também existem interesses que a gente compreende”, afirmou.
O ministro lembrou que os países europeus têm interesse em manter comércio de seus produtos com o Brasil e que o governo brasileiro tem “instrumentos importantes” para usar na negociação.
Fonte: Globo Rural.