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8 de outubro de 2026

O que diferencia os 25% mais rentáveis da pecuária australiana?

Nem o preço mais alto do gado nem simplesmente cortar despesas parecem ser suficientes para explicar por que algumas fazendas de pecuária de corte apresentam resultados financeiros consistentemente melhores na Austrália.

A edição de 2026 do Australian Beef Report mostra que a diferença de desempenho entre a média do setor e os 25% de produtores com melhores resultados financeiros permaneceu consistente nos últimos três anos, mesmo em um período marcado por preços recordes e maior volatilidade.

Elaborado pela Bush Agribusiness e publicado a cada três anos, o relatório analisa propriedades de pecuária de corte em diferentes regiões da Austrália. A edição atual, a quarta desde 2017, utiliza dados das pesquisas nacionais anuais da ABARES com pecuaristas especializados com mais de 200 cabeças e informações da base de clientes da própria Bush Agribusiness. Em alguns casos, há até 15 anos de histórico financeiro disponível.

A conclusão central é relativamente simples: os melhores resultados estão ligados principalmente à capacidade de produzir mais carne por animal, mantendo uma estrutura de custos competitiva.

Produtividade pesa mais que simplesmente cortar custos

O relatório afirma que manter um rebanho produtivo e uma base de custos competitiva costuma ser o caminho mais eficiente para melhorar os resultados.

Um dos pontos destacados é que uma receita maior explica mais as diferenças de lucro entre as propriedades do que custos menores.

“Os custos não deixam de ser importantes, mas a receita é mais importante”, afirma o relatório.

Isso não significa que os melhores produtores simplesmente vendam seus animais por preços maiores. Segundo a análise, eles conseguem receitas superiores principalmente porque possuem rebanhos mais produtivos e, portanto, produzem mais quilos de carne para vender por unidade animal.

O relatório também chama atenção para uma interpretação comum sobre custo de produção. Como a própria expressão começa pela palavra “custo”, pode existir a percepção de que a melhor maneira de reduzi-lo seja simplesmente gastar menos.

Na maioria das propriedades analisadas, porém, esse não é o caminho apontado pelos dados.

“Aumentar a produção para que haja mais quilos sobre os quais distribuir os custos da propriedade geralmente é a melhor maneira de reduzir o custo de produção”, afirma o documento.

Quanto custa produzir entre os melhores?

A diferença aparece claramente quando são comparados os custos de produção.

No norte da Austrália, os 25% de produtores com melhor desempenho financeiro apresentaram custo médio de A$ 1,79 por quilo de peso vivo, diante de A$ 2,49/kg na média da região.

No sul, o grupo dos 25% melhores registrou A$ 2,35/kg, enquanto a média chegou a A$ 3,40/kg.

O relatório sugere que as empresas de pecuária de corte busquem um custo de produção inferior a A$ 2,00/kg de peso vivo. Para sistemas de cria de alto desempenho, a referência indicada é A$ 1,50/kg.

Não é, segundo os autores, uma meta fácil. Para alcançá-la, são necessários escala, disciplina e foco constante na produtividade do rebanho, além de gastos direcionados e eficiência no uso da mão de obra.

Escala ajuda, mas não resolve tudo

O tamanho da operação também aparece como um componente importante do desempenho.

De maneira geral, o lucro do rebanho aumenta à medida que cresce a escala da propriedade, refletindo economias de escala e a redução dos custos fixos por unidade animal.

Os produtores menores chegam a obter receita maior por unidade animal, em parte porque tendem a estar localizados em regiões mais produtivas. O problema é que essa receita adicional é consumida por custos também mais elevados, levando, na média, a prejuízos.

Conforme o tamanho do rebanho aumenta, a receita por unidade animal diminui, mas os custos caem em proporção ainda maior, aumentando o lucro.

A escala é uma limitação relevante para grande parte da pecuária australiana. Mais de 50% dos produtores do norte e 75% dos produtores do sul trabalham com menos de 800 cabeças. Na média, propriedades desse tamanho apresentaram prejuízo nas duas regiões.

Mas o próprio relatório faz uma ressalva importante: escala, sozinha, não garante rentabilidade.

Produtores pertencentes ao grupo dos 25% melhores, mesmo quando possuem rebanhos menores, conseguem superar de forma consistente a média de propriedades pertencentes à categoria imediatamente superior de tamanho.

Na prática, aumentar o rebanho precisa vir acompanhado de eficiência operacional e custos competitivos.

Cria ou recria e engorda?

O relatório também compara sistemas de cria com operações voltadas ao crescimento dos animais.

Nos últimos 12 anos, as operações de recria e engorda apresentaram, em geral, maior resultado antes de juros e impostos por unidade animal do que os sistemas de cria.

Parte da diferença está relacionada às próprias características dos sistemas e das terras onde são desenvolvidos.

Na média, as operações de recria e engorda produziram 126 kg de carne por unidade animal, diante de 93 kg nos sistemas de cria. O giro médio foi de 111%, contra 45%, respectivamente.

Animais em crescimento conseguem converter a alimentação disponível em peso comercializável de maneira mais direta do que animais mantidos para reprodução.

Além da maior produtividade e do giro mais rápido, essas operações receberam preços ligeiramente maiores e obtiveram mais receita por quilo produzido. A produção adicional foi suficiente, em média, para compensar sua estrutura de custos mais elevada.

Isso, entretanto, não significa automaticamente maior retorno sobre os ativos. As operações de recria e engorda normalmente são realizadas em terras mais produtivas e, consequentemente, mais valorizadas. Assim, um resultado operacional maior por unidade animal não necessariamente se transforma em maior rentabilidade sobre o patrimônio.

Valorização da terra responde por grande parte da geração de riqueza

Outro resultado importante do relatório vai além da produtividade do gado.

Os dados mostram uma tendência de longo prazo na qual a valorização da terra tem gerado mais riqueza para os pecuaristas australianos do que a própria produção de carne bovina.

No sul da Austrália, o retorno operacional médio dos últimos 12 anos ficou praticamente no ponto de equilíbrio. Ainda assim, o retorno total médio dos negócios chegou a 5,8%, resultado atribuído integralmente à valorização das terras.

No norte, o retorno total médio foi semelhante, de 5,9%. Desse resultado, apenas 1 ponto percentual veio do retorno operacional, enquanto 4,9 pontos percentuais tiveram origem na valorização da terra.

“Isso significa que, na média, todo ou quase todo o retorno de longo prazo do setor vem do aumento do valor das terras”, afirma o relatório.

O fenômeno também ajuda a explicar uma aparente contradição dos últimos anos. Os lucros recentes permanecem superiores aos observados na média dos 12 anos anteriores, mas a rentabilidade caiu porque o valor das terras aumentou.

Quanto maior o patrimônio necessário para gerar determinado lucro, menor tende a ser o retorno percentual sobre os ativos.

Patrimônio elevado, mas pouco dinheiro disponível

Essa dependência da valorização da terra levanta outra questão: a capacidade das propriedades de gerar caixa suficiente para financiar o próprio negócio.

No norte, uma propriedade pecuária média, com A$ 18 milhões em ativos, gerou lucro médio após juros de apenas A$ 73 mil nos três anos até 2025.

No sul, o cenário foi ainda mais desafiador: propriedades com média de A$ 11 milhões em ativos registraram prejuízo médio de A$ 40 mil.

Com pouca geração de caixa depois das despesas operacionais e dos juros, sobram poucos recursos para investimentos de maior prazo, como redução de dívidas, melhorias na propriedade, expansão, aposentadoria e planejamento sucessório.

Até mesmo os 25% melhores, que apresentam retorno operacional médio de longo prazo entre 2% e 3%, precisam ter cautela com o endividamento. Segundo o relatório, dívidas elevadas podem consumir todo o capital disponível para esses investimentos.

Os autores alertam ainda que aproximadamente metade do setor possui pouco capital de giro disponível depois de pagar despesas correntes e juros. Se os valores das terras pararem de subir ou sofrerem uma correção, o patrimônio financeiro dessas propriedades também poderá ficar sob pressão.

Afinal, o que os 25% melhores fazem diferente?

Depois de comparar regiões, escalas e sistemas produtivos, o Australian Beef Report 2026 identifica quatro características recorrentes entre os produtores de melhor desempenho.

Eles possuem rebanhos mais produtivos, gerando mais quilos de carne e mais receita por unidade animal; direcionam melhor os gastos com o rebanho, normalmente gastando menos diretamente e ainda assim alcançando maior produtividade; utilizam a mão de obra com maior eficiência, administrando mais unidades animais por trabalhador; e operam em maior escala.

A mensagem final do relatório é que os melhores produtores não estão protegidos das oscilações do mercado. Eles enfrentam os mesmos ciclos de preços que os demais.

A diferença é que produtividade elevada e custos competitivos criam margens maiores e tornam essas empresas mais preparadas para atravessar tanto os períodos favoráveis quanto os momentos de baixa.

“Apesar da exposição igual aos altos e baixos do ciclo, os melhores produtores superam consistentemente a média”, conclui o relatório.

Fonte: Beef Central, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

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